O Pipo

““Vê-se o pequeno lavrador que desceu dos montes para banhar as suas enfermidades. Traz um lenço na cabeça, por baixo do chapéu, atado ao queixo, amplas chinelas de couro cru, longo capote de cabeções.”
Ramalho Ortigão. As praias de Portugal: Guia do banhista e do viajante. 1876.
 
A Póvoa de Var­zim sempre foi, a exemplos de outros vimaranenses, a minha praia. Desde os nove meses – idade em que tenho a minha primeira fotografia na Póvoa – fui indo para lá todos os verões, ano após ano, de forma con­secutiva até que um dia a troquei, de forma impudente diga-se, por Esposende. No entanto a Póvoa está-me cravada no coração e mais ficou quando já no fim da minha adolescência tive o prazer de me tornar amigo de um notável conjunto de jovens poveiros - todos com um impecável gosto musical, o que nos uniu seriamente na altura porque a música é um assunto importante - e que condescenderam, não sem alguma relutância inicial, em fazer amizade com banhistas. Ainda hoje os conservo com particular gosto.
Foi com enorme surpresa que percebi que na praia da Póvoa já não existem as cordas e os pipos a elas ligadas que pontuavam, espa­çadamente, a praia da Póvoa de Varzim ao longo do seu enorme e rude areal.
Dizem-me que já há bastante tempo os pipos foram retirados. É provável que quem conhece a Póvoa há mais de vinte anos se lembre dessa estranha e útil geringonça, mas é igualmente provável que muita gente não a conhecesse. O assunto resolve-se para estes úl­timos, espero eu, com alguma facilidade: no areal existia uma estaca firmemente cravada na areia da qual saía uma grossa corda que culminava já em pleno mar presa a um pipo metálico (posteriormente de plástico) que flutuava no mar e cuja tendência para entrar pelo mar dentro fazia tensão na corda, obrigando-a a permanecer tensa e verticalizada num uso particularmente feliz e engenhoso das leis da física marítima.
Ou por aselhice minha ou por desinteresse (es­tranhamente) ge­neralizado pouco ou nada encontrei na internet sobre esta original en­genhoca. Por isso especulo que os pipos de­sapareceram por questões de segurança no meio de alguma cega normalização europeia, quando era precisamente essa garantia que, julgava eu, os pipos e as cordas asseguravam.
O mar da Póvoa não é para qualquer um. Habituado ao mar da Póvoa qualquer outra praia se me afigurou durante muitos anos de uma mansidão quase obscena. A bandeira vermelha numa qualquer praia que não a Póvoa sempre me deu vontade de rir. Não bastasse a fúria brava das suas ondas a Póvoa tinha uma particularidade especial, pois para lá da rebentação das ondas aparecia, de forma súbita, uma cova que nos tirava automaticamente o pé. Daí que para tomar banho de forma completa era preciso saber nadar. E nós, miúdos, aprendíamos entre tios e amigos, na maré vaza, a nadar, daí o estilo peculiar de natação que eu e outros banhistas pacientemente apuraram naquelas águas. Quando nos sentíamos já mais seguros no estilo sonhávamos ir ao pipo. E quando arranjei coragem para tal empreendimento o meu coração batia mais do que aquilo que o esforço ditava; na altura, como agora, não me dava jeito nenhum morrer e por isso o trajeto até ao pipo era feito paralelamente à corda. Isso dava-me uma segurança extraordinária pois sabia que se a coisa não corresse bem agarrar-me-ia àquela grossa corda de nylon e esperava que o cérebro se alinhasse com o resto do corpo. Ir ao pipo era uma grata vitória de criança – felizmente não vigiada – que se discutia o resto da manhã, o resto do dia, o resto do ano, como quem dobrasse, interiormente, o seu Cabo Bojador.
A corda que ligava ao pipo foi durante décadas – já não o é mais - um objeto de profunda democraticidade. Aquele mar, dizia-se, não era para todos, principalmente quando a maré se tornava alta e as ondas se enfureciam. Quem não sabia nadar participava na mesma do banho. As ondas batiam, puxavam, e os banhistas lá continuavam imóveis como mexilhões, agarrados com toda a força àquela corda que os prendia ao areal e à vida. Toda a gente se banhava, em fato de banho, ou saia, ou calças arregaçadas até ao joelho. Haveria naquela praia alguma coisa mais profundamente democrática – agora dir-se-ia inclusiva - do que a corda?
Lá se foram então os pipos e as cordas da Póvoa. Como coisa inútil que nunca foram. E ponho-me estranhamente, agora, a pensar se aquela corda não seria também útil nos assuntos que nos vão surgindo dia a dia na forma violenta de ondas. Porque tem de ser, porque temos de saber, porque temos de tomar posição. Os casos, as políticas, os futebóis que nos entram pelos olhos e pela moral adentro ... e a gente sem uma corda a que se agarrar. Pois sem corda só nos restam duas tristes alternativas: ou somos engolidos pela onda turbulenta dos factos ou somos devolvidos à crueza dos imensos areais destes dias.
 
Rui Vitor Costa

em Opinião

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