O Natal

Mas mais chocante ainda é assistir à hipocrisia de alguns fariseus dos tempos de hoje, que, vivendo nas sociedades ocidentais de forma egoísta, em riqueza e abundância por vezes obscenas, esquecem os pobres, os famintos, os doentes, os perseguidos, os injustiçados e os explorados de outras regiões do globo que procurando, desesperadamente, encontrar condições para uma vida digna, acabam, muitas vezes, sepultados nos mares ou entalados contra muros.
 
Terminado o ano litúrgico com a celebração da solenidade de Cristo Rei no seu último domingo, iniciou-se o novo ano com o Tempo do Advento, período especial de preparação para a celebração do nascimento de Jesus.
Ao longo destas semanas do Advento têm predominado, nas leituras das missas diárias, os textos do profeta Isaías, anunciando a vinda do Salvador: “Preparai no deserto o caminho do Senhor. Abri na estepe uma estrada para o nosso Deus. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas. Então se manifestará a glória do Senhor e todo homem verá a sua magnificência porque a boca do Senhor falou”(Is40,1-11).
O nascimento de Jesus, acontecimento anunciado pelos profetas muitos séculos antes do seu nascimento, constitui a expressão do amor infinito de Deus pela humanidade que, vendo a insensibilidade do homem à sua palavra, proferida pela boca dos Patriarcas primeiro, e pela dos Profetas depois, enviou o seu próprio Filho, verdadeira Luz do mundo, para iluminar os caminhos da Salvação.
Por ter seu foco na Família de Nazaré - Jesus, José e Maria, a Sagrada Família, modelo e referência para muitas famílias cristãs - o Natal constitui a Festa da Família por excelência que chega a provocar deslocações de milhões de pessoas em percursos, por vezes, de milhares de quilómetros.
Nos tempos actuais, porém, com recurso a elaboradíssimas e invisíveis técnicas de marketing, tem esta data sido aproveitada com vista à promoção e alimentação de um consumismo desmesurado, cego e devorador, em que crianças e adultos, tendo já praticamente tudo, acabam por ficar impossibilitadas de sentir a felicidade concedida aos simples, que nada têm.
São as falsas luzes deste mundo que, suportadas pelo relativismo, alumiam os caminhos do egoísmo, do consumismo, da intolerância, e que constituem verdadeiras grilhetas que o prendem aos caminhos da destruição.
Quão chocante é, nesta quadra natalícia, entrar em qualquer espaço comercial e ver as pessoas alienadas, a esbarrarem-se umas contra as outras, na procura e compra de tudo quanto vêem?
Como tudo isto é contrastante com a forma pobre, simples, modesta e humilde como nasceu Jesus, numa gruta de pastores em Belém!
Os nobres sentimentos do “amor ao próximo”, habituais nesta data, parecem ser ignorados e, em muitos casos, profundamente adulterados e até mesmo substituídos por falsas manifestações de solidariedade, elas mesmo, portadoras de doentias vaidades mundanas.
Mas mais chocante ainda é assistir à hipocrisia de alguns fariseus dos tempos de hoje, que, vivendo nas sociedades ocidentais de forma egoísta, em riqueza e abundância por vezes obscenas, esquecem os pobres, os famintos, os doentes, os perseguidos, os injustiçados e os explorados de outras regiões do globo que procurando, desesperadamente, encontrar condições para uma vida digna, acabam, muitas vezes, sepultados nos mares ou entalados contra muros.
A principal mensagem do Natal continua a ser a Paz e o Amor ao próximo. Não é possível estabelecer a Paz sem praticar a justiça. Praticar a justiça é conceder a cada um aquilo a que ele tem direito.
O “Outro”, nunca poderá ser a nossa perdição. Poderá ser, isso sim, uma importante razão para a nossa salvação e para a construção de um mundo melhor.
Votos de Santo Natal e de um Bom Ano Novo para todos.
Guimarães, 18 de Janeiro de 2018
António Monteiro de Castro

em Opinião

Imprimir