Cães no desemprego

““Um laço de 15000 anos gerou uma compreensão e um afeto muito profundo entre seres humanos e cães do que entre quaisquer outros animais. Em alguns casos, os cães mortos até eram enterrados de forma cerimonial, tal como os seres humanos.”
Yuval Noah Harari. Sapiens, de animais a deuses. 2011.
 
Há umas déca­das atrás a maior parte dos cães tinham uma função específica e utilitária na sua relação com as pessoas. Os mais populares, os cães de caça, eram muitas vezes tratados com especial desvelo pelos seus proprietários já que tinham dotes específicos: uns encurralavam a caça, outros detetavam as presas pela visão ou pelo faro, outros iam rapidamente buscar os animais abatidos, outros eram incrivelmente rápidos e ágeis. Lembro-me do porte elegante de um perdigueiro, branco e castanho, que nas épocas em que não trabalhava se deixava enlevar pela irrequietude das crianças sem sequer rosnar. Estava entre trabalhos e sabia ser em tempo sabático um admirável cão de companhia.
Outros eram cães de guarda que afastavam os atrevidos e que se atiravam às canelas dos larápios mais incautos. Os cães de guarda das casas em que era costume entrar e sair muita gente estavam acorrentados no comprimento certo para quem conhecia saber que podia passar e para intimidar outros que, com más intenções, não faziam ideia se aquela corrente metálica os protegeria de uma mordidela. Lembro-me do Chuchu em casa de um amigo meu que me tentou ferrar dezenas de vezes e ficava, esganado como sempre, a um palmo das minhas pernas quando eu penetrava em sua casa, pelas traseiras. E eu ficava essas dezenas de vezes com o coração aos saltos não fosse um dos elos alargar, ou eu alargar com a idade. Nunca confiando. E existiam os cães dos ceguinhos, pachorrentos e previdentes, sempre acautelando o seu dono como uma paciência e uma perspicácia assombrosas. E os cães da polícia, como hoje ainda existem, para dissuadir manifestações e encontrar droga em malas suspeitas. Inte­ligentíssimos e dis­ciplinados como a vida militar o exige.
O resto eram os cães vadios, que deambulavam pelas ruas com o particular critério de uma mão amiga lhe estender um pouco de pão ou um carinho e que as crianças adoptavam com um fervor que horrorizava as gravatas dos mais velhos quando uma das cadelas da matilha estava no cio.

Hoje já é raro apanhar esta magnífica espécie com funções atribuídas. São apenas, eufemisticamente, cães de companhia em T1 e T2 nos quais perdem indolentemente os instintos e as com­petências que os fizeram “o melhor amigo do homem” ao longo destes 15 milénios de fraterna parceria. Ou modelos fotográficos para as redes sociais. Daí a profusão de raças estranhíssimas que alimentam o negócio de quem quer ter o cão mais exótico, cruzados até à exaustão de uma duvidosa estética canina contemporânea. Daí a perda completa dos instintos que nós lhes apurámos ao longo do tempo, rejeitando aqueles que não nos serviam os propósitos e protegendo aqueles que o faziam. Perto de minha casa há uma quantidade enorme de cães de pátio e cães de varanda que ladram desesperadamente na sua falta de propósito. Há um deles, inclusivamente, que não sabe latir, nem sequer ganir, e chia desesperadamente ali­mentando, dia a dia, a minha perplexidade e a minha paciência. Os cães perderam propósito. São muitos e variados mas estão todos no desemprego funcional. Tristes e perdidos.
Mesmo assim os rafeiros ainda são os que mais se aproximam da sua finalidade enquanto espécie. Recordo um rafeiro que rondava as mesas do Largo da Misericórdia e que já há muito tempo não vejo. Sempre que passo por lá deito o olho a ver se o encontro, mas nada. Muitas das vezes o encontrei quando jantava na esplanada do largo e sempre admirei a sua elegância, a sua inteligência e a sua discrição. Parava a dois metros da mesa e olhava para nós sem fixar, só para dizer eu estou aqui. Se lhe dávamos algum pedaço de comida ele ia embora. Se não lhe dávamos ele percebia e desandava muito ciente de si mesmo e da sua dignidade de cão, sem aparente azedume. Nunca mais o vi. Deve ter-se fartado desta turistada de mastins, chihuahuas, huskys e rotwillers. E fez bem. Já chega de aturar esses pavoneantes sem função. Mais vale uma vida de cão que vida nenhuma, pensará o rafeiro.

em Opinião

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