Se o pensamento é livre...

Então e mais uma vez, voemos.


Desde logo e porque parecia uma evidência inquestionável (até pela simples razão do género, ainda necessário à função primordial da reprodução natural potenciadora duma progressiva diversidade evolutiva), o ser humano (repare-se que é esse o âmbito definido na assexuada proclamação da Declaração Universal dos Direitos do Homem) carece duma vivência gregária; esta, duma dimensão inicial provavelmente muito reduzida e que o andar dos tempos, o caminhar das civilizações, foi ampliando em conceitos cada vez mais abrangentes e que nos trouxeram até ao presente, às nações e, ou, a aglutinados destas (sem prejuízo de, aqui ou ali, ainda subsistirem outras formas de agrupamento mais rudimentares ou as superiores imperiais).
O que patenteia que, assim o cremos e como em muitos outros primatas (e não só), o animal humano não teria subsistido se isolado; se individual e completamente autónomo. Por maioria de razão com os saberes, técnicas e organização a que se chegou.
Circunstância que os séculos (diríamos mesmo os milénios), com a apetência no decorrer deles por uma cada vez maior fruição de bens sucessivamente mais complexos (digamos esquematicamente: de suposta maior qualidade de vida), sempre foram avolumando e que desembocaram na sociedade de consumo que hoje se pode dizer mundial e sem, nela, viabilidade de existência isenta de dependências.
Ficamos, pois, em que o animal homem é um ser intrínseca e estruturalmente sociável. E afunilados a esta ponta da Eurásia, por ser a que nos compete saber melhor, julgamos que o homo sapiens da célula inicial se foi acrescentando no clã, depois na tribo, no povo (este já uma unidade maioritariamente identificável pela língua e cultura - incluindo nesta os fenómenos religiosos -); e igualmente também em organizações centralizadas e, as maiores, eventualmente desconcentradas, até ao recente surgimento da nação, cujo sentimento de pertença e identidade ainda não é, muitas vezes, pacífico. E o que actualmente e como à parte, tem canalisado nacionalismos bons, ou maus, consoante os interesses de quem a eles se refere ou fomenta, ou contesta. Mas voltando à sociabilidade humana, o que nela se destaca ab initio é a necessidade, a imperiosidade, de para que ela se afirme e possa subsistir, serem necessárias condicionantes comportamentais, ou seja, regras. Um mínimo destas que, aceites ou impostas, viabilizem uma convivência pacificadora de tensões que, sobre todos os aspectos do quotidiano, sempre tendem a ocorrer e para que com elas o grupo, qualquer que seja a sua extensão, consiga manter-se unido e resolver esses diferendos. Claro que esta conditio sine qua non de qualquer sociedade, para verificar-se, impõe uma imediata consequência: a dam ocorrência duma autoridade. Consequência relativamente simples nas mais pequenas, mas de crescente dificuldade nas maiores e quanto mais o forem (óbice bem presente no nosso dia a dia e reflectido no propalado, e sentido, divórcio entre representados e representantes; do qual decorre, portanto, uma diminuição, ou até ausência, de democraticidade).
Já arroupados com estes parâmetros, mas insistindo na imprescindível essencialidade da sociabilidade, importa ainda frisar que, a compaginação da singularidade física de cada um com uma sua vivência comunitária, não assenta numa característica impressa no código genético, nem é uma qualidade inata, mas, antes, consiste no fruto duma formatação mais ou menos prolongada, devidamente localizada num espaço e no tempo em que essa existência acontece; numa, por conseguinte, concreta sociedade e na sempre prossecução sequencialmente consequente do decurso efémero de qualquer fenómeno material (que um ser, ou uma sociedade, ambos o são). Aliás essa ideia de decurso, de processo, é determinante, porque pressupõe uma formação continuada e, inclusivamente, nos dias de hoje e muitíssimo mais, com diversos níveis. E igualmente a ideia subjacente de relatividade. Ideia constante em todos os processos que, no serem sequenciais na sua dinâmica interactiva progressiva, excluem quaisquer absolutos e, paralelamente, dogmas.
Neste contexto, a célula orgânica grupal primária por excelência e desde longes idos, foi e tem sido a da família; embora o conceito possa ter tido variações de conteúdo e extensão. Que, entretanto,n não alteraram a sua função de núcleo base.
Sendo assim, quer por razões biológicas, quer pela praxis do acontecer, a base da educação atrás invocada reside nela, como se colhe da sabedoria popular quando adianta que é de pequenino que se torce o pepino (com imensas analogias no reino dos animais irracionais); sendo, assim, dizíamos, aquela célula gregária primária, a da família, tem sido a formadora primeira de adaptação ao, e para o, colectivo. E sempre falando na generalidade, com as muitas especificidades e excepções que esta comporta, os laços efectivos e as relações de dependência que se estabelecem entre os seus membros, geram regras e hierarquias que se interiorizam e, sobretudo, ensinam a necessidade de uma estruturação e suas normas de funcionamento. Bebidas no leite essas condicionantesc como que se tornam naturais e, assimiladas, constituem os alicerces sólidos duma sua aceitação para grupos mais amplos. Brincando, num linguajar bem burguês, falaríamos que os que lhe foram sujeitos tomaram chã em pequenos (ou se, como se ouvia in illo tempore, inversamente para os desprovidos da infusão, os excluídos, os que tão só tomaram chá por um garfo). É que há, e cada vez mais, os que não sorveram esse chã. E sem cairmos nos excessos do Larry Clarck cineasta, que, no entanto, podem retratar uma certa sociedade, ou estratos dela, a verdade é que, por causas que não compete aqui assinalar e desmontar, aqueles valores ancestrais que permitiram a estabilidade familiar estão em crise e muitos deles confrontam-se a esta endemia ocidental de afirmação de direitos individuais irrestritos, ou quase e a qualquer custo. Assiste-se,portanto, a um quase sistemático fuzilamento da família tradicional... da que vinha sendo. 
Dito isto e em mais um à parte, este cuidadoso, não se engatilhe já com um ápodo de conservadorismo ou qualquer outra adjectivação classificadora, mormente por parte de inveterada(o)s feministas. O que se avançou atrás, recordêmo-lo, é apenas um adejo imaginativo sobre uma pretensa realidade histórica e sem, portanto, qualquer objectividade científica ou sorte de proselitismo. É pois e apenas uma visão sobre uma constatável observação subjectiva; sobre uma desagregação que, parece, se está a esboçar em intensidade crescente e cuja sequência ainda não se vislumbra com um mínimo de nitidez.Até porque, convém não esquecê-lo, qualquer fenómeno material (que constitui um processo no seu contínuo suceder) é, sempre, a constante mutação sequencialmente consequente entre um princípio e um termo.

Óscar Jordão Pires

Fundevila, 27 de Março de 2019

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