Euforia ilusória

Depois de um período de forte depressão económica iniciado em 2008 com o rebentamento da crise da bolha imobiliária nos Estados Unidos, que acabou por contagiar a banca europeia, sofreu Portugal as consequências de ser um país fortemente endividado, tendo o Estado e toda a economia nacional ficado à mercê dos mercados financeiros internacionais.
A primeira conse­quência da situação de endividamento do Estado português foi a queda da sua notação financeira, sendo a sua dívida classificada como lixo por três das quatro empresas internacionais credenciados para esse efeito.
Depois, secaram as fontes habituais de financiamento que ao longo das últimas décadas tinham vindo a alimentar a dívida do Estado e do seu sector empresarial, com empresas como a EDP com dívida de 17.500 milhões de euros, ou a TAP, a CP e as empresas de Transportes Colectivos do Porto e de Lisboa com dívidas da ordem dos milhares de milhões de euros.
O estado foi socorrido “in extremis” por uma troika de instituições - FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu - que em conjunto colocaram à sua disposição aproximadamente 80.000 milhões de euros com taxas variar de 3 a 5%.
As empresas e toda economia sujeitaram-se a empréstimos com juros da ordem dos 10 a 15% inviabilizando assim o funcionamento das mais endividadas e gerando, por isso, falências em cadeia, elevado crédito mal-parado na banca com grandes imparidades nos seus balanços, desemprego da ordem dos 18%, emigração forçada para centenas de milhares de pessoas, nomeadamente jovens licenciados. Enfim, uma crise económica e social profunda.
Foi esta a situação a que o país chegou há pouco mais de meia dúzia de anos em consequência da gestão ruinosa e fraudulenta de muitas das instituições do Estado que, empurrando a sua notação financeira para o lixo, afetou de forma irremediável toda a economia nacional.
Sem mercado interno para os seus produtos, as empresas, na luta pela sobrevivência, fo­ram empurradas para o mercado externo conduzindo assim 40% da economia do país para a exportação, meta desde há muito desejada.
Depois de introduzidas várias medidas mo­ra­lizadoras na admi­nistração do Estado, assim como reformas na área de trabalho, na segurança social e em vários sectores da actividade, fizeram-se sentir efeitos positivos nos finais de 2014, princípios de 2015.
Com a conquista da credibilidade perdida e com a injeção de liquidez pelo Banco Central Europeu (quantitive easing) o país beneficiou de juros baixos que, aliados às reformas introduzidas e a um crescimento do turismo nunca visto, em consequência, sobretudo, da crise dos países do norte da África (primavera Árabe), permitiu à economia crescer a ritmos da ordem dos 3%, ao desemprego cair para taxas da ordem dos 6% e ao Estado ver as suas receitas subirem e assim obter um saldo primário positivo com contas com défice apenas decorrente de ter juros a pagar que se situaram na ordem dos 8.000 milhões de euros. Ou seja, apesar da melhoria das contas, a dívida do Estado continua a subir e a situar-se na ordem dos 245.000 milhões de euros.
Esta brisa fresca que se fez sentir, acompanhada das habituais promessas demagógicas feitas em períodos eleitorais por políticos pouco conscientes com vista à conquista do poder, estão a empurrar o país para uma euforia ilusória gerando um côro de reivindicações por parte dos funcionários públicos e dos trabalhadores das empresas do Estado que parecem esquecer a doença principal de que o país enferma – uma astronómica dívida pública – a qual não parará de crescer enquanto o saldo orçamental for negativo, e que, ao menor abalo dos mercados financeiros internacionais atirará, seguramente, e mais uma vez, o nosso país para o abismo.
Oxalá que o dis­cernimento e a lucidez dos principais responsáveis da nação consigam vencer mais esta tentativa de capturação dos interesses do Estado (isto é, dos contribuintes) por parte de corporações de natureza económica e social.
 
Guimarães, 17 de Julho de 2018
António Monteiro de Castro
 

em Opinião

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