opiniao
Reflexões que Guimarães tece
A horas da anunciada inauguração do CIAJG - Centro
Internacional das Artes José de Guimarães (e da, para mim, nebulosa
Plataforma das Artes e Criatividade), só aqui há umas semanas e pelo
programa de Junho, fiquei a saber, finalmente, preto no branco, que as
previstas colecções que se mostrarão em parte daquele primeiro
equipamento se reportam a peças de arte tribal africana, arte
pré-colombiana e arte arqueológica (?) chinesa.
Sem pôr em causa recheio que não conheço e de que nem sequer terei a
mínima competência para avaliar da sua notabilidade representativa em
relação às respectivas culturas, quer me parecer, porém, que essas
exposições não serão de molde a produzirem uma imperativa atracção de
visitantes (estudiosos delas ou apenas meros curiosos) que justifiquem
o empreendimento levado a cabo e que, noutra perspectiva, têm muito
pouco a ver com a nossa idiossincrasia vimaranense; toda ela virada
para mitos onde os das origens avultam. E tantos, e por vezes tão
ignotos, eles são. Desde o dos Lígures, sustentado já por Martins
Sarmento (pessoa que nos é cara e trarei à baila como memória que teria
competido relançar nesta efeméride, no desenvolvimento de um legado que
se pode dizer pioneiro e que, no seu tempo, nos meios da especialidade,
deu algum brado por essa Europa fora), até às mais recentes populações
fixadas com as presúrias; com ou sem ermamento. Será evidente que,
nestes cento e tal anos transcorridos, o conhecimento evoluiu e, hoje,
novas técnicas (sobremaneira as que versam sobre a genética e os seus
avanços mais recentes) permitem a corroboração de hipóteses em
confronto, apontando ou credibilizando viabilidades que, dantes, não
passavam de meras conjecturas suportadas em achados que, mais do que
tudo, assentavam em identidades culturais e suas difusões territoriais.
São outros, por conseguinte, os saberes com que contámos. Por isso
mesmo e porque há perguntas que continuam sem uma resposta precisa (e
se resumem a interrogações tão simples como: donde proviemos? quem
somos?), poderíamos ter aproveitado a oportunidade para tentar
incentivar a sua aclaração.
Não pretendo e para que fique imediatamente claro, configurar aqui uma
qualquer pureza rácica que não existe; que nunca se verificou. É que,
desde tempos imemoriais, as migrações foram-se sucedendo. Assim e
grosso modo, de celtas a outros grupos étnicos, dos romanos (ou dos que
com eles vieram) aos bárbaros (com especial incidência nesta zona para
os suevos), dos berberes aos judeus, dos que vieram do norte, ou do
sul, com a reconquista até, séculos depois, aos escravos africanos e
que mais sei eu, em maior ou menor grau, a miscigenação foi sempre uma
realidade insofismável, mas que, todavia, não pode obliterar as
origens; a proto-história e, sobretudo, aquela cultura atlântica
advinda dos finais da idade do bronze e que, específica do noroeste
peninsular, costuma ser chamada de castreja. Que foi aquela que Martins
Sarmento trouxe à luz do dia e que a ele lhe deu a projecção
internacional que teve. E que corresponde a uma ancestralidade singular
desta parte da Ibéria, coadjuvada pelas restantes características
físicas que, igualmente, lhe são inerentes.
Isto dito, como já o rabisquei em folha local e em data velha que não
me recorda, parecia-me pertinente que, usando das instalações da antiga
Sociedade Martins Sarmento (ora Fundação Martins Sarmento) e
alargando-as para o outrora Mercado Municipal, se tivesse concebido e
edificasse um Centro de Estudos, com uma parte museológica condigna, da
cultura castreja. E porquê? Porque, na senda de Sarmento e na ausência
de uma verdadeira estrutura centralizadora daquela cultura em todo o
noroeste peninsular, na congregação dos meios universitários hispânicos
que se dedicam a pesquisas sobre ela (e porventura, até, alargada aos
franceses, irlandeses, britânicos, alemães, etc.), poder-se-ia avançar
no descortinamento das particularidades dessa cultura regional europeia
e fazer convergir em Guimarães aquilo que o nosso ilustre concidadão,
outrora e efemeramente, já conseguiu. É que, como diz o povo, candeia
que vai à frente alumia duas vezes. E com o espólio existente (quer na
Fundação, quer no Museu Nacional de Arqueologia, quer noutros -
estrangeiros, inclusivamente – e em privados), com peças devidamente
estudadas, catalogadas e expostas, seria possível organizar exposições
permanentes, ou não só, que motivassem o conhecimento dos nossos
primórdios e as deslocações de educandos, e interessados em colecções
que dificilmente poderiam ser vistas noutros lados (a exemplo do que
acontece aqui ao lado com o Museu Romano de Mérida). A par de agrupar o
saber científico da matéria num espaço aglutinador e que, reunidas as
condições, a breve trecho poderia começar a actuar em prol da
salvaguarda de uma cultura cujos vestígios, tão negligenciados, se vão
destruindo a uma velocidade alarmante. Assim e em síntese, numa acepção
chã, creio que todos teríamos lucrado com incrementar Sarmento e dar
vida activa efectiva à Fundação que tem o seu nome, abrindo-a,
inclusiva e essencialmente às instituições credenciadas que se dedicam
a estes estudos, sejam elas nacionais ou de além fronteiras.
É certo que todos devíamos ter a percepção deste momento que
percorremos.
O qual, agora, poderia surgir como um entrave a um projecto do tipo do
descrito. Mas a verdade é que a sua opção no então da escolha, por ela
mesma, não se me afiguraria como mais onerosa do que a que foi tomada;
bem antes pelo contrário. E sem querer entrar em explicitações mais
detalhadas sobre este ponto, mesmo em termos de manutenção, apenas
direi que o que mais o sobrecarregaria seriam as intervenções de campo;
sempre susceptíveis, as nacionais, de serem analisadas caso a caso, e
adiadas ou reduzidas. Na, sempre, sua dispersão pelas diversas
entidades escolares envolvidas.
Duas breves notas ainda.
Uma e primeira, para dizer que creio que teria tido o maior interesse
arquitectónico, e urbano, o cosimento de dois projectos de um mesmo
arquitecto; cada um com a sua função, abordagem e leitura distintas.
Outra para lembrar que, realizando-se este ano mais um Congresso
Histórico, na eventualidade de se ter dado vida à Fundação, ele, se
incidindo sobre a cultura castreja, teria sido um meio congregador de
eventual participação dos maiores especialistas da matéria, reforçando
e potenciando, com isso, uma desejada centralidade de Guimarães.
Óscar Jordão Pires
Fundevila, 17 de Maio de 2012