INFORMAÇÃO GRUPO SANTIAGO RÁDIO SANTIAGO O COMÉRCIO DE GUIMARÃES DESPORTIVO DE GUIMARÃES BIGGER
Pesquisar
Última horaAgenda CulturalAmbienteCED 2013CulturaDesportoDiversosEconomiaEducaçãoFreguesiasJudicialPolíticaSaúdeSegurançaSociedade
Edição de:

ARTIGO DE OPINIÃO

Reflexões que Guimarães tece

opiniao
Reflexões que Guimarães tece

A horas da anunciada inauguração do CIAJG - Centro Internacional das Artes José de Guimarães (e da, para mim, nebulosa Plataforma das Artes e Criatividade), só aqui há umas semanas e pelo programa de Junho, fiquei a saber, finalmente, preto no branco, que as previstas colecções que se mostrarão em parte daquele primeiro equipamento se reportam a peças de arte tribal africana, arte pré-colombiana e arte arqueológica (?) chinesa.
Sem pôr em causa recheio que não conheço e de que nem sequer terei a mínima competência para avaliar da sua notabilidade representativa em relação às respectivas culturas, quer me parecer, porém, que essas exposições não serão de molde a produzirem uma imperativa atracção de visitantes (estudiosos delas ou apenas meros curiosos) que justifiquem o empreendimento levado a cabo e que, noutra perspectiva, têm muito pouco a ver com a nossa idiossincrasia vimaranense; toda ela virada para mitos onde os das origens avultam. E tantos, e por vezes tão ignotos, eles são. Desde o dos Lígures, sustentado já por Martins Sarmento (pessoa que nos é cara e trarei à baila como memória que teria competido relançar nesta efeméride, no desenvolvimento de um legado que se pode dizer pioneiro e que, no seu tempo, nos meios da especialidade, deu algum brado por essa Europa fora), até às mais recentes populações fixadas com as presúrias; com ou sem ermamento. Será evidente que, nestes cento e tal anos transcorridos, o conhecimento evoluiu e, hoje, novas técnicas (sobremaneira as que versam sobre a genética e os seus avanços mais recentes) permitem a corroboração de hipóteses em confronto, apontando ou credibilizando viabilidades que, dantes, não passavam de meras conjecturas suportadas em achados que, mais do que tudo, assentavam em identidades culturais e suas difusões territoriais. São outros, por conseguinte, os saberes com que contámos. Por isso mesmo e porque há perguntas que continuam sem uma resposta precisa (e se resumem a interrogações tão simples como: donde proviemos? quem somos?), poderíamos ter aproveitado a oportunidade para tentar incentivar a sua aclaração.
Não pretendo e para que fique imediatamente claro, configurar aqui uma qualquer pureza rácica que não existe; que nunca se verificou. É que, desde tempos imemoriais, as migrações foram-se sucedendo. Assim e grosso modo, de celtas a outros grupos étnicos, dos romanos (ou dos que com eles vieram) aos bárbaros (com especial incidência nesta zona para os suevos), dos berberes aos judeus, dos que vieram do norte, ou do sul, com a reconquista até, séculos depois, aos escravos africanos e que mais sei eu, em maior ou menor grau, a miscigenação foi sempre uma realidade insofismável, mas que, todavia, não pode obliterar as origens; a proto-história e, sobretudo, aquela cultura atlântica advinda dos finais da idade do bronze e que, específica do noroeste peninsular, costuma ser chamada de castreja. Que foi aquela que Martins Sarmento trouxe à luz do dia e que a ele lhe deu a projecção internacional que teve. E que corresponde a uma ancestralidade singular desta parte da Ibéria, coadjuvada pelas restantes características físicas que, igualmente, lhe são inerentes.
Isto dito, como já o rabisquei em folha local e em data velha que não me recorda, parecia-me pertinente que, usando das instalações da antiga Sociedade Martins Sarmento (ora Fundação Martins Sarmento) e alargando-as para o outrora Mercado Municipal, se tivesse concebido e edificasse um Centro de Estudos, com uma parte museológica condigna, da cultura castreja. E porquê? Porque, na senda de Sarmento e na ausência de uma verdadeira estrutura centralizadora daquela cultura em todo o noroeste peninsular, na congregação dos meios universitários hispânicos que se dedicam a pesquisas sobre ela (e porventura, até, alargada aos franceses, irlandeses, britânicos, alemães, etc.), poder-se-ia avançar no descortinamento das particularidades dessa cultura regional europeia e fazer convergir em Guimarães aquilo que o nosso ilustre concidadão, outrora e efemeramente, já conseguiu. É que, como diz o povo, candeia que vai à frente alumia duas vezes. E com o espólio existente (quer na Fundação, quer no Museu Nacional de Arqueologia, quer noutros - estrangeiros, inclusivamente – e em privados), com peças devidamente estudadas, catalogadas e expostas, seria possível organizar exposições permanentes, ou não só, que motivassem o conhecimento dos nossos primórdios e as deslocações de educandos, e interessados em colecções que dificilmente poderiam ser vistas noutros lados (a exemplo do que acontece aqui ao lado com o Museu Romano de Mérida). A par de agrupar o saber científico da matéria num espaço aglutinador e que, reunidas as condições, a breve trecho poderia começar a actuar em prol da salvaguarda de uma cultura cujos vestígios, tão negligenciados, se vão destruindo a uma velocidade alarmante. Assim e em síntese, numa acepção chã, creio que todos teríamos lucrado com incrementar Sarmento e dar vida activa efectiva à Fundação que tem o seu nome, abrindo-a, inclusiva e essencialmente às instituições credenciadas que se dedicam a estes estudos, sejam elas nacionais ou de além fronteiras.
É certo que todos devíamos ter a percepção deste momento que percorremos.
O qual, agora, poderia surgir como um entrave a um projecto do tipo do descrito. Mas a verdade é que a sua opção no então da escolha, por ela mesma, não se me afiguraria como mais onerosa do que a que foi tomada; bem antes pelo contrário. E sem querer entrar em explicitações mais detalhadas sobre este ponto, mesmo em termos de manutenção, apenas direi que o que mais o sobrecarregaria seriam as intervenções de campo; sempre susceptíveis, as nacionais, de serem analisadas caso a caso, e adiadas ou reduzidas. Na, sempre, sua dispersão pelas diversas entidades escolares envolvidas. 
Duas breves notas ainda.
Uma e primeira, para dizer que creio que teria tido o maior interesse arquitectónico, e urbano, o cosimento de dois projectos de um mesmo arquitecto; cada um com a sua função, abordagem e leitura distintas.
Outra para lembrar que, realizando-se este ano mais um Congresso Histórico, na eventualidade de se ter dado vida à Fundação, ele, se incidindo sobre a cultura castreja, teria sido um meio congregador de eventual participação dos maiores especialistas da matéria, reforçando e potenciando, com isso, uma desejada centralidade de Guimarães.

Óscar Jordão Pires
Fundevila, 17 de Maio de 2012
GUIMARÃES

METEOROLOGIA

Hoje:

   

Amanhã:

10º 18º 19º
13º 12º
ARTIGO DE OPINIÃOVergonha e satisfação
 
desenvolvido por 1000 Empresas GUIMAPRESS © Todos os direitos reservados | Ficha Técnica | Publicidade | Contactos   Feed RSS