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Tarde piaste pintainho amarelo

Artigo de opinião

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Tarde piaste pintainho amarelo

Para uns quantos, muitos e incluindo uma grande percentagem de cientistas, a evolução das condições climatéricas está numa fase de anormal sequência e, para esses, tal se deve maioritariamente ao resultado de acções humanas.
Sem se entrar na discussão da razão dessas posições, ou das que lhe são antagónicas, o que se vai constatando (para além da subida da temperatura atmosférica e da água dos mares, do degelo do Ártico, da subida do nível das águas oceânicas, etc.), são também efeitos localizados com poucos paralelos, ou até nenhuns, em registos fiáveis e onde estes existam. Basta só lembrar a violência dos recentes furacões que devastaram o Texas, o Harvey e, depois o Irma, as Caraíbas e a Flórida. Mas, esses efeitos e fixando-nos só neste verão, e agora circunscritos às cheias, fizeram-se sentir um pouco por toda a Europa (da Roménia à Alemanha, chegando à Inglaterra) e, entre ainda outros, os muito menos publicitados por estes lados da Índia e Bangladesh (no entanto, com mais de um milhar de mortos), do Sri Lanka e da China. E destacam-se as cheias porque outra mais próxima, resultante de precipitações incomuns, também se verificou em Itália, na Ligúria e na Toscânia, mormente, nesta, na província e cidade de Livorno; e aí com trágicas consequências.
Porquê a relevância da catástrofe de Livorno num, nesse, alargado contexto dramático e muito mais pesado?
Há que dizer que, embora Livorno seja um aglomerado que poderá assacar origens míticas, passando pelos etruscos, romanos e, no renascimento, pelos Medici (que lhe outorgaram a qualidade de porto franco e disso lhe adveio um desenvolvimento que, no século XVII, a fez dotar de planeamento urbano e ser considerada uma cidade ideal), a verdade é que, há semanas, foi acometida por uma tromba de água e aluviões que conduziram à catástrofe divulgada pela comunicação social. A qual, para além da devastação provocada, dos imensos danos materiais, causou 7 mortos. E ainda que aqui quase à nossa porta, não foi esse nefasto resultado que motivou estas linhas. Nem foram sequer as declarações do síndico da respectiva comuna, Fillippo Nogarin, ao pretender culpar a protecção civil por a falta de aviso atempado, ou a da sua polémica com o bispo local, ou, sequer, os queixumes das populações face àquilo que consideraram como falhas duma intervenção capaz e a que se sentiam com direito. Não foi nenhuma desses circunstâncias, nem igualmente a mensagem fraterna e sentida de Francisco, Papa, todas amplamente publicitadas e algumas exploradas.
Nada disso! Foi antes o facto de, volvidos dias, a RAI, num dos seus canais (sem já se o poder precisar), ter organizado uma mesa redonda em que, a quente e sem pretensões de um rigor científico ainda não possível na ocasião, se pretendeu reflexionar sobre as causas daquela desgraça. Os intervenientes, maioritariamente e ainda que com calor na defesa dos pontos de vista das suas análises, usaram uma argumentação racional e aparentemente fundamentada. E assim, como hoje se palra, discorreram de modo positivo. Entretanto e na evidência de que aqui não se vai reproduzir aquele programa, será, no entanto, de atentar nas linhas de força de um conjunto sintomático de motivos que, parece, ganharam o consenso geral dos nele participantes e que apontaram para graves erros de, e péssimas práticas no, ordenamento do território atingido.
Assim, elencando, teríamos: a sistemática destruição da cobertura vegetal; a progressiva impermeabilização dos solos; e a sempre cres­cente, desordenada e dispersa ocupação urbana, inclusivamente sobre linhas de água. O que, casado, teria como efeito a menor absorção da chuva pelo solo, o aumento da velocidade de escoamento e, logo, o menos tempo para a concentração junto a quaisquer estrangulamentos e, ou, obstáculos; naturais ou erguidos por obra do homem e que a errónea urbanização sempre potencia.
Assim também, onde outrora teria havido uma intervenção disciplinadora louvada, agora, pelo contrário, verificava-se um conjunto de fragilidades que, face a uma tormenta mais acentuada, danificaram e ... mataram.
Será de lembrar nesta altura que o fenómeno de sociedades urbanizadas, sem ser recente, tem vindo a progredir a ritmos desproporcionados e que provêm da própria dinâmica social de economia de escala; quer no seu significado puramente económico, quer no menos preciso, e porventura mais importante, social. Explique-se, entretanto, o alcance dado a esta derradeira imputação. Como se sabe, a divisão do trabalho e no seu processo de desenvolvimento ao longo dos séculos, conduziu as mais das vezes a mais saberes (na dupla faceta do conhecimento e do apuramento das tecnologias). Numa evolução que desembocou na proliferação contemporânea das especialidades (com tendência para um seu crescimento progressivo) e, portanto, logo, na consequente necessidade de ocorrer uma procura para cada uma dessas áreas específicas que, a cada uma delas, as justifique. Na fácil compreensão de quanto mais abrangente é o saber maior é o número dos que por ele podem ser servidos; e quanto mais específico mais aquele será restrito. Ora, desde o fundo dos tempos, as cidades e na sua relatividade espaço-temporal, pela concentração que propiciam, foram sempre um cadinho para a germinação da ilustração e de novas técnicas. Situação que o idade moderna e sobretudo o presente, vieram incrementar na sempre crescente complexidade científica e sofisticação tecnológica; de I&D. O que cada vez mais se enreda, como a história do Ocidente (e não só) o comprova. E em que, portanto, a concentração surge quase como uma fatalidade em que se sediam as inovações; não obstante reconhecidos inconvenientes das cidades, nomeadamente das megapolis. E já na falta de espaço para explicitar melhor este raciocínio, o passo seguinte seria o da abordagem da noção de dimensão crítica para atribuição daquela categoria: a quantidade de população viabilizadora de uma qualidade, e número, de polivalências (de infraestruturas, equipamentos e serviços), que permitam considerar um determinado aglo­merado como verda­deiramente citadino; isto é, um espaço construído apetecível, organizado hierarquicamente com o todo do territorial em que se insere e o resto do país, mas capaz de, nele, facultar já um nível de ofertas com níveis altos de atributos e geradores de crescente bem estar coetâneo, mas passíveis de melhorias, num, assim, conjunto de predicados com perspectivas que o tornem atractivo. Sem nos podermos alongar mais, crê-se que o patamar inferior urbano, na Europa, andará pelos 100.000 habitantes. É que, aí, as tais valências mínimas conseguirão aguentar-se e até expandir-se (e não, necessariamente, atrofiar-se), proporcionando, segundo as exigências do quotidiano hodierno, um nível de vida apelativo sob quase todos os ângulos em que aquele possa ser apreciado.
O que tem contribuído para a crescente urba­nização do planeta; e de ser esse o sentido do seu progresso (por, até, prementes imperativos de sustentabilidade, face à finitude dos recursos naturais - desde logo dos hidrocarbonetos -) e de poluição ambiental.
Não o inverso caminho da atomização. Não!
É que, como sói sentenciar-se, para trás mija a burra.
Daí, também, sem ser devoto de Bárbara de Nicomédia e crendo que, por memória recente, a probabilidade de uma tromba de água como a que se abateu sobre Livorno ser baixa (sabendo que nessas circunstâncias as contenções ou retenções de água não são a solução), o que fica é o modelo de organização do território que tem vindo a ser implementado por aqui e de que como se o pensa prosseguir. De qual o intuito (a tal ideia de anterior escrito) que está por detrás dele.
Assim, neste novo ciclo municipal que vamos encetar, não será a altura de, finalmente e a esse intuito, o patentear claramente e discutir?

Óscar Jordão Pires
Fundevila, 27 de Setembro de 2017




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