Reflexões que Guimarães tece

As comidas pesadas são de mais lenta e difícil digestão. Todos o sabem.
Por isso as modas, ao sabor das circunstâncias da vida, vão no sentido do aligeirar; num alar­gamento de atitude que se vai estendendo a to­dos os aspectos de um presente quotidiano em­borcado sofregamente. E na estonteante velo­cidade imprimida a essa corrida, de um modo assaz generalizado e cada vez mais banalizado, despreza-se o atentar mais ou menos aprofundado sobre o cenário em que aquela se desenrola e em que este, portanto e apenas, se mostra como de afirmação de uma presença demonstrativa dum afloramento de passagem; de como uma espécie de sequência de imagens para postal. A tanto nos conduziu um consumo desenfreado e cuja promoção, sem olhar a outras consequências, busca tão só a máxima rentabilidade económica: o deificado lucro.
Bem isto a propósito da quantidade de turistas que, diariamente e num crescendo que é facilmente detectável em comparação com um passado ainda recente, deambulam pela cidade e, principalmente, no percurso entre o Castelo e o Largo da República do Brasil (descendo pelo Carmo e passando pela rua de Santa Maria, Largo da Oliveira e Senhora da Guia; com uma que outra lateralidade, sobretudo nos desencarneirados). O que demonstra que esse roteiro chegou a alguns promotores de viagens e que estes o consideram, e conseguem incluir, nos seus programas de visitas deste País (que não como destino final). O que, parece, coloca o centro histórico vimaranense numa posição atractiva para aquelas (talvez até e em certa medida às cavalitas dos galardões outorgados que, nalguns aspectos, lhe podem ter dado publicidade).
Esboçada esta que parece ser uma realidade insofismável, e quiçá algo perdurável, como compaginá-la com a do própria burgo, no que ele tem, ou deverá ter, de fundamental função de aglomerado de pessoas, cujas peculiares vivências são quem determina a identidade de cada centro urbano, que não quaisquer infraestruturas físicas, por muito marcantes que estas possam ser. Lembre-se Petra, uma cidade morta e que outras atacadas de neoplasias que as vão corroendo, não tem já, ou estão a perder, a sua individualidade diferenciadora. A sua, permita-se, alma.
Feita esta alusão e antes de se abordar a questão acima levantada, na suma insciência da categoria do que se pode designar por turismo, parece ainda que será de bom tom tecer algumas explicitações sobre o que propomos versar nestas linhas. Assim, elas circunscrever-se-ão apenas ao nosso território municipal, às pessoas que se desloquem para ele e, dentre estas, apenas às que façam por motivos culturais, de laser e de saúde (que serão aquelas que mais nos interessarão e também as que mais vulgarmente se associam a esse ramo de actividade). E, claro, quais as potencialidade futuras de qualquer desses ramos.
Feita a delimitação e apontando o existente, comecemos pela última, deixando a cultura para o fim.
Nesse campo e com a exclusão das Caldas de Vizela (que, em idos e tempos de termalismo, teve alguma notoriedade e procura), as das Taipas, no seu estado actual e no da Vila, não me parece que motivem, ou tenham virtualidades significativas para, em termos de desenvolvimento do município, contribuírem para uma grande me­drança de aquistas que as demandem. Num mesmo alinhamento, a ausência de unidades de saúde de diagnóstico, tratamento e paliativas de ponta que pudessem fazer toda, ou alguma, diferença, mostra-nos que, por esse lado, as perspectivas são inexistentes, pelo menos numa miragem a médio prazo (na total descrença de quaisquer opções de investimento nesse âmbito). E mais não haverá que adiantar quanto a este ponto.
Passando a seguir ao lazer, aí o nosso espaço parece estar mais ape­trechado; embora a sen­sação seja a de que o que há esteja, e bem, mais vocacionado para nos servir do que para atrair gente de fora de forma sustentável e para alguma permanência. É que, dos parques de campismo às instalações desportivas, do Scorpio ao Open Village Sports & Spa Club, dos parques à Penha e à Pousada da Costa, sem esquecer os Santuários e outros equipamentos disponíveis (p.ex.: as casas rurais ou solares), há um pouco de tudo. Mas serão o bastante para um real aumento de estadias? Não se o crê. Neste campo, portanto, há que planear e investir, embora a disparidade com os concelhos à volta seja muito pouca e todos tentem enveredar na mesma direcção, concorrenciando-se e fazendo ponderar nos escolhos dessa via. Aliás, neste particular, uma riqueza da região de provável actual apetência e uma das valias ainda tão propaladas há sessenta ou setenta anos, seria o frondoso bucolismo verdejante deste Baixo Minho, que, desde en­tão, uma desenfreada desorganização terri­torial pretensamente progressista tem vindo a destruir, semeando o caos e pondo fim a um sistema de ocupação ancestral, amigo do ambiente e criador da tal paisagem única e, como se disse, antes incensada. Para se perceber esta perda basta deambular com olhos de querer ver por essa Europa além. Mas, enfim, hoje temos o que temos e é sobre ele que urge trabalhar. Embora neste campo as perspectivas também não sejam muito prometedoras.
Seguindo e saltando finalmente para a cul­tura, espécie de Babel aonde pode caber quase tudo (sobremaneira os descendentes da crismada colina sagrada e o duvidoso do ensino), para uso próprio e numa equiparação com as cercanias, o concelho não desmerece e ressalvada a diferenciação atribuída ao Porto e já, de certo modo, a Braga, pode dizer-se que se está razoavelmente servido. Ponto será, talvez, a qualidade das muitas iniciativas e actividades desenvolvidas, que não parecem suscitar interesse que fomente a necessidade da vinda cá, ou muito menos para cá, de gente doutros lados (ressalvado: o ensino superior, especializado ou internacional - mas, mesmo aí e comparando com Braga, a Universidade que se queria, e deveria ter sido, localizada em dois polos fixou-se definitivamente lá, chamando, e residenciando aí, muito mais estudantes; e o do próprio património, que, fora bairrismos, se alargarmos ao todo da União se terá de situar à similar escala da nossa pequena dimensão, com a particularidade do Museu e, na sempre falta de arrojo, da ausência de um Museu Central da Cultura Castreja do Noroeste Peninsular). E também que um que outro evento que se vem realizando com constância não tem conseguido atingir, em qualidade, um patamar que alicie participantes, nem públicos em esca­la minimamente com­pensadora, mormente e quanto a estes últimos, para o período da sua duração. O que nos leva à constatação de que a aposta em quantidade em desfavor de uma mais valia intrínseca não parece ser a solução; e nem sequer o é de um ponto de vista dos munícipes. Por outro lado, na reconhecida insuficiência de meios financeiros, a desproporção entre espectáculos li­geiros e os de maior subs­tância cultural, também se cuida que não ajuda e, inclusivamente, de­sincentiva e não promove a elevação do nível cul­tural. De fora, portanto e em franco crescimento, apenas o dito turismo da massas: os acima apodados descendentes. Estes com riscos.
É que esta derradeira tendência têm dois graves inconveniente: um e primeiro que sub-repticiamente já vai gras­sando, o da gen­trificação; outro e usando a chamada de atenção do PM, o de que não podemos ter os centros das cidades como Disneylândias para adultos.
 
Óscar Jordão Pires
Fundevila, 6 de Junho de 2018

em Opinião

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