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Do otimismo

Artigo de opinião

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Do otimismo

Sendo eu alguém que se interessa pela música, quer porque faço dela minha companheira de horas de repouso e reflexão, sobretudo naquele intermezzo que vai desde o final do frugal jantar até ao apetecido ingresso no leito, quer, uma que outra vez, massajando as teclas do piano, instrumento com que convivo desde bem tenra idade, não podia deixar de, nesta crónica, abordar o acontecimento que, a vários títulos, tenho por importante, o das vitórias da canção portuguesa no festival da Eurovisão.

Digo vitórias pois que, para além da canção, enquanto fusão de melodia com palavras, também a interpretação e, se não erro, a orquestração obtiveram um bem merecido primeiro lugar.

Uma canção é feita de música e palavras, contribuindo para a sua qualidade a perfeita adequação da métrica das palavras aos tempos, sons e silêncios, da melodia.

No caso de “Amar Pelos Dois”, título da canção vencedora, essa harmonia é rigorosa, sem que palavras tenham de atropelar as sílabas para caberem no trecho musical, e sem que notas e seus tempos sonoros tenham de ser alterados para que neles se encaixem as palavras.

A orquestração que vestiu o tema musical foi, também ela, de um grande rigor, sem excessos de som nem de silêncio e com harmonias musicais de grande riqueza e hábil mistura entre o clássico e o moderno, de consonâncias e dissonâncias suscetíveis do louvor geral que levou a peça musical ao topo da classificação.

Não por ser fácil, mas pela sua excelência.

Porque, ao concitarem o aplauso geral, demonstraram que a língua portuguesa é capaz de transmitir emoção sem que seja necessário entender as palavras de que é feita.

Outros galardões houvesse para o evento e igualmente eles seriam merecidos sobretudo por Salvador Soveral.

O da sua enorme classe e elevação, seja na forma alegre mas contida como foi encarando a evolução da classificação, seja pelas respostas que deu em todas as entrevistas que lhe foram feitas na sequência da sua vitória.

Fui um espectador fiel e entusiasta das primeiras edições do festival da Eurovisão, bem como das correspondentes edições do festival RTP da canção mas, com o andar dos tempos, o sistemático e intenso abaixamento do nível das canções a concurso, fui perdendo o interesse pelo evento até que, tal como aconteceu com a maioria dos até então interessados, acabei por deixar sequer de me aperceber da sua realização.

O nível, nacional e internacional, era baixíssimo, direi mesmo rasteiro, a opção praticamente unânime pelo uso do inglês, em vez das línguas nacionais, e dos estilos (mais que populares, popularuchos) ditos anglo saxónicos, fizeram do Festival uma mera festa de uma noite, em que se debitavam canções como quem faz macarrão, as quais, no dia seguinte, desapareciam por completo do paladar e, até, tal como o macarrão, do organismo do público.

A vitória de Salvador Soveral foi tanto mais importante quanto foi obtida contra um tal estado de coisas.

Ele e a irmã, compositora do tema vencedor, propuseram-se remar contra uma tal maré e levaram de vencida o seu propósito.

Nas entrevistas, ele soube, com dignidade, elevação e, mesmo, humildade, dizer isso mesmo.

O êxito dos irmãos Soveral pode bem, e assim parece, ser o prenúncio do retorno à qualidade, à diferença que a não impede, pelo contrário, a potencia, retorno esse que a minha observação não isenta de otimismo verifica estar em curso, ainda que timidamente, em inúmeras outras áreas da vida.

Do estado do Mundo, desde há bastante tempo venho dizendo, alçando-me num termo popular, que “afoleirou”; ficou “foleiro”. Assim acontece (de um modo geral, pois que há sempre que considerar algumas exceções por parte dos agentes de tais matérias) no que toca à educação cívica, ao ensino, à justiça, às aspirações, à política, às relações humanas, etc.

Pressinto que por friestas, ainda poucas e ainda ténues, mas friestas, começa a soprar uma aragem de desconforto com esse mundo de tão medíocre classificação, de reação a um tal estado de coisas.

A vitória de Soveral parece-me ser um exemplo dessas aragens, e, pelo que dele ouvi, partilha tal pressentimento.

Creio ser legítimo adicionar esse feito a outros, que nos últimos tempos têm alimentado a elevação da alma portuguesa, tais como, na religião, a deslocação do Sumo Pontífice a Portugal e a canonização dos pequenos pastores videntes, com a particularidade da oficial adequação da palavra ao facto, que a Igreja explica agora mais claramente que nunca, ter-se tratado não de um avistamento físico mas de uma visão espiritual, não por isso menos digna de espanto, respeito, admiração e devoção Mariana; no futebol, a sagração de Portugal como campeão europeu; na economia a mais alta taxa de crescimento desde há muitos anos e a mais alta da Europa; no trabalho a diminuição do desemprego para níveis que há muitos anos se não alcançavam e o aumento do emprego, num e noutro caso com prevalência no que respeita aos jovens; nas finanças um défice muitíssimo abaixo dos 3% que a União Europeia tem como máximo admissível; na formação escolar, a OCDE apontando Portugal como exemplo a seguir quanto à “definição das políticas e práticas educativas”; na sociedade, generalizada paz social e descompressão e, cereja sobre o bolo, até os elogios que acabo de ouvir vindos do Conselho de Finanças Públicas, do pontificado da Drª Teodora Cardoso.

E tudo isto, abundam já as vozes autorizadas e insuspeitas a dizê-lo, sustentadamente.

No que me toca, ao acima dito adiciono esta minha terra, que também ela vejo constantemente elogiada e galardoada, amada pelos seus habitantes que se não poupam a manifestar o orgulho que nela têm.


Sr Presidente da República: se, pelo hábito das razões que lho alimentam, alguma vez se esquecer do otimismo que tão sábia e oportunamente tem sabido transmitir aos seus concidadãos, venha até nós e verá que, enquanto se deixa fotografar naquele particular sítio amuralhado em que nasceu Portugal, novas razões encontrará para se sentir bem como cidadão comum que não se esquece de ser, ainda que, oficialmente o primeiro de Portugal.


Guimarães, 16 de maiol de 2017


António Mota-Prego

a.motaprego@gmail.com



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