Belchior

O Belchior, meu colega de curso, era um homem afabilíssimo, um magistrado de eleição e, sob uma aparência de timidez que lhe conferiam a estatura algo menos que meã, a anatomia levemente arredondada e uma expressão de permanente doçura, era dotado de um enorme sentido de humor e, sem que nunca mo tenha confessado, nem eu conheça a quem o tenha feito, teria uma enorme vocação para ator.
Isso notava-se pelo modo como contava as peripécias do dia-a-dia, as anedotas e acontecimentos em que participava ou que lhe passavam por perto.
Conheci-o sendo ele caloiro e eu semi-puto, o que de acordo com a praxe coimbrã significava que ele acabara de ingressar na Universidade e eu nela tanto me ilustrava como gastava corria já o meu segundo ano de frequência.
Foi por comum amigo e colega de curso que soube que, falando-se dele, presente e futuramente o verbo a empregar terá obrigatoriamente de ser conjugado no pretérito. 
Minimamente apaziguada a natural primeira sensação de grande perda de um dos beneficiários dos meus afetos de antanho, eu e o meu interlocutor, naquele pescar de memórias que tantas vezes disfarça um certo instinto misto de defesa e de esconjuração, falámos demoradamente do nosso amigo e de algumas das vivências com ele tidas; foi aí que me vieram à lembrança as circunstâncias em que o conheci.
A praxe, na Coimbra dos anos 60 do século XX, nada tinha a ver com o que vejo, leio e ouço ser a contemporânea. O timbre era a graça, como fautora de camaradagem, amizade, efetiva integração dos caloiros na vida adulta e, além disso, o total respeito pelos neófitos.
Vivi algum tempo na República Baco, onde pontificava um rapaz acabado de formar em medicina, o Xico Mateus, dotado de um fácies hermético mas também de humor sempre pronto a ser disparado. Por exemplo, quando, sendo eu caloiro e pela primeira vez estive perante ele, na dita República, o informaram de que eu sabia tocar piano, ele indagou-me, muito sério , “Ó caloiro, é verdade que você toca piano?”, perante a minha orgulhosa afirmativa prontamente retorquiu, “Então veja lá se quer que eu lhe parta1 já uma tecla”. Claro que o dito foi causa de geral hilaridade.
O Xico Mateus também era poeta. Na parede da República estava gravada uma quadra belíssima, da autoria dele: “Mandei a saudade embora / lancei-a pela janela. / Mas vou busca-la lá fora / já tenho saudades dela.”
Naquele dia em que conheci o Belchior, este tinha sido mobilizado, juntamente com mais três ou quatro caloiros, para, no fim de almoço, irem à República distrair os doutores (a terminologia em itálico ou é conhecida ou não resiste à perspicácia que sei ser a de quem me lê).
Caloiros alinhados, o Xico tomou conta das operações, perguntando a cada um deles em que é que ele era versado (ter uma habilidade era uma grande vantagem para os caloiros; daí o orgulho com que respondi naquilo do piano).Eu toco viola, disse um, outro sabia assobiar e, chegando a vez do Belchior, este, com o seu já descrito ar, respondeu, “Eu sei representar!” e logo o Xico , “Então represente lá!”.
Aí se me revelou o Belchior; a mim e a todos. O Belchior como que se transfigurou: cresceu em altura, a expressão adquiriu um ar de gravidade, afastou os colegas mais próximos e, com voz bem timbrada, anuncia: “1º Ato: um homem está sozinho no palco a mastigar uma chiclete”: e, mão no bolso, anca levemente descaída para um dos lados, perna correspondente um nada fletida, em perfeita pose de malandro, começa a mastigar a imaginária chiclete. Após uns segundos diz, “Fim do primeiro ato. Cai o pano”. E logo o Mateus para o caloiro mais próximo do ator, “Caloiro, você é o pano: caia!” e o caloiro num pronto se desmoronou, ficando cosido ao solo.
De imediato o Belchior anuncia, “2º Ato: sobe o pano”, e o caloiro-pano nem precisando que lho ordenassem, imediata e eficazmente se levantou (de pronto foi registada a inteligência do caloiro. Prossegue o Belchior no centro do improvisado palco, “O homem continua a mastigar chiclete”; e a cena repete-se, incluindo a queda do pano e pos­terior ascensão dele ao anúncio do fim do 2º e início do 3º ato, em que a personagem, após uma breve mastigação, ela pró­pria se deixa cair pesadamente, olhos em branco, ficando imóvel uns breves instantes, após o que se levantou, com uma expressão prazenteira e de grande felicidade.
Alguns momentos de pesado silêncio, aguardando-se a se­quência, mas o Belchior, de modo inequívoco, assumiu expressão facial e corporal claramente demonstrativa de que a peça tinha terminado.
O Xico Mateus, com os olhos de todos os presente postos nele, alguns em evidente estado de an­siedade, quebra então o silêncio e inquire: “Ó caloiro, que raio2 de peça é essa?” e o Belchior, com ar maroto, piscando-lhe o olho, profere: “A Morte de um Chiclista!”
Risada geral, caloiros todos desmobilizados e convidados a partilhar do café e do digestivo a que os doutores se entregavam.
Além da minha com o Belchior, outras amizades ali nasceram.
Ao Belchior sei que, apesar de o conjugar no passado, de futuro terei muitas mais vezes presente; com saudade e um leve sorriso cúmplice.
    
Guimarães,
20 de julho de 2018
António Mota-Prego
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