L’UOMO VITRUVIANO”

Na evidência de que existe passado, às vezes há que revisitá-lo e realinharmo-nos no que de bom dele somos herdeiros; reganhar um sentido de pertença que fez de cada um de nós aquilo que somos no presente da história humana. E sentir que é continuando valores que os antecessores nos legaram na sua romagem milenar (nem sempre pacífica e muitas vezes carregada de escolhos, destruições catastróficas e retrocessos), defendendo-os e melhorando-os, que cumpriremos a missão da espécie.
Assim, no particular das diversidades civilizacionais que ocorrem na superfície de um planeta que, cada vez mais, parece limitado (demasiado liliputiano com e pela progressão científico-tecnológica), o que se nos comete é prosseguir com o aperfeiçoamento e efectiva aplicação desses valores que consideramos fundamentais. Tanto mais que, nós europeus, temos responsabilidade pelas colonizações e similares coacções expansivas de um passado mais ou menos recente; tenham sido elas territoriais ou de outro género. E também a temos porque a nossa distinção cultural (o todo da matriz que concebemos, e que fomos desenvolvendo com o nosso caminhar temporal, a cada momento e quase até à contemporaneidade), exportamo-la um pouco por todo o mundo; e em matéria dos seus valores (impropriamente queridos como universais), as mais das vezes impusemo-los, ainda que, por vezes, com alguma aceitação dos que a eles se tiveram de sujeitar.
A ser assim, importará, pois, determo-nos sobre essa nossa identidade europeia; identidade que, no que concerne ao propósito destas linhas, remonta à antiguidade clássica e à sua raiz grega. E aí, à polis; conceito que nesses recuados idos tinha uma conotação muito sua. É que não se era da polis por se ter nascido nela ou aí se residir, mas tão somente por se pertencer a uma específica comunidade que nela existia e que só ela a constituía; isto porque nem todos os seus habitantes gozavam dos direitos de cidadania e só os que os tinham estavam, por conseguinte, integrados no grupo restrito dos cidadãos (os outros grupos sociais, escravos e metecos, estavam dela excluídos). Ou seja, a polis não era mais do que uma comunidade que, no processo orgânico do seu desenvolvimento para alcançar os objectivos primários de sobrevivência e subsistência (embora a obtenção destes fosse deixada nas mãos dos não cidadãos), lhes acrescentava os de uma gestão, participação política, direcionada para o máximo seu bem viver conquanto comunidade. Transcendendo, portanto, a mera associação familiar e doméstica (oikos - casa), ou a de meros vizinhos (komê - aldeia) e estruturada em duas esferas: a pública e a privada. A primeira a do exercício do bem público, a política e a segunda no dum comportamento condigno, a ética; em qualquer caso intimamente interligadas, porque qualquer delas não é verificável sem a outra. E disso nasciam as regras, a constituição (politeia), para se atingir a plenitude, a excelência, da actividade individual e colectiva: a vida boa (eu zên); a felicidade (eudaimonia). Assim e como se compreenderá, já então, por essa sua intencionalidade de prossecução do bem comum, a política era a actividade mais nobre. Propósito ideal aquele, o de o bem comum (na sempre sua relatividade), que se realça e devemos reter.
Entretanto as cir­cun­voluções foram-se somando e totalizadas já nalguma quantidade, abreviando, quase dois mi­lénios decorridos, emerge o Renascimento. É que condições objectivas concretizadas na Toscânia no final do trecento e sobremaneira no quattrocento, permitiram um regresso ao humanismo (já, de certa forma, antecipado e predicado por Francisco de Assis) e à cultura clássica. Movimento que, depois, se estendeu a toda a Europa e acabou por soterrar a Idade Média. À vol d’oiseau, porque, como sempre, o espaço não dá para mais, destaca-se, a partir dos fins do último século atrás citado, Leonardo. Mestre de muitos saberes, entre eles o desenho, acontece que num dos seus cadernos diários exarou, em sobreposição, a figura de um homem nu, inscrita numa circunferência e num quadrado com os braços mais ou menos elevados e as pernas juntas ou algo abertas. E o porquê da relevância deste desenho sobre tantos outros que nos deixou? Porque aí se delineia o corpo humano numa proporção, entre as suas partes, determinada pelo número irracional Phi (dito, número ou regra de ouro), composição pictórica que, posteriormente, veio a simbolizar o humanismo: do homem como medida, e centro, das atenções. Numa ligeiríssima referência que o nome obriga, dir-se-á apenas que o Mestre retratou as proporções que Vitruvio (Marcus Vitruvius Pollio, romano do sec. I a. c.) relatara no seu tratado De Architectura e atribuíra ao corpo humano.
E mais uma vez a Terra seguiu a voltear, o humanismo foi-se implantado, os reinos foram ampliando as cidadanias, os conceitos sobre aquele foram crescendo até que irrompeu o estrondo de Liberté, Igualité et Fraternité, a Declaration des Droits de L’Homme et du Citoyen, as nações, o acidente da Comuna de Paris, a Revolução Russa, as grandes guerras e, no fim da segunda, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos do Homem; cujo preâmbulo (e não só), devia ser de leitura obrigatória no ensino e matéria de catequese, por conter considerações e definir direitos primordiais. Desde logo a primeira consideração do seu Preâmbulo que afirma “... que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo.”.
Num conjunto de valores e direitos que, no presente, quotidianamente e perante uma apatia generalizada, vem sendo sucessivamente postergados.
Talvez porque se caiu num laissez faire que tem as suas raízes num materialismo (não confundir com o conceito filosófico do termo, pois, apenas e tão somente é usado como indicativo de uma sobrevalorização dos bens, valores e prazeres materiais) exacerbado, engendrado por um sistema económico que reduz tudo a quantidades monetárias susceptíveis de definir padrões de vida, e consequente estatuto social, e conter todas as aspirações. Nele a economia manda, os TINA subjugam, os autómatos de serviço creem-se deuses de pacotilha e defensores de absolutos científicos que, na sua contingência, não são mais que opções (cifra, p. ex., Maurice Allais), os instrumentos passam a leitmotivs num pleno de circunstâncias que calam qualquer veleidade do primado do bem comum, porque a economia tem, no caso e sempre no sistema, beneficiados interesseiros e não assume, assim e portanto, a devida, e exigida, cura res publica ciceroniana.
Não será tempo de acordar, de recentrar o Homem no, nele e para ele, Humanismo, repescando o velho sentido da polis, agora alargada a todos, como o valor supremo a que tudo se deve subordinar?
 
Óscar Jordão Pires
Fundevila, 4 de Julho de 2018

em Opinião

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