Interdito a menores de 18 anos

“O observador em breve conhecia cada traço e cada pose desse corpo tão livre e relevantemente retratado, saudava com alegria sempre renovada cada traço de beleza que lhe era familiar e a sua veneração, aliada a uma sensualidade terna, não tinha fim.”
Thomas Mann. Morte em Veneza. 1912.
Quando eu era miúdo a classificação dos filmes tinha, basicamente, três barreiras etárias: os seis anos, os treze e os dezoito: No entanto as duas últimas categorias etárias dividiam-se em “não aconselhável” e no forte “interdito a menores de...”.
A luta para um adolescente de 15 ou 16 anos para ver filmes “atrevidos” era tremenda e com alguma sorte, dependia do porteiro, podia entrar-se para os “não aconselháveis”, sistematicamente comédias marotas italianas sem qualquer interesse ... mas que preenchiam alguma curiosidade adolescente.
No entanto eu tinha amigos que desenvolveram barba, bigode e pêlos no peito de forma muito precoce. De tal forma assim o era que entravam impantes nos “interditos” apesar de terem 3 anos a menos. E gozavam com jactância esse estatuto. Nasceram na “altura certa”. Hoje, certamente, sofreriam o calvário de serem minuciosamente revistados nos aeroportos ocidentais pois já na altura – e disso eles não sabiam - se assemelhavam a terroristas islâmicos no século XXI. O Gaspar era um deles.
Contudo muito cedo me apercebi que, mesmo no cinema, o explícito ensinava muito menos que o simulado, pelo “simples” facto da cabeça ser afinal o centro de todo o prazer. A Jessica Lange ensinou-me mais sobre o prazer feminino que a Lovelace, ou o William Hurt sempre foi em mim mais eficaz que o abonado John Holmes, “ator” imortalizado pelo Paul Thomas Anderson em Boogie Nights (1997).
A paisagem do que se vê no cinema mudou radicalmente. A violência nos filmes atingiu níveis tão inimagináveis que ficou tudo sem reação aparente. A vulgarização do sexo é tão comum que já é de mau tom fazer um filme ou uma série que não tenha, pelo menos, um homossexual, ou um transexual. Penso que é mesmo obrigatório que assim seja. A pornografia pura e dura está a um clique dos infantes que a esquizofrenia dos pais toma (ainda) como bebés.
Vem isto a propósito da minha mais recente e estimável indignação: gravei do canal aMC o filme Rio Vermelho de Howard Hawks, um western de 1948.
Rio Vermelho segue a tradição dos grandes westerns de John Ford e tem a particularidade de juntar John Wayne com Montgomery Clift um ator de teatro que faz neste filme a sua estreia em cinema. O filme tem a ver com a colonização do Oeste americano, com a determinação dos homens que a fazem e, inevitavelmente, com a luta com os índios. Já a mais de meio do filme reparo que o canal que o exibiu tem a indicação “+16”. Dezasseis anos?
Como o filme não tem sexo tal classificação só pode advir da violência. Que é nenhuma pelos padrões atuais, mas o filme foi classificado nos dias de hoje como “+16”! Uns índios a serem atirados dos cavalos pelo impacto das balas, tudo muito teatral, uma rapariga a ser trespassada no ombro por uma seta comanche e pouco mais. Foi fácil perceber que a questão da classificação foi política quando não tinha que o ser, a não ser que a Comissão de Classificação tenha levado à letra o facto de filmes poderem ser classificados como “+16” se contiverem cenas em que “ocorra frequentemente o consumo de álcool e tabaco”. O que acontece, mas bolas ... é um filme de cowboys e não é crível que eles bebessem iogurte líquido e mastigassem pastilhas elásticas enquanto se aventuravam pelo Texas adentro.
O Segredo de Brokeback Mountain está classificado como “+12” (o que me parece bem) mas o Rio Vermelho paga o imposto etário e étnico do politicamente correto, certamente porque os elementos da Comissão que o classificaram nem sequer sabiam que o filme tem um lastro interessante de uma tensão fora dos ecrãs entre John Wayne e Montgmery Clift - e que se transporta admiravelmente para os personagens que eles interpretam - pelo facto de Wayne desdenhar da (secreta) homossexualidade de Clift. Uma estupidez hoje, e uma estupidez na altura: um preconceito inadmissível sobre um ator absolutamente magnífico como Clift o foi, ou sobre qualquer outro ser humano que assim queira viver a sua sexualidade.
Fiquei (apesar de indignado) com uma inveja tremenda dos elementos da Comissão de Classificação que é nomeada por três anos (renováveis!) pelo Ministério da Cultura. São quinze mais o inspetor-geral. Que emprego fabuloso! A classificação de cada filme é feita apenas por três elementos para dar hipótese a uma classificação célere, suponho. Entrar pela manhã e ver de borla e antes de toda a gente o último do Xavier Dolan, à tarde um Almodóvar e um filme com a Marion Cotillard. Que vida a destes senhores e senhoras. Ainda falam do Manuel Pinho...
Do nome deles não se encontra rasto na internet que tudo tem. Posso aceder com facilidade ao mais ultrajante dos filmes mas não consigo saber quem são os membros da Comissão de Classificação. Lambões.
 
Rui Vítor Costa

em Opinião

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