Juro

Dois momentosos assuntos são o tema para esta crónica e, evidentemente, para o juramento que, proferido, lhe dá o título;
Um, touradas
Dois, pedreira de Borba
Quanto ao primeiro, a todos vós, caros leitores, peço licença para me citar a mim mesmo, não sem que lhes preste a seguinte explicação:
Tenho instalado no meu telemóvel o Facebook (abreviadamente o Face), não porque costume nele publicar escritos ou fotos, mas para ir sabendo de muitos amigos e conhecidos dos quais, não fora aquele instrumento de comunicação dita social, teria perdido completamente o contacto, ou mesmo o rasto.
Ou seja, vou frequentando a selva mas só em raríssimos e excecionais casos nela lanço qualquer semente. Isto sem esquecer que essa coisa de lançar semente, como alegoricamente digo, apenas tem a ver com o modo civilizado (perigosa palavra esta…) de uso do Face, pois que, tal como em muitas zonas da Índia, onde os locais utilizam a natureza por tradicional, e para eles civilizacional, recusa de uso de instalações sanitárias para depósito do adubo orgânico que a mesma natureza os leva a produzir, sei que existe uma não despicienda quantidade de humanos que utilizam o Facebook para depósito de material identicamente repulsivo, apenas com diferença quanto à materialidade e à origem da dejeção, que se encontra na qualidade das mentes e quantidade de educação dos usuários a que agora aludo.
Peço benevolência para a extensão e rendilhado da frase que acabo de produzir, fruto do cuidado que me impus para dizer, mais do que o que disse, o que quis dizer e os meus pacientes ledores, mesmo sem necessidade do uso de toda a sua capacidade interpretativa, perceberam bem o que foi.
Isto posto, vamos às touradas e à referida auto citação.
Aos 08 do corrente, no lado asseado do Face, Manuel Alegre pronunciou-se acerca da matéria do IVA a aplicar ao custo dos espetáculos tauromáquicos, que considerou incluídos na lusa civilização, o que me impeliu a uma das minhas raríssimas intervenções naquela rede social, dizendo o seguinte:
“D. Maria II proibiu as touradas. Na Catalunha, estão  proibidas.
“Cortam as defesas (vulgarmente conhecidos por cornos) aos touros, ou então cobrem-nos para que eles não firam o adversário, mas ao adversário são permitidas armas que realmente. ferem e fazem sofrer o touro. A lide é uma arte? Então aplique-se no dorso do touro algo que permita que as farpas o não firam, e a lide não perderá, por isso, a arte que nela veem.”
Desconhecia, ao escrever o que transcrevi, o que vem noticiado na última edição do semanário EXPRESSO, ou seja, que está anunciado vir a ser feita, no Parlamento, a proposta de se colocar no dorso do touro uma peça de velcro, na qual serão espetadas as farpas sem atingirem o animal, medida que, segundo o dito semanário, está já adotada no americano estado da Califórnia, na Grécia e no Canadá.
Juro que desconhecia tal facto ao escrever o que acima citei de mim próprio e declaro, com idêntica solenidade, que de há muito me surgiu a ideia, como modo de adaptar a tauromaquia (à portuguesa, que da espanhola tratam os espanhóis) à evolução civilizacional, preservando a existência de toda a atividade ligada à criação dos touros de lide, e eliminando o sofrimento infligido ao animal, fundamento primeiro da oposição à existência de corridas de toiros e causa do visível declínio desse espetáculo.
Verdade é que fiquei satisfeito pela proposta, exatamente do mesmo modo que ficaria se não tivesse ficado ciente da falta de originalidade da minha ideia sobre a matéria, e mais ainda por, também segundo o EXPRESSO, a proposta ter merecido concordância de princípio de Manuel Alegre e a do deputado do PAN, bem como a tolerância do presidente da associação “Protoiro”, que pretende representar “todos os intervenientes da festa de touros em Portugal”, segundo o qual “sem sangrar o comportamento do animal altera-se”, mas a proposta referida será um modo aceitável de “a tourada se adaptar a uma nova realidade”.
Porém, de acordo com o JORNAL DE NOTÍCIAS de domingo, o dito presidente da “Protoiro” se mostrou indignado com a posição de tolerância que lhe fora imputada, ou seja, e agora o modo de dizer é meu, mantendo que tourada sem ferros espetados no dorso do animal não é cultura.
Ou seja, sem sangue e sofrimento do bovídeo o espetáculo não tem graça!
Quanto ao desastre de Borba, para mim não merece muita filosofia quanto a quem seja o primeiro responsável pela tragédia.
Todavia constato que na comunicação social o eco e o comentário faz-se sobre se a responsabilidade pelo sucedido é do Estado, ou da município de Borba, ou das direções gerais dos ministérios que superintendem no licenciamento e na inspeção das pedreiras, ou de qualquer outra das entidades públicas que têm ou tiveram a ver com o ponto a que chegou a pedreira em que decorreu o fatídico desmoronamento de terras.
Para responsabilizar uma, ou algumas dessas entidades, viu-se, leu-se e ouviu-se, à exaustão, a afirmação do proprietário de uma das pedreiras que entalaram a estrada no local em que ela ruiu, a dizer que ele e o outros empresários de extração de pedra com pedreiras contíguas à estrada, pediram mais que uma vez à Câmara Municipal de Borba que interditasse a estrada, o que atira para culpa da edilidade no acontecido.
Afirmou, ainda, o mesmo proprietário que isso até permitiria adequar a extração de pedra a essa “nova realidade”, como terá dito o outro acima citado, ou seja, desativada a estrada, dividir entre os vários extratores de pedra a ela ribeirinhos a nova capacidade de extração de mais pedra, com os evidentes benefícios próprios…
Juro que, se não aceito a omissão por parte das entidades, sejam elas quais forem, que deviam ter impedido que se chegasse à situação a que se chegou, não menos aceito que os industriais da extração de pedra tenham levado esta mesmo até à berma da via, provocando eles a situação de evidente perigo tão conscientemente quanto vêm agora dizer que chamaram a atenção para ele. É o que portuguesmente se costuma chamar de “fazer o mal e a caramunha”
Juro que não compreendo o silêncio da Comunicação Social, assim como dos órgãos do Estado, a começar pelo Presidente da República, sobre a responsabilidade dos industriais que, infringindo a lei e os mais elementares deveres de prudência, antes agindo criminosamente, repito, criminosamente, contra as regras legais e o bom senso, foram, indiferentes ao perigo que criaram, os primeiros e principais causadores da derrocada, como não me sentirei bem com a Pátria se esta, para além da devida reparação a quem a ela tem direito, não punir severamente os autores do crime. 
 
Guimarães, 26 de abril de 2018
António Mota-Prego
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em Opinião

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