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Fábula desenhada

Artigo de opinião

opiniao Fábula desenhada

Sou muito apegado ao sentido de humor, de tal modo que, como já tenho referido, encaixo com grande fair play a crítica que, com humor e, sobretudo, com humor inteligente, me é feita, ou dirigida a pessoas ou entidades que aprecio e até estimo.
Sou, mesmo, implacável comigo mesmo, colhendo de fraquezas, azares ou ridículos de que sou vítima ou a que dou causa, o humor que tais situações proporcionam.
Aprecio muito, por isso, os humoristas de profissão e aqueles que, sem serem profissionais de tal arte, a usam com maestria. Quando falo em humor significo a graça certeira e inteligente, que ele não falta quem, julgando-se humorista, não produz mais que vulgar, frequentemente soez, palhaçada.
De entre os grandes humoristas atuais, tenho em especial conceito um cartoonista, de seu nome António Jorge Gonçalves (AJC), que considero verdadeiramente notável e que ademais é um desenhador de gabarito – vale a pena folhear o seu Livro de Viagens, em que são visíveis os seus imensos dotes de urban sketcher (expressão inglesa a que, apesar da minha aversão ao uso de estrangeirismos, considero não ter tradução igualmente impressiva em português, para significar artistas que efetuam, em livros adequados, desenhos rápidos mas bem conseguidos de paisagens, urbanas e não só, que procuram ou se lhes deparam).
O cartoonista em causa tem lugar cativo no suplemento das sexta feiras do diário PÚBLICO, cujo título já por si tem graça, pois denomina-se Inimigo Público, exibindo, normalmente, obra sua a primeira página do suplemento que, seria injusto calar, é cheio de graça!
Frequentemente os seus cartoons, à graça do desenho aliam uma certeira crítica política ou social, fazendo jus à ideia de que, em muitos casos, ”uma imagem vale mais do que mil palavras”, expressão nascida da fotografia mas que, não raro, com tanta ou mais propriedade pode aplicar-se aos trabalhos do AJG no Inimigo Público. Esses trabalhos quase sempre ressumam imensa filosofia.
A quem não conhece e seja desprovido de preconceitos ou excesso de sensibilidade, aconselho vivamente que veja, às sextas-feiras, o cartoon da 1ª página do suplemento de que falo.
Na última 6ª feira, visado foi o caso da espantosa investigação efetuada a propósito de dois bilhetes que permitiram ao ministro Centeno e um deu filho assistir, no camarote destinado à direção do Benfica, à partida de futebol entre este e o Futebol Club do Porto.
Sobre a matéria está tudo dito, mas não com a eloquência do cartoon do AJG, que tentarei descrever, deduzindo – e não mais que isso, apenas deduzindo – da obra, o que com ela o autor terá querido transmitir.
Por razões de adequação do descritivo ao engraçado do a descrever, confio na compreensão de quem me lê para com expressões populares, quiçá popu­laruchas, que aqui pos­sa utilizar mas que, no caso, se substituídas pelo adequado vernáculo levariam este escrito às fronteiras do impróprio, e se trocadas por palavras absolutamente polidas, ficaria impedida a suficiente aproximação da escrita à graça do desenho
Representa este um homem de calça e casaco, ajoelhado no chão e, consequentemente, com o fundo das calças como que ao dispor, pois que tem a cabeça enfiada, em jeito de quem investiga (dirão uns), ou vasculha (é o que diz o desenho), sob a almofada do assento de confortável sofá.
No braço, o investigador – ou vasculhador, segundo o critério acima – tem pendurada uma pasta de executivo na qual estão gravadas as letras “M P”. Imediatamente pensei, olha esta?! Será comigo?!, A que propósito?! Eu que nunca meti a cabeça senão debaixo de boinas, bonés e chapéus, e também do chuveiro, neste caso nunca vestido?! E que importância terei eu para que o AJG me dedique um cartoon?
Mas olhando logo de seguida para o resto da obra, imediatamente percebi ter caído (mais uma vez!) no pecado da soberba, atribuindo-me importância que nunca tive, não tenho e jamais terei, com ou sem roupagem.
Como cheguei a tal conclusão? Rapidamente: ao verificar que o homem da pasta “M P” tinha por trás de si um operador de câmara de televisão com as letras “C M” bem à vista, a câmara ao ombro na posição de captar imagem, encontrando-se a parte frontal da objetiva introduzida exatamente no meio da costura que une a parte esquerda à parte direita das calças do homem da pasta.
Ou seja, “C M” era um órgão de Comunicação Social e estaria a ver, atravessando toda a vis­ceralidade do es­preitador, desde o termo do seu aparelho digestivo ao início do aparelho ocular (magia!!!) o que o aquele estaria a examinar, sem dúvida um corpo de delito.
Deduzi então (por­ventura mal, mas sem dolo, nem má-fé, nem sequer mera negligência) que com “M P” o AJG quis significar o impoluto Ministério Público e com “CM” o nunca insuspeito Correio da Manhã.
Ou seja, de dedução em dedução, concluo razoavelmente que o artista terá pretendido explicar – e se assim foi fê-lo melhor do que por mil palavras – que, para si, há uma íntima, e intensa, ligação entre gente do Ministério Público (não esquecer que nos respetivos serviços não há só magistrados, mas igualmente funcionários de todas as categorias e feitios) e o Correio da Manhã, o que permite que este, com consentimento, e até deleite, diria mesmo gozo, de alguém ligado ao Ministério Público, veja, para efeitos de publicação, através de quem investiga, aquilo que é secreto – simbolicamente os interstícios do homem da pasta M P e, real e ilegalmente, aquilo que está a ser investigado.
O que é válido mesmo que sabidamente não haja nada que investigar.
Moral da cartoonística fábula desenhada: cuidado gente, pois que o ridículo, se as mais das vezes apenas é causa de riso, casos há em que mata.
E, realmente, aque­le cartoon é … de mor­te…!!!

Guimarães, 06 de fevereiro de 2018
António Mota-Prego
a.motaprego@gmail.com


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