Reflexões que Guimarães tece

Um dos grandes problemas das cidades antigas é que não foram programadas para veículos automóveis ligeiros e, muito menos, para os pesados. Na evidência de que os seus arruamentos, mormente para os segundos, não apresentam condições físicas de sua circulação. Situação que se complica com o estacionamento; e muitíssimo. E se a isto juntarmos a individualização desse meio de transporte, e um seu acesso a ela que se pode afirmar de quase universal, o pandemónio está gerado. Retrato este que, por patente, não necessita de uma qualquer demonstração, porque é o do nosso quotidiano.
Acresce que a vitalidade urbana, ou a sua revitalização ou tentativa, concentrando (ainda que em momentos específicos ou em determinadas horas) veículos na urbe ou em parte dela, cria problemas de assaz difícil solução; com sequelas que, indo de um ponto de vista de qualidade de vida, se estendem até ao económico.
Tendo em consideração estas generalidades e baixando ao nosso burgo, o Plano Geral de Urbanização da cidade de Guimarães, de 1982, consignava uma série de parques de estacionamento localizados fora do perímetro das antigas muralhas (considerado este derradeiro como fechado a norte pelas ruas Agostinho Barbosa, Serpa Pinto e Jardim do Carmo; numa sorte de regresso à antiga Vila baixa). Para tal ponderou-se que as distâncias deste de Norte a Sul, maior e de nascente e poente, poderiam ser acessíveis pedonalmente dos parques que ficassem mais próximos dos pontos de destino que se desejassem atingir. Sem que isso impusesse que não pudessem circular nele, nesse perímetro, veículos automóveis; ainda que sujeitos a alguma restrição e, sobretudo, dependentes de um futuro estudo e respectivo plano de mobilidade. E com aparcamentos perfeitamente delimitados em função, também, dos respectivos e legítimos interesses locais a atentar.
Por outro lado, fora de portas, previa-se nele uma ligação externa da EN 101 à 206, e 310, (Nespereira/Silvares) e uma circular interna (que parcialmente foi executada, ainda que numa perspectiva não coincidente integralmente com o previsto, sobretudo nos perfis e, de alguma maneira, nas cotas de nível e nas infraestruturas preconizadas para as resolver), como formas de afastar o trânsito de atravessamento da cidade. Sendo que esta última poderia servir igualmente para facilitar acessos entre partes da cidade.
Anos depois apareceu a auto-estrada. Primeiro a A7 e a seguir a A11. E já depois de ter sido iniciado o processo para uma primitiva implantação condigna da porta de Guimarães, em Silvares (com outra configuração e muito maior ocupação de terrenos do que aquele arremedo de saída que, posteriormente, lá foi levado a cabo), o traçado da A11 que contornaria a urbe pelo norte, foi deslocado para sul, numa nova solução que, aparentemente, não teve em conta os reais interesses locais e do próprio vale do Ave.
A tudo isto haverá ainda que aditar a explosão da construção habitacional (a esmo, disseminada e, nalguns lados, com alguma concentração em pequenos núcleos) a que se assistiu a partir dos finais da década de setenta. Opções que, em consequência, empurraram os munícipes para fora da malha urbana e originaram a criação de uma rede viária desordenada que se pode dizer que se estende por todo o concelho; e as mais das vezes incompatível com as necessidades do parco trânsito local, ou aquele que aí venha a ser o desejável. A, do mesmo modo, inviabilizar uma rede de transportes públicos devidamente eficiente e preocupada em bem servir os munícipes nas suas reais carências.
É pois, será, esta a paisagem de fundo com que actualmente e, grosso modo, o município se depara quanto à mobilidade viária.
Num agora momento em que já encerrou a discussão pública do  Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) concelhio, quer se crer que documento tão profusamente elaborado foi o resultado de uma ampla audição prévia da sociedade civil, mesmo da população, para assim se auscultarem os sentires dos que vão ser a ele sujeitos; isto, como o impõe a mais elementar praxis democrática participativa.
Entretanto, nesse PMUS e tirando as modas do pedonal e do ciclável, que, como deve ser facilmente apreensível, não resolverão o algo caótico estado presente do tráfego viário quotidiano, adversamente dos outros dois antes nomeados, o proposto parece manifestamente pouco ambicioso. Ou seja, mais uma vez não se apresentam soluções de fundo para uma verdadeira melhoria da qualidade de vida e desenvolvimento (social e económico) do concelho, ficando-se por os sempre paninhos quentes, ou, por outra falas, os mais ou menos remédios atamancados.
Levando a crer que, por estes lados e de há muito para cá, este método de vestir ruim pano parece instituído como costume a ser seguido.
Ora o que esperava é que, mesmo que não passasse de uma visão futura, de um planeamento a médio/longo prazo, a solução viária delineável viesse a estar vertida no documento. Só que não está! E assim o problema mais uma vez fica adiado para umas calendas inomináveis.
Fados; e com os votos de que, neste começo de ano, eles, nele, nos sejam a todos de dias fastos.
Fundevila,
2 de Janeiro de 2019
 

em Opinião

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