Sentenças

“Quando deixamos de nos espantar, é que passamos a velhos.”
António Lobo Antunes. Conferência Escritores no Palácio de Belém. 2018.
Ao longo dos tempos, diferentes povos organizaram-se em torno dos seus membros mais velhos, os anciãos da tribo, da comunidade, para deles ouvir, em determinadas alturas críticas, opiniões sobre as grandes decisões comunitárias. Isto porque algumas decisões estratégicas não se compadecem com excessos hormonais e ouvir os mais velhos pode ser uma boa ideia. Mas nem sempre. Se numa comunidade o mais velho, ou os mais velhos, tiverem sido perfeitos idiotas em jovens é provável, muito provável, que a idade não tenha curado a idiotice.
Quando é que afinal passamos a velhos? Talvez nunca. A velhice é sempre uma questão de perspectiva, parecendo estar sempre mais para lá do que efetivamente está. Quando eu era novo os homens velhos usavam pesados sobretudos e chapéus, era assim que eu via a velhice dos homens. Não tenho nem uns nem outros no meu guarda-roupa... também não teria espaço.
A internet matou a especulação entre amigos! Já ninguém perde tempo a discutir se o golo do Maradona com a mão, no mundial do México em 1986, foi o primeiro ou o segundo contra a Inglaterra. Se houvesse duas opiniões fortes em sentidos distintos isso dava umas boas horas de discussão. A verdade era assim discutível como devem ser todas as verdades. Hoje rapa-se do telemóvel e zás: foi o primeiro golo e ao minuto 51! Discutir se “O idiota” foi escrito pelo Dostoievsky ou pelo Tolstoi é, bem se vê hoje, uma idiotice. E é uma pena para a arte da retórica.
Quem é por vezes um tremendo idiota é o Ronaldo. Acenar com as cinco taças dos campeões ao adeptos adversários depois da Juventus ter sido dominada pelo Atlético há uma semana é infantil. Se na minha tribo o Ronaldo um dia, velhinho, se juntar à volta da fogueira a dar conselhos, eu vou-me embora (se for vivo!).
A Operação Marquês dá sinais de poder vir a tornar-se ainda mais deprimente do que ouvir hoje os altos dirigentes bancários, responsáveis pela delapidação de recursos públicos, dizer que nem sequer sabiam dos empréstimos ruinosos que foram concedidos com a sua assinatura, que estavam lá sim senhor, no conselho de administração, mas só por causa das sandes e dos sumos servidos de borla nas reuniões do órgão. Ainda vamos pagar, se houver fundos públicos, uma indemnização ao Sócrates, ao Vara, ao Ricardo, por tão despudoradamente deles termos desconfiado. É que os sinais sobre a postura do juiz Ivo Rosa são preocupantes. Ainda agora o Tribunal da Relação de Lisboa censurou Ivo Rosa por proibir a utilização, pelo Ministério Público, dos dados bancários e fiscais de responsáveis da EDP por suspeitas de corrupção nos mirabolantes CMEC’s que, mês a mês, nos engordam a conta da luz. O juiz faz lembrar aquele funcionário público que nos pede sempre mais um papel, e de papel em papel o serviço encerra. Agora estamos fechados, lamento. Pode ser que esta minha desconfiança seja de velho ... mas começo a ver um filme que não me agrada enquanto cidadão, sobretudo depois da anterior Procuradora ter sido apeada do cargo por um feeling constitucional.
Não me indigno com facilidade, nem falo de doenças. Essas serão provavelmente as únicas duas coisas que me separam de ser velho, mais do que os sobretudos ou os chapéus.
Por isso fico sempre espantado com as indignações locais sobre mudanças nas Gualterianas ou no local da Feira Afonsina. Sobre as primeiras sempre achei importante conservarem-se os números históricos, mas não as tendas e tendinhas e farturas e carrinhos e ruídos. Ao património o que é do património, ao lixo o que é do lixo. A mudança da Feira Afonsina para o espaço do Carmo e do Castelo também dá que falar. Libertar o centro histórico da pressão da feira parece-me acertado e profilático. A cidade precisa de respirar! A cidade é um organismo vivo que se cansa e se descaracteriza quando a sobrecarregam. Pelo menos é isso que me parece. É importante olhar para o futuro e não ficar preso naquilo que, sendo passado, não tem, porventura, interesse nenhum.
Li há uns tempos uma interrogação de alguém sobre se não existirão mais feiras medievais agora do que as que existiam na Idade Média? É bem provável que sim, e convém não exagerar na dose.
 
Rui Vítor Costa

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