Modo de ser vaidoso

Não me considero pessoa avessa à modernidade, e o que acabo de não é senão entre mim e eu próprio, pois não sei como sou considerado a tal respeito, nem, talvez, haja qualquer razão para que outros, sobre essa matéria, possuam elementos para de mim fazerem juízo.Não me considero pessoa avessa à modernidade, e o que acabo de não é senão entre mim e eu próprio, pois não sei como sou considerado a tal respeito, nem, talvez, haja qualquer razão para que outros, sobre essa matéria, possuam elementos para de mim fazerem juízo.

 

Sou, todavia, cauteloso, ou pelo menos prudente, quanto a algumas ações ancestrais atualmente levadas a cabo através dos mais recentes meios.

Por exemplo, não sou avesso ao Facebook, observo quase diariamente o que por lá se passa, mas só em muitíssimo raras ocasiões nele intervenho, para além de que quando o faço é apenas para escrever uma palavra, ou duas, de saudação ou de felicitações.Mesmo com o correntíssimo correio eletrónico, abreviadamente dito email, que uso correntemente, tenho algumas pontas de pudor que me levam a utilizá-lo como veículo de meios de comunicação mais tradicionais.Por isso evito uma comunicação formal escrevendo diretamente no espaço de escrita do email, preferindo escrever uma carta, daquele jeito que me vem da aprendizagem nos primórdios da minha escolaridade, com o nome e a morada do destinatário na parte superior direita da folha que, sendo virtual, no destino se pode materializar mediante o ato de impressão dela, e remeter essa carta anexa a um email dirigido a quem pretendo endereçar a carta.Assim concilio o solene com o atual.Isto, que muitos terão como mania ou tradicionalismo, para mim é uma espécie de estética nas relações humanas que, sem ela, me parecem ficar algo abaixo do patamar em que devem desenvolver-se.Vem isto a propósito do modo como foi transmitido, pelas mais altas instâncias do Estado, o pesar pela morte da enorme escritora que foi Agustina de Bessa Luís: apesar de não duvidar de quanto o Presidente da República e o Primeiro Ministro sentiram, por si e por aqueles que representam, a morte de Agustina, deixa-me algum amargo o saber que o seu sentimento foi veiculado através do Tweeter, que leva as mensagens nele colocadas, não ao seu destinatário, mas a esse e, simultaneamente, ao público em geral.

É como se em vez de se transmitir os pêsames, discreta e solenemente, à família de pessoa falecida, se utilizasse um microfone, ligado a altifalantes espalhados por toda a parte, para manifestar aquele sentimento de solidariedade.Diferente seria se, por qualquer meio, nomeadamente o referido, se prestasse a informação de que, a quem o deveria ter sido, efetivamente foi, por que palavras foi, e em nome de quem foi, transmitido o pesar pelo triste acontecimento.Estou com Milan Kundera, também ele um dos grandes nomes da literatura do século XX, quando no seu livro “Os Testamentos Traídos”, a propósito da divulgação de conversas de um intelectual opositor do regime comunista permanecente na Checoslováquia após a invasão soviética em 1968, e da publicação da fotografia de um cantor conhecido, às portas da morte, cobrindo a cara com as mãos, afirma – “disse para comigo que a divulgação da intimidade do outro, a partir do momento em que se torna hábito e regra, nos faz entrar numa época cuja parada maior é a sobrevivência ou extinção do indivíduo”.Isto foi dito em 1993, e, olhando à minha volta, sinto como se já tivéssemos entrado naquela época.Falar de escritores e livros leva-me ao que vem a seguir. Há tempos um conterrâneo amigo contou-me que, tendo mostrado a cidade a pessoa que o visitara, forasteiro que de Guimarães pouco mais conhecia do que a fama que o fez querer vir confirmar o correspondente proveito, acabado o passeio afirmou-se encantado com a paisagem urbana, após o que perguntou se aqui havia muitos cegos. Inquirido pelo anfitrião por que fazia tal pergunta, retorquiu que nunca vira, como aqui, uma tão grande concentração de casas de óculos…

Na passada quarta-feira, durante o meu giro habitual, ao passar junto à fachada norte do largo do Toural, sou surpreendido por um estabelecimento que não imaginara ali ver.Airosa, bem iluminada, convidativa para uma entrada e dispêndio nela de um bom e proveitoso bocado de tempo, a Livraria Bertrand tinha, apenas horas antes, aberto ao público.Fiquei contente por ver que, no centro da cidade, abria uma loja que não era de óculos, de roupa, nem de calçado, não porque não goste desses estabelecimentos, mas porque é salutar que surja também comércio dirigido a quem procura satisfação de interesses e necessidades do espírito, uma vez que para satisfação das do corpo existe oferta capaz de responder a todas as exigências, desde as meramente comuns às mais sofisticadas.Milan Kundera, Agustina e enorme quantidade de obras de escritores e escritoras dos mais variados géneros literários ali estão, numa loja de livros, que, por isso, bem merece o título que tem: livraria.Guimarães e a Bertrand merecem-se mutuamente, ambas e os vimaranenses igualmente se merecem.Entrei de mãos despidas e, quando cerca de uma hora depois saí, com um livro na mão, vaidosamente senti-me melhor vestido. E gostei.

Guimarães, 09 junho de 2019

António Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

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em Opinião

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