Desejar o céu no Natal

Vi há dias, lado a lado, vincando bem a diferença entre o que foi e o que passou a ser, duas fotos da parte final da margem direita do lado norte da rua de Santo António; como foi e como, há cinco ou seis décadas passou a ser.
Na mais antiga vi a minha me ninice e juventude incipiente e, na outra, o resto do meu tempo de vida até hoje.
Criado que fui na margem esquerda da dita rua, no nº 145 que é umas três ou quatro casas abaixo do prédio onde está hoje instalada a Associação dos Reformados, lembro-me bem do outro lado da rua tal como a foto o documenta, com os seus prédio de antanho, que todos frequentei.
Mesmo em frente à “minha” casa era uma outra, enorme, de rés-do-chão e três pisos, ocupado aquele pelo escritório de um dos, ao tempo, pouquíssimos advogados de Guimarães, que não passariam de meia dúzia, sendo todo o mais edifício morada da franzina e simpatiquíssima proprietária, Glória Rocha dos Santos, para mim a D. Glorinha, que, entre os meus quatro e nove anos frequentemente me convidava para lhe aliviar a solidão do almoço, pois além dela no casarão apenas residia a empregada, Gracinda se a memória me não trai, que recordo anafada e bem disposta, autora de espantosas canjas de galinha, daquelas antigas, com ovos dos que a bicha ainda trazia em gestação, petisco para que a D. Glorinha nunca me faltava com o seu convite, transmitido às minhas tias pela Gracinda – Era para ver se o Toninho podia vir almoçar com a Srª D. Glória – o que fazia um dos meus regalos de menino.
Seguia-se o palacete de Minotes, altíssimo, de severa fachada em pedra, cinco pisos de altura, que albergava os serviços telefónicos de então, sob a direção de dois técnicos que residiam no último andar do palacete, um dos quais pai dos meu primeiro amigo, de que já aqui falei e, por arrasto, do segundo, o irmão único e mais novo daquele. Também por arrasto, das segunda e terceira minhas amigas – já tinha havido uma primeira – que eram as filhas do outro técnico.
Foram essas amizades que me levaram a frequentar o edifício, não só a parte residencial mas igualmente os aposentos técnicos, salas enormes, recheados de imensa maquinaria que me deslumbrava, tanto pelo tamanho como pelos permanentes rangidos, significativos das chamadas telefónicas que se encarregava de distribuir.
Vinha depois o edifício dos serviços postais, onde aos sábados eu, menino de tamanho abaixo do parapeito do balcão, ia ao recado de levantar a correspondência que porventura houvesse para o nº 145, pois ao sábado tudo funcionava, menos o serviço de distribuição postal domiciliária.
Finalmente a mercearia e habitação do Sr Arnaldo, de cujo filho, o Arnaldinho, me tornei também companheiro de brincadeiras, das quais a principal era o fazermo-nos transportar, à vez reciprocamente, num carinho de mão, com rodados de pneu, próprio para transporte dos sacos de cereais e tubérculos, respetiva e especialmente feijão e batatas. Ora um ora outro, a empurrar ou a ser transportado, percorríamos em grande correria a porção de passeio entre a esquina, onde se situava a mercearia, e a casa da D. Glorinha, que a maior distância não éramos autorizados
Tudo isto a propósito da foto mais antiga.
Dirigindo o olhar uns milímetros para a direita, depara-se-me a foto do que agora está no lugar do que estava, o tremendo edifício que foi dos correios, obra estadonovista cuja arquitetura foi imposta, ou pelo menos assim parece, de modo o mais possível desconforme com as caraterísticas do local.
Curiosamente, não recordo o período em que foi sendo feita a malfeitoria; recordo sim que, tal como aconteceu com as fotos de que falo, de repente olhei para o sítio e o paquiderme já lá estava.
De tão desajustado que era, deixou de servir para o que foi construído e nenhum outro destino lhe foi encontrado até agora.
Vem tudo isto que, desde o início, venho escrevendo, a propósito da notícia acabada de ler nas páginas deste semanário, segundo a qual a coisa foi, com exceção de uma pequena porção, vendida a quem, pelo que li, também não sabe ainda que destino dar-lhe.
Em tempos de Natal, em que a ternura de outrora se encontra largamente contaminada pelo consumismo dos tempos que correm, imagino o empresário adquirente do imóvel a fazer dele, pela sua grandiosidade e solidez, um centro comercial ou um parque de estacionamento.
Isto é o que imagino; mas na verdade o que eu desejaria, porque, no Natal, desejar o Céu não é uma excentricidade, é que o monstro desse lugar a algo que me restituísse paisagem condizente com a que, na verdura da vida, ali foi a que se me oferecia.
A todos os meus leitores e, de um modo geral sem qualquer exceção, a todos os meus concidadãos, desejo um Natal repleto de alegria, e que o ano de 2019 lhes traga as maiores venturas.

Guimarães,
21 de dezembro de 2018
António Mota-Prego
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em Opinião

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