A vertigem

 
“Não quero alcançar a imortalidade através do meu trabalho; quero alcançá-la não morrendo. Não quero viver no coração dos meus compatriotas; quero viver no meu apartamento.”
Woody Allen. The illustrated Woody Allen Reader. 1993.
 
Em boa hora um par de amigos ofereceu-me os livros de Yuval Noah Harari, um historiador israelita cujos livros são atualmente estrondosos (e merecidos) best-sellers. Harari fala sobre a evolução humana e muitas vezes “perde-se” numa mesma ideia que reformula ao longo dos seus livros, em estilo mas não em conteúdo. O escritor simplifica as ideias que nos pretende transmitir em torno de factos que marcaram a evolução humana. E, como sabemos, é bem mais difícil simplificar do que complicar.
Alguns factos por ele enfatizados chegam mesmo a ser perturbantes pela força numérica que os enforma o que colide com o clima de medo e de ódio que hoje se vive, ampliado pelas redes sociais e pela imprensa que não quer ficar atrás da paranoia coletiva em marcha.
Harari escreve sobre a história do homem enquanto espécie e muito em particular sobre os ganhos civilizacionais e sociais dos séculos XX e XXI, após guerras, aos quais não damos hoje valor nenhum, ou pura e simplesmente ignoramos. Refere Harari, por exemplo, que em 2012 o número de mortes violentas foi em todo o mundo foi de 620.000 (120.000 por guerras e 500.000 por criminalidade). A esse número contrapõem as 800.000 mortes, nesse mesmo ano, por suicídio. Ou seja, o suicídio mata hoje mais do que a guerra e a criminalidade juntas. Lembra-nos de onde viemos para percebermos quem somos. Refere massacre de S.Bartolomeu em França, em 1572, em que católicos chacinaram protestantes em maior número do que o império romano politeísta fez aos cristãos. Contrapõem a razia da Peste Negra na Europa do séc.XIV que matou um terço da população europeia com a rapidez com que controlámos hoje as epidemias: o vírus Ébola foi considerado alarmante em setembro de 2014 e em janeiro de 2015 já estava controlado, e passado um ano foi erradicado. Controlamos hoje a desgraça com alguma rapidez, com base no conhecimento científico das nossa sociedades.
Mas a tendência humana para a desgraça nunca vê o copo meio cheio, vê-o sempre meio vazio! E a minha Europa, a nossa Europa, parece querer trilhar o mesmo e perigoso caminho que outros fora do nosso continente vão fazendo. Na nossa Europa ainda há poucas décadas morreram mais de 80 milhões de pessoas em duas guerras estúpidas movidas por ódios e instrumentalizadas por uma legião de sargentos anónimos que meteram a mão na massa para as operacionalizar. Já há mais de 70 anos que nada de terrivelmente mau nos acontece e não damos, infelizmente, nenhum valor a isso. A democracia ocidental foi fundamental no avanço civilizacional que temos nas últimas décadas, ao nível diplomático, ao nível político, ao nível científico, ao nível das liberdades individuais, ao nível da solidariedade entre comunidades e povos. No entanto começa (novamente) agora a ter muita importância a nossa cor de pele, as nossas origens, a nossa religião, a nossa nacionalidade, a nossa intolerância à diferença. É só olhar com atenção para as redes sociais para perceber a legião de sargentos que se agiganta à espera de um messias político como Trump ou de uma causa verdadeiramente fraturante como o Brexit o foi há bem pouco. É a vitória da estupidez pela via democrática, a qual só se deve combater democraticamente. Quando o rasputine do Steve Bannon é recebido em Itália como grande ideólogo de uma nova ordem mundial, alguma coisa está profundamente errada num país de gente boa que também há algumas décadas atrás se deixou dolorosamente embarcar no canto de sereia. Outra vez? Não há livros de história disponíveis para se lerem em vez das radicais bocas nas redes sociais? E que tal não se acreditar em movimentos que mais não são que hordas de facho em punho à procura de exterminarem o monstro do Dr. Frankenstein no lendário filme de James Whale?
Há quem diga que a angústia da vertigem reflete a tendência pessoal ao suicídio. Eu sou atreito a vertigens, apesar de não vislumbrar em mim tendências suicidárias. No entanto reconheço esta insatisfação tão humana de o que nos faz bem também nos entedia profundamente. Os brócolos cozidos, uma democracia que nos dá um voto para escolhermos quem nos governa, um continente sem guerra global há mais de 70 anos, que maçada! Tudo muito chato para os dias que correm.
Compreendo e até (vá lá) aceito, desde que não me levem ao fundo. Já não tenho paciência nem idade. Há cem anos atrás estaria estatisticamente morto, a esperança de vida estava nos 40! Hoje não. Restam-me estatisticamente vinte e seis anos de vida e não estou para aturar estas merdas, este ódio que se começa a tornar crónico. Ora mais um cigarro para sabotar as estatísticas. Bfffffffff.
 
Rui Vítor Costa

em Opinião

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