Se o pensamento é livre ...

Então fabulemos!

Assim e começando por brincar ao economês na ilusória essencialidade primordial a que esta disciplina se guindou na contemporaneidade, quedemo-nos, para já, pelos conceitos de oferta e procura nesta nossa sociedade ainda dita de consumo, incomensuravelmente materialista e incorporada na lógica evolutiva do sistema; nas regras do poder em que aquele assenta a sua permanência.

Destarte e simplificando, dir-se-á que oferta é todo o universo de bens colocados no mercado e susceptíveis de serem transacionados, adquiridos, para satisfação de necessidades, reais ou apenas induzidas, dos que as pretendam satisfazer; ou seja, no seu integral conjunto, da procura. Que procura é isso mesmo, os que estão dispostos a adquirir o que lhes é posto à disposição. Conceitos ambos abstractos que nessa sua idealização, como se irá percebendo, são tidos por absolutos e desfocados daquilo que é verdadeiramente o mundo; este planeta concreto que nos permitiu, em que existimos e começa a ser demasiado finito. Finitude que que se vai realçando e, também, para aqueles dois conceitos que vimos abordando. Isto porque o desenvolvimento em que ambos assentam, um continuado permanente crescendo, não encaixa com aquela e com limites que ela vai evidenciando. E se a procura depende da capacidade financeira dos que têm condições para a satisfação das necessidades que se lhes põem, capacidade que pode ser fomentada por múltiplas formas (desde o simples crescimento do número por expedientes que lhes permitam o acesso através de endividamento diferido, ou diversidades nos direitos de uso de bens não fungíveis e por aí fora), a verdade é que esses meios, todos eles, só adiam, como vêm protelado, uma realidade que, essa, tem a força incontornável de o ser no ter de ser.
Dito isto e extrapolando com uma linearidade que não é assim tão básica, poder-se á dizer que a procura já não acompanha o potencial aumento da oferta instalada e, muito menos, da sua progressão. Progressão constante de procura que seria, no entanto, vital para a sobrevivência do sistema e cuja insuficiência já se julga ser assaz perceptível nalguns ramos da oferta. O que, num raciocínio bem mais complexo, nos pode conduzir à marginalidade de empresas; à sempre exigível constante diversidade do produto e o correspondente mais, e mais, investimento; à, em mercado livre, redução das mais valias e tudo o mais que se lhes segue. Num tudo que denota que, na fluência do sistema, as suas crises serão cada vez mais difíceis de ultrapassar e, sobremaneira, vão pondo em causa valores civilizacionais que agravarão as assimetrias pela acumulação e concentração ocorrente. Pelos jogos de poder que lhes são subjacentes.
Na evidência, entretanto e no plano individual, de que O que faz correr Sammy é o modus faciendi e miragem da actualidade. Mas será essa uma satisfatória justificação de vida?
Deixemos a interrogação para quem queira reflectir sobre ela e reperfilemos a retórica.
Descambemos, pois, para a afirmada finitude da matéria. De toda a matéria massiva e, sobremaneira, da que compõe o sistema solar e na que mais directamente nos diz respeito: a deste planeta. No tudo que nele está e que portanto é finito. Tremendamente finito se quantificado em fracções temporais de século (normalmente quatro gerações, ou mesmo de quase uma vida se se atender às suas cridas espectativas actuais) ou superiores. Para a primeira estaremos a falar nos netos dos nossos filhos, ou mesmo destes. E nos ritmos de consumo a que nos habituamos, nos que ainda mantemos, a crer nos cálculos da estimada pegada biológica, estaremos já a consumir o que a eles devia tocar. Ou seja, num vetusto jargão popular: quem não governa a lenha, não governa casa que tenha. Por outro lado, como será facilmente compreensível, esse consumo desmesurado amplia também a poluição global, malgrado os esforços que possam ser feitos para que ela não cresça nas mesmas proporções; se é que isso, esse cuidado, acontece. E se a Terra, em si, é igualmente um processo evolutivo, uma vida com um decurso próprio em sucessiva mutação, acredite-se ou não na influência nociva da actividade humana nesse trajecto, a verdade é que muitos indicadores apontam para que, com os níveis altíssimos de consumo (logo, de poluição) que se atingiram, esse influxo acentua transformações que alteram as condições permissivas da preservação das condições de vida tal qual as fomos tendo nos últimos milénios.
Entretanto e para uma mais fácil apreensão, incidamos o acima adiantado num aspecto visivo das coordenadas que traçamos. Assim e porque parece campo inquestionável, apontemos às formas de mobilidade em voga nos nossos dias, sejam eles aéreas, terrestres ou aquáticas. E nestas, desperdiçando as outras, fixemo-nos nas segundas, nas terrestres e singularmente na rodoviária; e aí apenas nos veículos automóveis. Fileira que, como é de acesso público, com crescimento de números de veículos produzidos em percentagens muito significativas até 2010, a partir dessa data praticamente estagnou (mais ou menos 100.000.000/ano); e, parece, que recentemente até retrocedeu (à volta dos 94.000.000). O que, em termos estatísticos tão em voga hoje em dia, daria, para uma durabilidade média de 5 anos/veículo, cerca de 1 veículo para cada 16 habitantes da Terra. Número manifestamente irreal e que, sem ter em conta longevidades maiores, nem, muito menos, a tal capacidade financeira para usufruir desse bem económico ou, ainda, a totalidade do parque em circulação, demonstra que, sem uma mexidela, se bateu no tecto. Que o conjunto desse importantíssimo campo da economia produtiva tem que forçar (impor directamente e através dos seus lobbies) soluções que o oxigenem; que lhe atrasem a agonia. É pois uma questão de sua sobrevivência. Por outro lado como essa indústria, e tudo o que lhe está ligado, consome enormes quantidades de matérias primas e energias na produção dos veículos, no posterior funcionamento destes e, até, na reconversão e destruição dos desperdícios finais que geram, o problema ecológico que dela resulta é incomensurável e está patente aos olhos de todos. Tudo apontaria, portanto, parece, na lógica do bem comum, e não na de apenas alguns, para uma diminuição progressiva do transporte individual, com a gradual implementação racional de um transporte colectivo de cada vez maior qualidade e real serventia. Só que o colapso dessa fatia do grande bolo económico do sistema acarretar-lhe-ia consequências imprevisíveis e, porventura, pouco risonhas e mexeria com o poder instalado.
Aqui chegados, voltemos à enunciada liberdade e, mais que a um só e primário enredo, arrisquemos um voo de total especulação imaginativa. Crendo nele as formas de novas usufruições efectivas praticamente esgotadas, ou a imporem alterações de costumes difíceis de implantar, a saída sonhada é um novo conceito, uma ideia que, ainda que a testar definitivamente, se ajustasse à moda das energias afirmadas não poluidoras. Num, por conseguinte, desatar de nó górdio que resolveria todas as próximas dificuldades da indústria e desejavelmente confluiria com o interesse público duma fictícia boa escolha ecológica. Assim, bingo! O click quimérico relampejou e ecce solutio: o veículo automóvel eléctrico. E a concomitante necessidade da substituição do parque automóvel poder entrar na antecâmara duma realidade apetecida. Claro, sempre, com a ajuda prestimosa dos bons alunos.

Mas, finalizado o devaneio, decaiamos ao chão prosaico do quotidiano e aos desencantos do inverno em que nos encontramos.

Fundevila, 27 de Fevereiro de 2019

Óscar Jordão Pires

em Opinião

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