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Morreu Camões, viva Portugal!

Artigo de opinião

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Morreu Camões, viva Portugal!

Ocorreu no sábado passado o Dez de Junho, data comemorada como dia nacional português.

Desde a minha juventude, quando comecei a interessar-me por assuntos sérios, sobretudo os controversos, que me pus, e a passei a por aos meus interlocutores quando a matéria era abordada, a questão da data escolhida para simbolizar o dia de Portugal.

Sobretudo depois de deflagrada a guerra em África, que violentamente atingiu os jovens da minha geração e, consequentemente, os seus progenitores e familiares, quando a efeméride se comemorava com prolongada, solene e aparatosa cerimónia de condecoração dos militares que na dita guerra se tinham distinguido por atos de bravura, ou dos familiares daqueles a quem à coragem entregaram a vida.

Camões foi, justamente e ao longo dos tempos, tido como um vulto maior da cultura portuguesa, fundamentalmente em virtude da sua obra “Os Lusíadas”, através da qual, com mestria e arte dignas dos clássicos da antiguidade, narrou os feitos dos portugueses e enalteceu o que os inspirou, razão pela qual foi sendo venerado, de uma ou outra maneira.

Dele se apropriaram os republicanos ainda em tempo da monarquia, pois o que se diz ser o seu túmulo, no mosteiro dos Jerónimos, data de 1880, ano da trasladação para aí de umas ossadas que jamais foi possível determinar como sendo as do Poeta, cerimónia a que não foi alheia a propaganda republicana que já então se fazia sentir.

Dele se apropriou o Estado Novo, que por decreto de janeiro de 1951 instituiu como dia nacional o do falecimento de Camões, que não é líquido que tenha ocorrido em 1580, pois uma lápide aposta no seu túmulo (desaparecido com o terramoto de 1755, sem que desde então tivessem sido detetados indícios minimamente credíveis do seu paradeiro) situava a sua morte em 1579, assim como o não é que tenha sido no dia 10 de junho, porquanto ao tempo o calendário em vigor era o juliano.

Este só foi substituído pelo calendário gregoriano, aquele por que nos regemos, em outubro de 1582, que, aquando da sua introdução, adiantou em dez dias a contagem dos dias do mês. Assim 10 de junho pelo calendário juliano (em vigor à morte de Camões) corresponde, no calendário atual, ao dia 20 do mesmo mês.

Mas o que sempre motivou a minha falta de adesão à data em causa como dia nacional, foi a circunstância de se tratar de data relativa, não como na quase totalidade dos países que celebram dia nacional, a um facto ou acontecimento exaltante, mas sim a uma morte, ainda que um dos nossos maiores, mas morte sem honra, nem glória, fruto de uma peste e em estado de enorme indigência.

Camões pode e deve ser evocado para celebrar a língua portuguesa e as comunidades que a têm por língua mãe, mas a sua morte não vejo que seja facto tocante do amor à Pátria, como entendo que deve ser aquele que, ao ser lembrado, desperte a emoção dos que a amam.

Uma breve ronda pelo que se passa em outros países, do nosso e outros continentes, mostra-nos que em Espanha, o dia nacional, 12 de outubro, evoca a um só tempo a unificação dos reinos peninsulares, com a evidente exceção do de Portugal, no país que hoje conhecemos, e o ano de 1592, em que foi extinto, por derrota militar, o reino de Granada e aquele em que Cristóvão Colombo chegou à América, iniciando a difusão da língua castelhana naquele continente.

Em França o dia nacional ocorre a 14 de julho, quando em 1789 a população sublevada contra os privilégios da monarquia e desigualdades fomentadas pelo regime monárquico, destruiu a fortaleza da Bastilha, símbolo do poder real.

Na Bélgica é o dia da promulgação da primeira constituição do país unificado, 21 de julho de 1870.

A Alemanha comemora o dia 03 de outubro de 1990, o da sua reunificação após cerca de meio século de divisão em dois estados independentes, depois de ter sido considerada mas rapidamente descartada a data de 09 de novembro [de 1989], a da queda do muro de Berlim, por ter sido no mesmo dia, mas do ano de 1938 que ocorreu a “Noite de Cristal”, progrom levado acabo pelos nazis, com incêndio e destruição de lojas e casas de judeus, violento início das perseguições que o nazismo levou a cabo contra o povo judeu e culminou no maior dos horrores institucionalizados a que a humanidade jamais assistiu.

Na Itália é o dia do referendo (02 de junho de 1946) que instituiu o regime republicano

Na Polónia 11 de novembro (de 1918), o da recuperação da independência do país, após mais de 250 anos de submissão a terceiras potências.

Os Estados Unidos da América comemoram o dia da Independência (01 de julho de 1776), após prolongada guerra de contra o poder colonial inglês.

No Vietnam, o dia 02 de Setembro evoca igual dia de 1945, em que os vietnamitas proclamaram a república e declararam a independência da sua potência colonial.

A China comemora o dia da fundação da República Popular da China, em 01 de outubro de 1910.

O Japão, aos 11 de fevereiro, celebra a fundação da nação por um lendário imperador Jimm, séculos antes do início da nossa era.

Por isso faço coro com aqueles que entendem que o dia nacional deve evocar a independência de Portugal, que muito poucos dissociam da Batalha de S. Mamede.

Mas não fora esse acontecimento, outros há que tenho por bem mais adequados à celebração de Portugal, enquanto pátria dos portugueses, como sejam a Batalha de Ourique (25 de julho de 1139), finda a qual D. Afonso Henriques, alçado pelos seus guerreiros sobre um escudo à maneira gaulesa, foi aclamado e ele próprio de proclamou rei de Portugal; ou o Tratado de Zamora (5 de outubro de 1143), pelo qual, após pelejas várias e muita diplomacia, o Rei Afonso VII de Leão reconheceu a independência de Portugal e Afonso Henriques como rei primeiro do respetivo reino; ou, ainda, a data da bula papal Manifestus Probatum, pela qual o Papa Alexandre III, em 23 de maio de 1179, reconhecendo a validade do Tratado de Zamora, declara que o Condado Portucalense, que Afonso Henriques herdara de seu pai, era já efetivamente uma entidade política independente.

De entre todas, sem dúvida que prefiro a da Batalha de S. Mamede, não por mero vimaranensismo, que estas matérias estão absolutamente fora e muito acima de qualquer sentimento bairrista, mas porque estou de acordo com Alexandre Herculano, que, pelas suas causas e resultado disse que da batalha nasceu “a primeira tarde portuguesa”, e José Mattoso, que afirma ter sido a peleja de S. Mamede (que refere ter sido travada em Creixomil) o ato fundador da nossa nacionalidade.

Não me desagrada igualmente a data da Batalha de Ourique, mas se queremos ir à origem das origens, efetivamente o 24 de junho é a mais remoto e significativo momento de ato a um tempo efeito e causa de sentimento nacional.

Creio bem que se fosse uma das referidas datas, sobretudo o 24 de junho, a da comemoração do Dia de Portugal, teria muito mais reconhecimento, apoio e celebração populares, como acontece em todos os casos que citei, em que a população adere mais ou menos maciçamente às comemorações, que se não quedam por uma parada militar e dois ou três discursos de circunstância.

Entre nós, com parada e discursos festeja-se… a morte de um poeta!

                                                                                             

Guimarães, 12 de junho de 2017

António Mota-Prego

 


 




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