Alegoricamente falando

Há duas ou três semanas no semanário “EXPRESSO”, o cartoonista António publicou o que considero um dos seus mais assertivos cartoons.
Sendo o cartoon um desenho humorístico, é especial a minha predileção por aqueles que, não necessitando de qualquer palavra, chamam a atenção para acontecimentos não só importantes como merecedores de reflexão, e maior ainda o meu apreço pelos que são capazes de, com o inerente humor e sem necessidade do complemento de uma palavra que seja, levar bem longe essa reflexão e coloca-la num patamar bem acima da vulgaridade. Reflexão normalmente silenciosa, condizente com a desnecessidade de palavras no desenho, como se a simples observação deste, catapultasse instantaneamente o pensamento do observador para as causas, implicações e consequências da situação ou acontecimento a que o cartoon é dedicado.
António é o nome com que o artista a que me refiro usa na sua arte, e é um dos mais notórios, conhecidos e reconhecidos cartoonistas, não me permitindo, porém, lembrá-lo e elogiá-lo sem referir um outro artista da arte em causa, António Jorge Gonçalves, que, até há cerca de um ano, no suplemento “INIMIGO PÚBLICO”, das sextas-feiras do jornal “PÚBLICO”, frequentemente assinou desenhos de uma tal simplicidade estética, oportunidade editorial e humor inteligente, que me deliciaram e nos quais vi, condensado em uma só imagem, um verdadeiro tratado sobre a matéria versada, normalmente de natureza política, sem que o artista, faço questão de realçar, privilegiasse, como alvo do seu humor, não raro mordaz, qualquer espetro político.
Voltemos, ao tal cartoon que ao início refiro.
Nele se vê, magistralmente caricaturado, o Sr Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros, devidamente equipado com fato de combate a incêndios, empunhando uma mangueira.
O rosto do caricaturado apresentava-se com rosto congestionado pelo que tanto poderia ser um ataque de ferocidade, como um transe de gozo, como pelas duas coisas ao mesmo tempo.
À expressão de Marta Soares correspondia uma boca aberta, pela qual jorrava, como se de um dragão se tratasse, grosso e extenso jato de fogo com que incendiava tudo o que estava à sua frente, que não se via o que fosse, mas claramente se depreendia estar a ser incendiado.
Simultaneamente Marta Soares empunhava uma mangueira a debitar volumoso caudal de água, que só não apagava o fogo ateado por quem a empunhava porque, magistralmente resultava do cartoon, o seu personagem como que construiu um circulo vicioso em que a cada parcela de incêndio extinto sucedia o seu reavivamento.
Ora, no que à agitação política e laboral que se tem verificado, algo semelhante se passa.
Repare-se que a agitação social não provém dos setores mais modestos da população, que viram melhoradas as suas condições de vida, mas sim de classes social e economicamente bem, ou razoavelmente acima da média.
A maior parte das greves em curso, ou anunciadas, não têm merecido, da parte da população, o grau de compreensão que a muitas outras tem sido concedida. Pelo contrário, sente-se bem a censura que lhes é votada pelo comum dos cidadãos. Nem recordo outras em que tão generalizadamente isso se notasse.
Diz-se que o Governo “decretou”, sem razões para tal, o fim da austeridade, e criou expectativas a que não podia corresponder, o que, admitindo que fosse verdade – o que só através de demagogia incendiária se tenta demonstrar sê-lo – não devia ser afirmado sem a suficientemente visível crítica aos excessos de reação por parte dos que se afirmam iludidos.
Ora, a verdade é que para além de as reivindicações, ou grande parte delas, irem muito para lá do que seria razoável atento o patamar de melhorias anunciadas, o que vemos é aqueles que, jamais conformados com a solução, absolutamente democrática, de governo encontrada, tudo fizeram para a denegrir e dinamitar, profetizando tremendas desgraças económicas e financeiras e a violação dos compromissos a nível europeu, expressa ou subliminarmente apoiarem movimentações com vista à obtenção de regalias que bem sabem serem, elas sim se satisfeitas, o caminho certo para o desrespeito pelas regras e compromissos europeus, e para a inexistência de qualquer reserva que, dentro de limites toleráveis, abrigue os portugueses de eventual desaceleração económica internacional.
  São esses os mesmos que, apologistas de uma sociedade desequilibrada a favor dos grandes interesses privados, com especial atualidade no setor da saúde e no setor financeiro, se queixam da carga fiscal, mas não referem, no que à finança respeita, os milhares de milhões de euros cobrados em impostos precisamente para atalhar à péssima e, como é público, em vários casos criminosa gestão em vários bancos; e no que toca à saúde, os milhões de euros que empresas privadas de saúde cobraram usurariamente, sendo porque lhes é exigido o reembolso do que ilegal ou ilegitimamente cobraram, e porque querem que assim possa continuar a ser, que os vemos proferir ameaças de denúncia de contratos com a ADSE.
Apoiam, expressa ou subliminarmente as greves dos enfermeiros, mas vituperam o encargo que como portugueses teria de lhes ser reclamado, e sempre teria de ser através de impostos, para satisfação de reivindicações exorbitantes, atento o nível de vida em Portugal, o que acontece depois de os reivindicantes já terem visto satisfeitas as únicas pretensões que estiveram na origem do início das greves.
Isto, caros leitores, está tudo ligado: ano de eleições, frustrações não resolvidas, ideologia de sociedade caridosa em vez e sociedade solidária, maldizer congénito – dou o exemplo da recente remodelação ministerial, em que foram substituídos ministros candidatos ao Parlamento Europeu e, se antes havia quem dissesse que os seus cargos estariam já a ser utilizados para propaganda partidária, esses mesmos dizem agora que a substituição deles só traz malefícios, por falta de tempo dos novos governantes para levarem por diante as políticas já delineadas, o que é pouco menos do que delirante, por razões que são fáceis de explicar e não deixarei de enunciar a quem tal peça.
Há quem pinte a situação portuguesa como uma meda de palha seca prontinha para arder à mais pequena faísca, fazendo-o lançando palavras incendiárias na direção dela, encobertos pela manifestação, em mansas palavras, de piedosos votos de que a fogueira se não ateie.
Cartoons são alegorias.
Volto ao cartoon do António, do bombeiro incendiário ou do incendiário bombeiro, a ordem dos fatores pouco importa
Cartoon de tanta qualidade, que vai muito para além de Marta Soares, cujas atitudes evocam mais o incendiário que o bombeiro, pois pode aplicar-se a todos aqueles que, expressando alma de bombeiros, na realidade o que desejariam era um bom incêndio.
Tudo alegoricamente falando, claro!
 
Guimarães, 19 defevereiro de 2019
António Mota-Prego
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em Opinião

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