Rui Machado: "O Pevidém sobe por mérito e não pelo alargamento do Campeonato de Portugal"



O Pevidém foi promovido ao Campeonato de Portugal por mérito desportivo e não por via de qualquer alargamento. É esta a ideia defendida pelo presidente do clube vimaranense, Rui Machado, que lembra que as subidas dos distritais ao Campeonato de Portugal sempre estiveram programadas. Em entrevista ao Grupo Santiago, Rui Machado sublinha a justiça da Federação Portuguesa de Futebol, que permitiu ao Pevidém concretizar o objectivo traçado para esta época.

A notícia da promoção do Pevidém ao Campeonato de Portugal chegou na altura certa tendo em vista a preparação da temporada 2020/2021?: "O timing não é o melhor, mas também, não é o pior, uma vez que dá tempo para preparar a nova temporada. Não foi o melhor porque causou muitos nervos a toda a gente, que eram desnecessários. O processo teve várias abordagens, confirme os escalões, isso criou desconfiança. Ninguém entendia muito bem o que estava a acontecer. Quando foi anunciada a descida de duas equipas da II Liga, diria que aí se entornou o caldo porque ficamos todos sem perceber como era possível descerem nuns campeonatos e noutros não. Não tínhamos certeza de nada, isso cria desconforto, stress, esta semana foi mesmo muito stressante.”

No seu entender, este processo foi mal conduzido?: "Não temos os dados todos, mas todos nós temos opinião... e devemos tê-la. Na minha opinião, e não abdico dela, devia ter havido uma decisão transversal a todos os escalões. A primeira decisão tinha de vir sempre de cima, o futebol é piramidal, o que acontece em cima tem sempre implicações em baixo. Isto aconteceu completamente ao contrário. Primeiro anularam-se os campeonatos de formação, hoje percebe-se que fez sentido porque não há condições para os reatar. Depois, foi o futsal, futebol feminino e futebol amador, sendo que no próprio futebol amador umas associações tiveram uma opinião, outras outra, no que diz respeito às promoções. Neste imbróglio todo, uma das associações que teve uma melhor postura foi a nossa, porque não inventou. Recebeu directrizes da Federação e implementou-as, aguardou sempre as directrizes. Também se percebeu que houve uma luta de galos, uma pressão entre Federação e Liga, que fez com que os outros agentes do futebol, ao assistirem a decisões avulsas, começassem a duvidar que o processo estaria a ser bem levado. Ainda vamos ter o reatar da I Liga, que vamos ver como vai correr, tenho sérias dúvidas que vá correr bem, mas espero que sim para o bem do futebol. O resto está tudo muito bem definido."

As entidades competentes tomaram decisões contraditórias?: "Por exemplo, eu acho uma injustiça a descida do Casa Pia e do Cova da Piedade, na medida em que nos outros escalões ninguém desceu, porque raio na II Liga vão descer dois clubes."

O Pevidém acabou por usufruir das alterações promovidas pela FPF para ser promovido?: "Há um aspecto que queria deixar bem claro. O Pevidém sobe por mérito e não pelo alargamento do Campeonato de Portugal. Quem se mantém e estava nos lugares de descida é que beneficia do alargamento. São duas coisas completamente diferentes. Os distritais subiram dentro daquilo que foi o critério preconizado pela UEFA e FIFA, eram líderes das suas séries, por conseguinte subiram de divisão. Os clubes que estavam nos lugares de descida mantêm-se porque o Campeonato de Portugal foi alargado."

Qual será o projecto desportivo do Pevidém para o Campeonato de Portugal?: "Digo sempre que o objectivo do Pevidém é chegar à Liga dos Campeões e ganhá-la. Se isso é possível, provavelmente não o será. O nosso projecto é fazer a melhor equipa possível e lutar pelos primeiros lugares. Mas, pode correr mal e descermos de divisão. No ano passado fomos o único clube do Pró Nacional que assumiu o objectivo de lutar pela subida. Neste caso, será afrontoso assumir que o Pevidém vai lutar para subir, mas não vamos ser os coitadinhos."

Numa temporada marcada por mudanças dos quadros competitivos, a exigência será maior?: "As simulações das possíveis séries colocam-nos numa que será de grau de dificuldade altíssimo. É um factor de regozijo para mim e para a minha equipa técnica, porque gostamos de desafios. Só podemos aprender com os melhores e essa competitividade cai ser muito boa para o clube. Poderá ser a série mais difícil do Campeonato de Portugal. Em relação ao formato, ainda tenho dúvidas que possa acontecer da forma como foi revelado. Esta coisa da III Liga... vamos ver."

Esta reestruturação anunciada esta semana não será benéfica para o futebol?: "Na minha opinião, não é. Estão a apelar cada vez mais ao profissionalismo, mas as pessoas devem ter a noção de que as receitas que os clubes têm não serão base para encher três divisões. Mesmo com um salário mínimo, um plantel de 23 jogadores vai custar ais de 200 mil euros por ano. Se pegarmos nas equipas do Campeonato de Portugal, não sei se há 18 que têm orçamentos desses. Ou há uma alteração nas fontes de receitas, com o Canal 11 ou a abertura das apostas desportivas à III Liga, ou então as diferenças serão grandes. O quarto nível vai perder muita qualidade, será uma espécie de campeonato inter-distrital, com subias e descidas constantes, com mais dificuldade em chegar acima. Acho estranhíssimo as pessoas estarem tão preocupadas com a diferença de orçamento entre o Cerveira e o Vizela, quando a diferença entre o Benfica e o Moreirense é superior. Temos de nos começar a preparar como que esta acima, para planear para baixo."

O projecto do Pevidém será na base da continuidade?: "Eu penso que a base da equipa tem condições de ascender ao Campeonato de Portugal. Tudo isto ainda está a ser pensado e planeado. O João Pedro Coelho será, claramente, o nosso treinador. Acredito que ele vai dar o salto rapidamente, até porque se não o der vai desistir do futebol. Ele já me tinha dito que se fosse para continuar nos campeonatos distritais, não iria contar com ele, apesar de adorar o Pevidém. Acredito que vai demonstrar o seu valor no Campeoanto de Portugal e que isso lhe vai abrir outras portas. No ano passado, preparamos o plantel para o Campeonato de Portugal, porque não sabíamos que prova íamos disputar. Temos ali muitos jogadores que têm capacidade para competir no Campeonato de Portugal. A grande diferença é que vamos continuar com um registo amador, com treinos pós laborais, e vamos ter de competir com equipas com perfil profissional, com jogadores que só treinam, o que faz muita diferença."

Como é que o Pevidém vai conseguir esbater essas diferenças?: "Com alma, com coração, com qualidade e competência. Teremos muita vontade, não há outra forma de o fazer. Um jogador que trabalha oito horas, tem de treinar ao final da tarde, descansar menos, não tem o mesmo índice competitivo que um jogador profissional. Mas, o futebol é um jogo de 11 contra 11... e no fim ganha o Pevidém."

Financeiramente, é um enorme desafio para o Pevidém?: "É um desafio assustador. A conjuntura é muito má. Acreditamos que vai ser difícil conseguir apoios de possíveis patrocinadores em qualidade e quantidade como têm vindo a acontecer. Mas, vamos à luta, com os pés assentes na terra, sabendo que o critério da escolha dos jogadores não poderá ser só pelo dinheiro, mas também pelo projecto. O Pevidém não é a porta certa para aqueles que vierem para ganhar dinheiro."

O Campeonato de Portugal pode ser mais aliciante para recrutar jogadores?: "Estou no Pevidém há cinco épocas, já contratei muitos jogadores ao Campeonato de Portugal e sei quanto me custou, porque preferiam ganhar menos e estar num escalão acima. A viabilidade é outra, um jovem que queira uma carreira no futebol olha para o Campeonato de Portugal como uma porta de entrar para nos campeonatos profissionais. É nessa base que vamos procurar contratar. Também não escondo que estamos a tentar firmar parcerias, quer com clubes de outros patamares, que possam utilizar o Pevidém como uma plataforma para rodar activos, e também com empresários. Já começaram a chover telefonemas, vamos tomar as melhores opções para o clube."

Com a subida de divisão, acentua-se a urgência de melhorar as infra-estruturas?: "Essa necessidade existe há muitos anos. É um dossier que o clube não tem qualquer tipo de hipótese de financiar. Teremos de contar sempre com o apoio da Câmara Municipal, apoio esse que nos tem sido reiterado. Este ano houve algum desencontro em termos de timings para que o Pevidém fosse incluído no lote de clubes que beneficiaram. Temos a promessa do senhor Presidente da Câmara que será no próximo ano, mas não sabemos em que moldes. Temos noção que o orçamento da Câmara poderá diminuir para o futebol, que não será a prioridade máxima neste contexto. Vamos aguardar com serenidade, sendo que é urgente fazer alguma coisa naquele parque de jogos. O futuro passa por adquirirmos um terreno na Vila, onde há poucos, para fazer uma pequena Academia, à nossa dimensão, para a formação, e manter o estádio, com uma remodelação que o torne pelo menos limpo e adequado."

É um estádio antigo, que necessita de muitas obras?: "Passa pela remodelação das bancadas, casas de banho, balneários... chove em todos os balneários, que são pequeníssimos. Não tem ponto por onde se lhe pegue. A única coisa boa que terá são as cadeiras e a estrutura da bancada central, que queremos alargar. Não termos uma sala de fisioterapia, um espaço para uma conferência de imprensa. A nossa sede é um contentor alugado, que nos custa 160 euros por mês, o que é um disparate. Os balneários da formação são um desastre, não temos redes de proteção para o campo de futebol 7 e perdemos às 50 bolas por ano. Nós conseguimos, com o nosso orçamento, fazer manutenção, alguns melhoramentos, pouco mais. O orçamento que temos para colocar luzes LED é de 70 mil euros, são valores incomportáveis para o clube. As obras são na casa das centenas de milhares de euros."

A aproximação dos adeptos ao clube nos últimos anos tem base de sustentabilidade no futuro?: "Espero que sim. É um processo longo. Temos de devolver a confiança às pessoas. Acredito que muitos adeptos, nesta altura, estão a pensar o que raio estamos a fazer com a subida de divisão, porque da última vez correu muito mal."

E que mensagem quer passar a esses associados?: "Digo para confiarem, para participarem, para irem às Assembleias, para se fazerem sócios, para pagarem quotas. Temos 160 sócios pagantes! O Gonça, que é de uma freguesia muito mais pequena, tem 400 sócios pagantes; o Campelos é um clube de uma parte de uma freguesia e tem muitos mais sócios do que nós. Ser sócio do Pevidém custa 15 euros por ano! Nota-se uma reaproximação, as pessoas falam mais de futebol, temos vindo a provar que temos uma filosofia para o clube que é importante para a Vila, sabemos do nosso papel social. Temos formação, que é o cerne dessa questão."

Num ano de eleições para os Órgãos Sociais da Associação de Futebol de Braga, qual é o balanço do trabalho da instituição?: "Sou muito intervertido, as pessoas dizem para estar mais calado, mas não consigo. No que diz respeito à Associação de Futebol de Braga, penso que teve uma atitude muito positiva, porque é melhor não se precipitar do que fazer asneiras. Não tenho dúvidas nenhumas que a Associação de Futebol de Braga defendeu os interesses do Pevidém junto da Federação. E não ligo todos os dias ao presidente da Associação, não uso o telemóvel para esse fim. Se isso basta para qualificar o trabalho como muito bom, isso são outros quinhentos, penso que se podia fazer mais. Prefiro dar sugestões em sede própria, o que farei em sede própria."

Marcações: Campeonato de Portugal, Pevidém Sport Clube, Rui Machado

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