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«Memento - Raimundo Fernandes, um coleccionador de Guimarães», Casa da Memória. Até 4 de Março.
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Balada ferroviária

Artigo de opinião

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Balada ferroviária



Em Portalegre, cidade... perdão, em Rochester cidade do Minnesota (USA), todos as madrugadas e com uma regularidade horária de constância pendular, trombeteava a buzina do comboio de mercadorias que circulava por entre o casario e se dirigia à ponte do braço do rio que me era vizinho. Acordado, ficava a ouvir o ruído dos rodados ao passarem pelos encontros daquela estrutura de ferro com as margens e ia contando os vagões. Ao princípio cheguei mesmo a pôr-me à janela e ver aquele desfilar de composição infindável que, sempre, seguia em marcha relativamente lenta. Nunca, porém, consegui esperar até ao fim da passagem; e igualmente, mesmo quando deitado, não atinei em desfiar o rosário de todas aquelas contas que, à vista, se estendiam por centenas e mais centenas de metros. Ao que me lembro, pelas sete ou oito dezenas daquelas a atenção desviava-se, a sequência perdia-se e deitava para o dia seguinte a empreita de as bem computar; intenção adiada essa que jamais chegou a bom porto. Entretanto, os ditos vagões, de formas muito variadas e alguns deles abertos (os que, maioritariamente, transportavam o carvão para a central eléctrica ali ao lado), eram muito cumpridos e ultrapassariam os dez metros. Sendo que o tudo era puxado por três ou quatro grandes locomotivas diesel.

Percebia-se, sem o ter inquirido, que o abastecimento da cidade se fazia preferentemente por via férrea (não obstante o aeroporto, as vias rodoviárias e uma próxima auto-estrada interestadual, a 90). Isto em consonância com a organização pragmática e racional que reina por aquelas paragens. Até porque a dimensão do território, o delinear a tempo e para futuro, a eficácia e a produtividade a tanto obrigariam.

Vem isto a propósito de, vai para trinta e oito anos ou por aí, se ter proposto uma nova ligação ferroviária desta cidade ao Porto.

Porquê?

Porque e sem o recurso à precisão dum QED na sua evidência, a então existente já não ser apta à satisfação das necessidades contemporâneas dela, cidade e região envolvente. Desde logo por o seu traçado (mormente pela frequência e raio das curvas), em muito decorrente da orografia, não ter capacidade para acolher as inovações tecnológicas já na altura existentes e que seriam desejáveis (ao pensar-se a cidade como um polo urbano aglutinador, de progressivo ordenado crescimento e centro de zona industrial predominantemente exportadora). E a superação desse entrave ser, à vista desarmada, excessivamente onerosa e, sempre, não ser consentânea com um advir com pano para mangas. Haveria, pois, que estudar um corredor que das cercanias do centro (Silvares? Fermentões?) demandasse a Linha do Minho (Lousado, Famalicão ou, inclusivamente, a Senhora da Hora). Ficou sem eco, porém, essa ideia. E a intervenção que se realizou muito depois, canhestra e castradora, não passa de um aborto sem grande hipótese de longa vida no plano da mobilidade quotidiana.

O que, aliás, não surpreende num País tão avesso à ferrovia como é o nosso. E mesmo quando a UE avançou com grandes dotações para as ligações ferroviárias transeuropeias (que desaproveitamos na sua quase totalidade), o planeamento arcaico e cainho da casa manteve-se num ontem com remedeios; paliativos que não conseguem sequer atingir os objectivos anunciados (como o caso emblemático da Linha do Norte) e, cada vez mais, acentuam um atraso muito difícil de recuperar. Ao contrário da nossa vizinha que, por razões geográficas, nos sujeitou desde o início à sua bitola e, entretanto, há muito tem vindo a implementar a europeia em troços novos, numa crescente adaptação que, em meia dúzia de anos, lhe proporcionará o rápido acesso ao miolo do mercado da União e utilizando energia limpa. Isolando-nos mais, ainda por cima. E quando a nossa marginalização de finisterra imporia uma compensação pela desvantagem dupla (de situação e de dependência externa), a nossa capacidade negocial neste campo cedeu à vontade do directório europeu e aos interesses espanhóis. Na tristeza dum fado de quem não consegue atirar a albarda ao ar. E que, como do costume e para a frente, iremos pagar muito caro.

Mas, deixemos este carpir infrutífero de quem está à espera de Godot; de quem vive sonhando as brumas que hão-de trazer El Rei D. Sebastião.

Aterremos de novo e voltemos a Guimarães.

Será irrefutável que uma linha férrea actual seria uma estrutura capital para o progresso do concelho; e em qualquer ângulo em que se o queira perspectivar. E que essa ligação ao Porto, à centralidade da sua área metropolitana, pôr-nos-ia na sua influência directa e numa comunicabilidade favorável em ambos os sentidos; regressando àquilo que é o escorrer natural de uma bacia hidrográfica e a usanças antigas (comprováveis até pelo ramal que subsiste e que o estertor dos distritos aconselha, a bizarria anti-democrática, e inconstitucional, das NUTs recomenda e a fantasia de um inacreditável quadrilátero urbano força). Assim, quanto a pessoas, uma ligação de 20/30 minutos à metrópole nortenha (ou a interface que nela venha a ser implantada), pôr-nos-ia às portas uns dos outros, de cá para lá e de lá para cá; quanto à carga e no panorama ocorrente, ligava-nos a tudo, de Leixões à Europa.

Mero sonho de uma tarde de outono a desvanecer-se?

Não! Relembrando, antes um ver e conceber a tempo uma realidade que vai estar aí. E lutar para ela, por Guimarães.

... À qual quis como se fora

Feita para eu morar nela ...”.




Fundevila, 31 de Outubro de 2017



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