Olha para o que ele diz, não para o que ele faz

Hoje, terça-feira dia 28, dia em que escrevo o presente artigo para o jornal, fortes chuvadas acompanhadas de es­tron­dosos trovões anunciam o final do Verão e a aproximação de um novo Outono.
Os incêndios, como vem sendo habitual nos últimos anos, continuaram, infelizmente, a ocupar im­portante espaço noticioso, apesar da forte campanha de sensibilização e mo­bilização de meios com vista à sua prevenção e combate.
Monchique significou, neste ano, a maior man­cha territorial ardida na Europa e foi ocasião para algumas patéticas declarações por parte do primeiro-ministro e do ministro da Admnistração Interna, tentando desviar a atenção da real incapacidade existente ainda para debelar a praga dos incêndios.
Na cena nacional, e depois de passada a doentia e sistemática pre­sença daquela per­sonalidade ligada ao fu­tebol do Sporting que tanto mal lhe tem feito e cujas atitudes constituem um péssimo exemplo para os mais vulneráveis, eis que, em finais de Julho, vem ao conhecimento público a história do mediático Ricardo Robles, militante do Bloco de Esquerda que com a sua eleição permitiu a Fernando Me­dina constituir maioria absoluta para o governo da Câmara da capital.
História já sobejamente conhecida e aparentemente sem qualquer tipo de ilegalidade ou de interesse público não fosse o caso de se tratar de uma intervenção no mercado imobiliário com todas as características que o mesmo Bloco de Esquerda tanto tem cri­ticado e denunciado. É, pois, no fundo, a falta de coerência entre aquilo que prega e aquilo que faz, confirmando o velho ditado que a sabedoria popular nos tem trazido ao longo dos séculos: ”Bem prega Frei Tomás, olha para o que ele diz e não para o que ele faz”.
Ainda na cena nacional, tam­bém o vídeo da men­sagem do presidente do Eurogrupo, Mário Cen­teno, felicitando o povo Grego pelo fim formal do terceiro resgate à Grécia, mereceu uma série de reações, algumas por parte de destacados militantes do próprio partido socialista como João Galamba que afirmou: ”ser um vídeo lamentável que apaga o desastre que foi o pro­grama de ajustamento grego e branqueia todo o comportamento das instituições europeias”, afirmação que evidencia, claramente, a contradição entre aquilo que o PS pregou quando o governo PSD/CDS com ajuda da troika (C.E/F.M.I./B.C.E.) equilibrou as contas do Estado português e aquilo que agora está a fazer no governo e na presidência do Eurogrupo.
A confirmar ainda o tal ditado “olha para o que ele diz e não para o que ele faz”, foi também o caso da artista de cinema Asia Argento, principal rosto do movimento “Me Too”, acusando o produtor cinematográfico Harvey Weinstein de a ter violado nos anos 90 e ver-se agora acusada pelo jovem actor Jimmy Bennet de o ter violado quando ele tinha 17 anos e a quem terá dado $380.000 para se manter calado.
Estes três casos simples ilustram bem a imensidão de contradições que se vêm observando ao longo dos tempos entre aquilo que se prega e aquilo que se faz.
Ainda hoje, na missa da manhã, e pela pena de São Mateus, ouvíamos as palavras duras de Jesus: “ai de vós escribas e fariseus hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato que por dentro estão cheios de rapina e intemperança. Fariseus cegos! Limpai primeiro o interior do copo e do prato para que também o exterior fique limpo”.
Por essa razão já Fran­­cisco de Assis reco­mendava a Gualter e a Zacarias por si enviados a Portugal em 1216: “... Mas sejam as vossas palavras acompanhadas de obras, porque neste caso mostra mais que a doutrina. Há-de ser tão santa e tão humilde vossa conversação que quem vos vir e ouvir em vós mesmos glorifique o vosso Eterno Padre. Anunciai com alegria a paz do Céu, da qual sois embaixadores…”.
Bom regresso ao trabalho para todos.
 
Guimarães, 28 de Agosto de 2018
António Monteiro de Castro

em Opinião

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