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Reflexões que Guimarães tece

Artigo de opinião

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Reflexões que Guimarães tece

Neste aqui remanso de um mundo rural em vias de extinção e que, outrora, quando integrado no todo equivalente concelhio, era cantado como de romântico bucolismo minhoto, (ainda que agora se encontre sitiado num envolvimento crescente de artefactos edi­ficados de agressão des­trutiva), consegue-se evocar, em esquisita associação idealizada, a onda de pro­gresso que se conta ter sido aportada pelas profanadoras invasões romanas, total­mente interesseiras e, sobremaneira, um episódio destas: a gesta de Numância. Ressalvadas, claro, todas as diferenças e desproporções; já que não há qualquer hipótese de equiparar situações em si mesmas tão díspares como a água do azeite. Mas a essência da sensação que possa ter ocorrido, ou ocorra, tem, ou poderá ter, uma mesma base: num caso, a da ausência de um qualquer vislumbre de saída condigna e que conduziu à lenda do auto-sacrifício colectivo; no outro, o de um profundo desalento. E nesta derradeira impressão o que ressalta é o desrespeito pelo ambiente; o constante sacrifício da natureza quase inalterável que herdamos de séculos anteriores e de que alguns, os mais velhos, se poderão ainda recordar.
Assim e quando se enche a boca com uma nova con­decoração de capital verde europeia, talvez não fosse despiciendo atentar em algumas realidades facilmente verificáveis. No­meadamente as que se prendem com itens que se afirmam justificar a candidatura a apresentar este ano e de que se destacam o transporte local, a natureza e biodiversidade, a gestão da água e da integração ambiental.
Convenhamos, entre­tanto, que os exemplos de anteriores classificações não nos ajudam muito. Sabido que entre a proposta e a atribuição, por o estatuído, decorrem três anos, a verdade é que, das cidades portuguesas que concorreram (Lisboa, Porto, Cascais, Funchal), nenhuma viu a sua pretensão premiada. E as que o foram em 2015 e 2016, respectivamente, Bristol e Liubliana (anteriormente haviam sido Copenhague, em 2014; Nantes, em 2013; Vitoria-Gateiz, em 2012; Hamburgo, em 2011; e Estocolmo, em 2010 e primeiro ano), tinham projectos e argumentos muito fortes, perfeitamente enquadráveis no desígnio aspirado de se consignaram modelos a serem seguidos por outras cidades e para que, nelas, se pudessem vir a atingir altos padrões de qualidade ambiental urbana. O que igualmente acontece com as deste ano, Essen e do próximo, Nijmegen.
Um primeiro reparo é que todas as contempladas tinham populações de muito mais de entre duas centenas de milhares de habitantes e vários milhões (ressalvada a holandesa, que, mesmo assim, a tem algo superior à do nosso concelho, mas para uma área total de cerca de um quinto da deste e com, portanto, uma densidade de 3004 hab. /km2, quase cinco vezes superior àquela que temos e num território, como é apanágio do país, devidamente ordenado), isto é, eram e são verdadeiras urbes. Depois, também, que só podem concorrer cidades com uma demografia superior a 100.000 residentes (excepto se o país em causa não tiver aglomerado que alcance esse número). E tanto assim é que esse óbice perfeitamente compreensível, mas mesmo assim castrador por exemplos de eventuais êxitos em urbes mais pequenas, levou a preconizar, para estas e que se situem entre os 50.000 e os 100.000, a criação de uma outra classificação, com a designação mais chã de folhas verdes da europa.
Ora Guimarães e suas áreas suburbanas dificilmente atingirão o número inferior necessário para sequer integrar es­tas últimas. O que pode significar que a anunciada pretensão abarca toda a área concelhia. Sendo, por outro lado, de realçar que alguns daqueles itens não podem ser alcançados com só políticas locais, por muito intencionadamente bem desenhadas que estas o sejam, pois a sua concretização depende de planificações mais amplas, ou, mesmo, nacionais (caso que convém relembrar constantemente, o da ligação ferroviária, que, com um investimento relativamente recente, manteve uma só via e privou-a do transporte de mercadorias; isto num concelho cuja indústria era, e é, maioritariamente importadora de matérias primas e exportadora de produtos manufaturados, e quando o concelho fica a escassas dezenas de quilómetros do porto de Leixões, do aeroporto Sá Carneiro, ou de vias férreas que podem estender-se para além fronteiras; ignorando ainda o que sejam interfaces e, sobretudo, a rentabilização duma melhorada mobilidade, a da economia em energia e a da tão propalada redução de emissões de CO
2). E continuando a falar do transporte já numa visão localmente circunscrita, o que se constata é por demais desanimador. Na pulverização habitacional e englobando as que o podem ser num mesmo género comercial (indústria, armazenamento e afins), na ignorância de um plano geral de mobilidade assente em dados actuais devidamente recolhidos, analisados e ainda que apontando preferencialmente para o transporte rodoviário (único que, incipientemente e de forma colectiva existe para pessoas; e não se vendo, a curto prazo, a hipótese de implantar quaisquer outros tipos que melhorassem a circulação rodoviária que temos em fluxos de densidades pontualizadas), o que se observa é que a rede viária presente, em muitos e espalhados recantos de todo o território, não tem perfis que possam suportar o tráfego de autocarros e, noutra perspectiva, a disseminação e a fluidez das ocupações tornam muito difícil a oferta de um qualquer serviço efectiva e eficazmente útil. Não facilitando, assim, qualquer valorização de um elemento essencial para uma qualidade de vida urbana, quer pela eficiência em deslocações ocorrentes, rápidas e cómodas, quer pela poupança de energia, quer e não é o factor menor, pela diminuição da poluição.
Mas o espaço já está reduzido e, pelo menos, dois curtíssimos apontamentos ainda se impõem: um sobre as águas; outro sobre a integração ambiental. Quanto ao primeiro, a ilógica pulverização trouxe consigo a necessidade de abastecimentos de água e tratamento de afluentes (inclusivamente, de condução anti-natural das pluviais) individualizados, o que, como será racional, afectou, e afecta, a pureza das águas subterrâneas das capas mais superficiais (ou nos furos, de mais profundas). Sendo, ainda de atentar no actual problema das fluviais, pelo menos no que toca à bacia do troço do Ave em que nos inserimos. E depois, no segundo, a pontual e permanente extensão de construção para espaços dela descomprometida, com eliminação da cobertura vegetal e da própria mor­fologia dos solos, na, assim, negação mais primária, e muito visível, do que seja integração.
O tudo, portanto, a pa­tentear uma explanação muito mais alargada, uma discussão e uma ponderação partilhadas, sobretudo por­que estamos em cima do acontecimento e, fora publicidades, o que se sabe de projectos concretos re­mete-nos apenas para um silêncio ensurdecedor.

Fundevila, 4 de Janeiro de 2017

Óscar Jordão Pires

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