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Reflexões que Guimarães tece

Artigo de opinião

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Reflexões que Guimarães tece

As utopias, ao sê-lo, com o fluir das sociedades quando a estas se reportam, tornam-se por vezes realidades futuras que desfazem a anterior sua previsível impraticabilidade. Inversamente, as modas naquelas, essas, são sempre isso mesmo e o tempo encarrega-se de as ir eclipsando no percurso da dinâmica social sucedente; não tendo, por isso, aquela ossatura de uma perenidade que as primeiras, acontecidas, normalmente acabam por constituir.
Sem entrar em grandes argumentações fundamentadoras do afirmado, que se crê pacífico nas suas linhas gerais (aliás, etimologicamente, a palavra moda veste-se na conjunturalidade), a questão, ou interrogações, que se pode suscitar, ou sobre elas reflectir em termos de uma qualidade de vida em crescendo e realmente sustentável, é se o futuro assegurado desta cidade se identifica com o turismo, os galardões e o entretenimento. E a anterior, e sempre magna, de um olhar local num mundo em que as distâncias se perderam e que se diz de globalizações. Isto é, admita-se a pergunta: se conservamos uma identidade própria recriada num cada vez melhor bem-estar urbano, ou se, pelo contrário, abdicamos dela e ajustamo-nos às generalizadas práticas duma sociedade de consumo em estertor mais ou menos pressentido. O tudo partindo de um princípio que se crê ineludível e inalienável: o de a gestão municipal dever assegurar a melhor vivência urbana viável em cada momento e o desenho para um seu seu posterior, e sucessivo, progressivo acrescentamento.
São, como se pode ver, questões de fundo e necessariamente controversas.
Mas que, ainda que em tempo já atrasado, se podem continuar a equacionar, pois, dessa discussão pode resultar uma visão mais acertada de trajectórias alternativas, por efectivamente fomentadora do princípio enunciado no fim do parágrafo anterior. Sobretudo se se acreditar que a vida não se reduz a abstrações numéricas, estatísticas, razões e equações económicas, mas, antes e primordialmente, a pessoas concretas, de per si e em conjuntos determinados, embora sucessivamente integrados nas diversas comunidades do todo planetário. Sobre este ângulo, portanto, há que distinguir entre: primeiro, um cenário estereotipado montado sobre a autêntica paisagem (aqui usada na sua componente conceptual essencialmente humana) a que se sobrepõe; e, segundo, o espectáculo de o exercício dos predicados tocantes ao alcance de uma mens sana in corpore sano. Ou, ainda, se nesses intuitos aquela, gestão, se dirige para os que são deveras os munícipes, e destinatários finais, dos efeitos da definição da política local, ou se para aqueles outros que só indirectamente os sentem, numa, para estes, ainda, cumulação normalmente fugaz; como, também e ainda, se os investimentos intentados promovem uma adição cultural e técnica suficiente para a medrança do nível dum mais saber capaz da progressiva valorização do ser humano, ou se, adversamente, são meras formas de passar o tempo sem enriquecimento qualitativo que se veja (lembra-se, a propósito, que já no século I Séneca escreveu que “Nada é tão pernicioso para o carácter quanto perder o seu tempo num espetáculo - pois é então, por meio do entretenimento, que os vícios se insinuam na pessoa com uma facilidade maior do que é habitual.”).
Mudando de agulha na linha que se vinha trilhando, mas continuando a marcha encetada, ninguém terá muitas dúvidas de que, na já dita sociedade de consumo, tudo aquilo que tem capacidade para gerar lucro no mercado é explorado e está vinculado, por imposição das leis do sistema nelas vigente, a uma aceleração constante directamente proporcional à margem percentual daqueles, lucros, que propicia. Regra que é genérica e se aplica a todos os bens que se destinam à satisfação de necessidades; ainda que estas sejam ilusórias, fabricadas artificialmente e indutoras de felicidades vazias, ademais transitórias e de permanentes partos renovativos. O que se aplica ao turismo de massas, como moda que é e que está a atingir o apogeu. E é esse o ciclo que estamos a atravessar; na simultânea percepção de que o sistema que o criou está em vias de insolvência.
Assim sendo, na mesma convicção, esse turismo de massas entendido na sua realidade de quimera induzida por as ditas leis e alicerçado nas vultuosíssimas receitas que produz, é um filão que tem sido alvo de uma intensificação sem paralelo no passado, malgrado os efeitos negativos locais e que, numa amplificação que vai subindo de tom, se têm vindo a escutar por esse mundo fora e, sobremaneira, nos sítios que, por qualquer característica que os sobreleva, são tidos como seus alvos preferenciais. Sendo, entretanto e como se sabe, um componente precioso para a almejada subida anual do PNB; esse índice que a ciência (?) económica quer em constante aumento e confunde (na sua miopia unilateral de especialidade redutora da diversidade da vida e ditatorial qb) com a melhoria da qualidade da vida humana; e o que é pior, subsidiariamente, com a felicidade almejável.
Nesta sequência, os itens atrás mencionados não parecem os melhores para uma aposta vencedora. Até porque há realidades que não podem ser escamoteadas. Desde logo, em forma de sumário muito sucinto e escasso: a de que o núcleo capital da região é o Porto, com sua área metropolitana; a de que a bacia do Ave flui e se inclina para lá; e a da pequenez deste burgo, na sua realidade despida de mitos, prosápias, medalhas e que, entretanto, se situa a escassas dezenas de quilómetros dele.
Assim sendo, talvez tudo impusesse a quase natural ligação àquele (em que acontecessem transportes públicos eficientes, com horários frequentes devidamente ajustados e com tempos de viagem reduzidíssimos). E se a isto se juntasse uma urbe capaz de assegurar uma superior qualidade de vida, então, a alternativa de satelitização surgiria como provável e capacitada para se afirmar. Para tanto bastava organizar devidamente a cidade, a nossa cidade. Num planeamento que começando por distribuí-la convenientemente com vista a um significativo aumento da população residente, ajustasse a isso as infraestruturas efectivamente necessárias; definisse e zonasse as distintas formas de ocupação dos solos (não sendo despiciente um estudo sobre a tipologia habitacional, mormente sabendo da, por cá, predileção pela moradia familiar e dessa ser solução em quase todos os países mais desenvolvidos; numa atrasada tentativa de dinamizar a convivência familiar e amical, dentro da casa e no seu jardim, o que imporia uma maior disponibilidade desses espaços); instalasse os equipamentos adaptados a essa realidade urbana e que concorressem para uma sua grande aprazibilidade, na perspectiva do consequente enriquecimento cultural e físico; e, depois, preconizasse o tudo a preços ajustados a uma oferta atractiva e compatível com a procura.
Por aí, por essa via e mantendo o património antigo revitalizado como habitação e comércio tradicional, talvez, um dia, chegássemos à dimensão da pequena/média cidade europeia dos cem, cento e tal mil habitantes, num salto qualitativo que, definitivamente, consolidaria este aglomerado urbano como tal.

Óscar Jordão Pires
Fundevila, 1 de Março de 2017

 



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