A Arte de ser Vimaranense

No passado dia 24 deste mês de junho, comemoraram-se 890 anos da Batalha de S. Mamede, cuja vitória inspirou a escolha dessa data para o dia do Município. Assim nós, vimaranenses, sem esquecermos o popular S. João, que no dia do pleito terá inspirado as já portucalenses hostes Afonsinas, à data fizemo-la nossa e batizamo-la, qual João Batista coletivo, de “O 24 de Junho”. Mais que uma data, simultaneamente um nome e um título.
É o dia de Guimarães mas é, igualmente, o dia do vimaranensismo.
Se outrora a come­moração pouco ia além de uma cerimónia religiosa e da Sessão Solene, de há já muito tempo vem ela sendo feita igualmente por manifestações de caráter desportivo, este ano até com uma meia maratona que teve honras de transmissão televisiva direta o que, mais uma vez, levou Guimarães a todo o Portugal que aqui nasceu e, pode dizer-se, foi concebido naquele 24 de junho de há 890 anos.
A coincidência, no ano corrente, do Dia de Guimarães com a Feira Medieval, trouxe uma particular animação à cidade e maior atenção ao que o dia representa para nós vimaranenses e, pelo menos assim o dizem os mais consagrados his­toriadores, para Portugal.
O Dr Domingos Bragança, Presidente da Câmara Municipal, na Sessão Solene deu parte de que no próximo ano letivo terá início, integrado na Universidade do Minho, o curso de Artes Visuais, assim alargando o leque de atividades artísticas a brotarem a partir da nossa terra, permitindo-me imaginar a breve trecho novas manifestações e eventos, nomeadamente relativos às artes plásticas, atraindo vimaranenses e forasteiros, agora numa área cultural que vem sendo cada vez mais atrativa para interessados e colecionadores, princi­palmente no domínio da pintura e suas derivadas, como a colagem, e assamblage, da escultura e da sua parente, a ins­talação.
Há, porém, uma arte muito particular inerente aos nossos concidadãos e concidadãs, que é a arte de ser vimaranense.
Terei dificuldade em defini-la, sobretudo porque é uma arte ancestral e, algures, bem contrária ao que possa achar-se como sendo arte de ser.
Mas dela será de­monstrativo o modo como os vimaranenses conseguiram das dificuldades extrair forças, da modéstia riqueza, fortuna do infortúnio, fazendo esquecer a cidade que foi – pobre, descuidada, desarrumada, de odores dificilmente toleráveis, para se transformar numa urbe Património da Humanidade, em que aquilo que foi pobreza é hoje admirado pelo que tem de atraente; como à fome mais ou menos generalizada fez suceder uma gastronomia merecedora de inegável apreço; ao fazerem da zona de origem dos ancestrais maus cheiros lugar turisticamente interessante e berço de ciências avançadas; com a superação da decadência das indústrias ultrapassadas com unidades de tecnologia de ponta, elevado rendimento e grande procura internacional; através da despoluição acelerada dos seus cursos de água e de uma nova e moderna feição dada à sua agricultura; pelo trabalho com afinco para que Guimarães seja reconhecida como Capital Verde Europeia, galardão que sem dúvida colherá mas que, ainda que não venha a colher, sempre trará os frutos do caminho encetado nesse sentido, com valiosíssimos ganhos de natureza ambiental, salubridade e bem estar.
Porém, e isso é que é importante, tudo com o empenho ativo das pessoas, aquelas que nas passagens de modelos no centro histórico ajudaram criadores e estilistas a acertar as roupas que as modelos haveriam de exibir, as que constituindo-se em brigadas verdes devotadamente se en­volvem no embe­lezamento e saúde da natureza, os herdeiros daquelas que em três dias ergueram uma praça de touros para que as festas da cidade desse ano longínquo não ficassem privadas de um então icónico evento, feito ainda hoje motivador para muitos, a colaboração e espírito de sacrifício de todos, homens, mulheres e, não esqueço, crianças, bem como empresas, que de si deram o melhor para que, com cumprimento de prazos e respeito por orçamentos, fosse construído e levado a cabo tudo o que permitiu que Guimarães fosse, primeiro pensada e depois escolhida para Capital Europeia da Cultura em 2012; lembro ainda, mais que o apoio, o carinho que ao club de futebol local é votado pelos seus adeptos e simpatizantes, que com ele têm uma relação intensa que os leva a apoiá-lo seja em que circunstâncias for, fazendo a inveja dos adeptos de praticamente todos os demais clubes congéneres por esse país além.
O associativismo, que entre nós assume uma relevância excecional, é, também ele, fruto da vontade de entrega dos vimaranenses à sua terra, sendo muitas associações autoras de múltiplos eventos da mais variada natureza, com especial pendor para os de caráter cultural e desportivo.
Tudo isto, e muito mais, é fruto da tal arte de ser vimaranense de que ao início falei, que faz dos meus concidadãos portugueses invejáveis e invejados, sendo cada vez mais frequente ouvirem-se, a par das referências encomiásticas a Guimarães cidade, também à qualidade das pessoas de que Guimarães é feita.
A Câmara Municipal e a Assembleia Municipal do nosso concelho são integradas por cidadãos e cidadãs que a comunidade vimaranense escolheu para coletivamente representar todos e cada um dos seus membros, sendo que a todos irmana um indefetível amor à sua terra e nele o sentimento de coletiva comunhão.
Ao receber, no passado dia 24, os símbolos materiais da distinção com que fui agraciado, tive bem presente que, se tal honra me foi concedida, devo-o aos vimaranenses, esses entes com um tão especial modo de cidadania que assim decidiram através dos seus legítimos representantes.
A todos presto a minha vénia em homenagem à sua arte de ser, e, não sendo possível demonstrar materialmente quanto me honra, e até seduz, ser membro desta magnífica comunidade, o quanto me emocionou ser por ela distinguido do modo por que o fui, a cada um dos meus concidadãos retribuo a distinção que me foi conferida, transmitindo-lhes o meu grande afeto, de um tamanho que para todos chega, distribuído a cada um em não pequena medida.
    
Guimarães, 26 de junho de 2018
António Mota-Prego
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em Opinião

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