Curtas
«Paisagens silenciosas» na Escola de Arquitectura da Universidade do Minho. Até 29 de Novembro.
«O sonho de voar», exposição de fotografia Mário Cruz, na Assembleia de Guimarães. Até 29 de Novembro.
Facebook Twitter Google + YouTube

Balada ferroviária

Artigo de opinião

opiniao
Balada ferroviária



Em Portalegre, cidade... perdão, em Rochester cidade do Minnesota (USA), todos as madrugadas e com uma regularidade horária de constância pendular, trombeteava a buzina do comboio de mercadorias que circulava por entre o casario e se dirigia à ponte do braço do rio que me era vizinho. Acordado, ficava a ouvir o ruído dos rodados ao passarem pelos encontros daquela estrutura de ferro com as margens e ia contando os vagões. Ao princípio cheguei mesmo a pôr-me à janela e ver aquele desfilar de composição infindável que, sempre, seguia em marcha relativamente lenta. Nunca, porém, consegui esperar até ao fim da passagem; e igualmente, mesmo quando deitado, não atinei em desfiar o rosário de todas aquelas contas que, à vista, se estendiam por centenas e mais centenas de metros. Ao que me lembro, pelas sete ou oito dezenas daquelas a atenção desviava-se, a sequência perdia-se e deitava para o dia seguinte a empreita de as bem computar; intenção adiada essa que jamais chegou a bom porto. Entretanto, os ditos vagões, de formas muito variadas e alguns deles abertos (os que, maioritariamente, transportavam o carvão para a central eléctrica ali ao lado), eram muito cumpridos e ultrapassariam os dez metros. Sendo que o tudo era puxado por três ou quatro grandes locomotivas diesel.

Percebia-se, sem o ter inquirido, que o abastecimento da cidade se fazia preferentemente por via férrea (não obstante o aeroporto, as vias rodoviárias e uma próxima auto-estrada interestadual, a 90). Isto em consonância com a organização pragmática e racional que reina por aquelas paragens. Até porque a dimensão do território, o delinear a tempo e para futuro, a eficácia e a produtividade a tanto obrigariam.

Vem isto a propósito de, vai para trinta e oito anos ou por aí, se ter proposto uma nova ligação ferroviária desta cidade ao Porto.

Porquê?

Porque e sem o recurso à precisão dum QED na sua evidência, a então existente já não ser apta à satisfação das necessidades contemporâneas dela, cidade e região envolvente. Desde logo por o seu traçado (mormente pela frequência e raio das curvas), em muito decorrente da orografia, não ter capacidade para acolher as inovações tecnológicas já na altura existentes e que seriam desejáveis (ao pensar-se a cidade como um polo urbano aglutinador, de progressivo ordenado crescimento e centro de zona industrial predominantemente exportadora). E a superação desse entrave ser, à vista desarmada, excessivamente onerosa e, sempre, não ser consentânea com um advir com pano para mangas. Haveria, pois, que estudar um corredor que das cercanias do centro (Silvares? Fermentões?) demandasse a Linha do Minho (Lousado, Famalicão ou, inclusivamente, a Senhora da Hora). Ficou sem eco, porém, essa ideia. E a intervenção que se realizou muito depois, canhestra e castradora, não passa de um aborto sem grande hipótese de longa vida no plano da mobilidade quotidiana.

O que, aliás, não surpreende num País tão avesso à ferrovia como é o nosso. E mesmo quando a UE avançou com grandes dotações para as ligações ferroviárias transeuropeias (que desaproveitamos na sua quase totalidade), o planeamento arcaico e cainho da casa manteve-se num ontem com remedeios; paliativos que não conseguem sequer atingir os objectivos anunciados (como o caso emblemático da Linha do Norte) e, cada vez mais, acentuam um atraso muito difícil de recuperar. Ao contrário da nossa vizinha que, por razões geográficas, nos sujeitou desde o início à sua bitola e, entretanto, há muito tem vindo a implementar a europeia em troços novos, numa crescente adaptação que, em meia dúzia de anos, lhe proporcionará o rápido acesso ao miolo do mercado da União e utilizando energia limpa. Isolando-nos mais, ainda por cima. E quando a nossa marginalização de finisterra imporia uma compensação pela desvantagem dupla (de situação e de dependência externa), a nossa capacidade negocial neste campo cedeu à vontade do directório europeu e aos interesses espanhóis. Na tristeza dum fado de quem não consegue atirar a albarda ao ar. E que, como do costume e para a frente, iremos pagar muito caro.

Mas, deixemos este carpir infrutífero de quem está à espera de Godot; de quem vive sonhando as brumas que hão-de trazer El Rei D. Sebastião.

Aterremos de novo e voltemos a Guimarães.

Será irrefutável que uma linha férrea actual seria uma estrutura capital para o progresso do concelho; e em qualquer ângulo em que se o queira perspectivar. E que essa ligação ao Porto, à centralidade da sua área metropolitana, pôr-nos-ia na sua influência directa e numa comunicabilidade favorável em ambos os sentidos; regressando àquilo que é o escorrer natural de uma bacia hidrográfica e a usanças antigas (comprováveis até pelo ramal que subsiste e que o estertor dos distritos aconselha, a bizarria anti-democrática, e inconstitucional, das NUTs recomenda e a fantasia de um inacreditável quadrilátero urbano força). Assim, quanto a pessoas, uma ligação de 20/30 minutos à metrópole nortenha (ou a interface que nela venha a ser implantada), pôr-nos-ia às portas uns dos outros, de cá para lá e de lá para cá; quanto à carga e no panorama ocorrente, ligava-nos a tudo, de Leixões à Europa.

Mero sonho de uma tarde de outono a desvanecer-se?

Não! Relembrando, antes um ver e conceber a tempo uma realidade que vai estar aí. E lutar para ela, por Guimarães.

... À qual quis como se fora

Feita para eu morar nela ...”.




Fundevila, 31 de Outubro de 2017



‹ Confiança e poupançaO feitiço do tempo ›

Rádio Santiago em Direto

Cantinho do Puff

Farmácias de Serviço

Guimarães

Farmácia Paula Martins (Permanente)
Rua Teixeira Pascoais, 71-B

Vizela

Farmácia Ferreira (Disponibilidade)
Avenida Abade de Tagilde, Nº 901

As nossas publicações

Desenvolvido por 1000 Empresas

Contactos

Edifício Santiago
Rua Dr. José Sampaio n.º 264
4810-275 Guimarães
Tel.: 253 421 700
Email: geral@guimaraesdigital.com