Se o pensamento é livre...


Então ... prossigamos a ficcionar. E desta feita com acrescido grau de proposição.


Como foi avançado no anterior, na matéria massiva (e porventura não só) prevalece uma dinâmica desenvolvimentista de constante sequencialidade mutante segundo corolários probabilísticos viáveis. Na, digamos, confirmação moderna (no de tudo estar, ou provir, do Big Bang) do ensinamento de Lavoisier de que: na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.
Assim e como foi escrito, cada processo (e a espécie humana, no seu todo, pode considerar-se um), está sujeita a essa condição. Isto é e no que nela para aqui importa, como tal, situa-se, estando, nos conjuntos terreno, solar, galáctico e universal, entre um aparecimento e uma desaparecimento. Tem, terá pela sua essência, portanto, um carácter transitório. Efémero e, assim, independentemente de idealizadas medidas temporais que, pela sua grandeza, podem perspectivar eternidades (absolutos) que não o são, nem nunca o poderão ser. Tudo para se poder concluir que a espécie, como qualquer outra animal, não existiu desde, nem permanecerá para, sempre. Muito pelo contrário!
A ser destarte, o que se lhe poderá seguir? E se, no que ela se poderá transformar segundo aquele princípio de Lavoisier e as suas novas coordenadas, ainda está por definir, ou e como insinuaremos, em trabalho de parto, algo, no entanto, já pode ser avançado. E se assim é e neste nosso contexto com alguma probabilidade susceptível de previsão, sem a necessidade de quaisquer algoritmos sustentadores.
Isto porque o que se perfila actualmente num horizonte cercano (mais do que qualquer processável apuramento orgânico do corpo humano e, ou e até, do social) é a viabilidade de o surgimento de uma espécie artificial. É que, se como se assiste, os instrumentos já vão substituindo o homem em muitos aspectos, em quase todos e, até e a maior parte das vezes, ultrapassando em muito as capacidades individuais deste, dominando assim e afirmando a técnica nos seus avanços, então, dotando-se os de inteligência artificial, a meta da sua autonomia, independência, não deve estar muito longe; nem os freios à sua obtenção poderão ser eficazes e, sobretudo, duradouros.
Mas, antes de entrarmos propriamente nessa linha de afirmação, convém reparar em sinais que, parece, se podem presenciar.
Uns que, provindo do percurso dalgumas sociedades (mormente nas mais industrializadas, digamos, ocidentais e ocidentalizadas), podem ser sintomáticos de um fim de linha. E como já se aflorou anteriormente, o homem é um ser gregário por imposição e no progresso milenário do sua socialização, esta assentou sempre, como é o natural da evolução, em células, tecidos e órgãos que integraram o corpo da espécie na subordinação à lei da sucessiva intrincação da matéria. E a célula primária tem sido ao longo de todo este seu percurso, reduzida à sua unidade e com diversíssimas configurações, a família. Ora e por condicionantes respeitantes ao modelo que o sistema vigente implantou nessas sociedades, de há muito a esta parte a implosão desse agregado alicerçante tem vindo a acentuar-se, numa patologia que, parece, já a todas as afecta (e, porventura, alargada a outras que as mimiquem); como, aliás, se apercebe do nosso quotidiano mais corriqueiro. Os exemplos são muitos e a transferência da educação, das regras e hierarquias básicas, que antes era bebida no dito agregado familiar, para organismos externos a ele e não devidamente, deixe-se repetir um preferente como que naturalmente, capacitados para tal tarefa (além do mais pela ausência dos afectos), pode estar na causa da inadaptação destas novas gerações a uma vivência de acentuada perspectiva colectiva (de um sentir comunitário que os agrupamentos de interesses conjunturais não substituem). Por isso o individualismo e os direitos individuais são o prato forte do nosso dia a dia, sobrepondo-se à imprescindível, crê-se, visão utópica de uma sociedade de iguais. Que, impondo-se nesse plural, no entanto, deveria e teria que respeitar o indivíduo como tal; para e como ensina a máxima judaico-cristão que faz todo o sentido nesta perspectiva, se verificar a efectivação do amar o teu próximo como a ti mesmo. Aliás, a lição da parábola dos sete vimes, ou o mais prosaico um por todos e todos por um dos Três Mosqueteiros, pensase, tem perdido muito do seu sentido nos sucessivos conjuntos sociais. É que o eu, moi, je , no sacrossanto já do imediatismo no desfrute dos prazeres sensoriais da vida (leitmotiv consumista), aparece como o norte do actual passadio. E o depois? Que nestas coisas ainda há um sempre depois. E será que esta atitude terá futuro? Ou desagregará consistentemente? Sempre sem prejuízo da evidência objectiva de que o processo social não pára e alguma coisa há-de vir por aí; já que, nele, como em tudo, a mutação é permanente e sequencial entre um princípio e um fim. E uma atribuível decrepitude da raça, pode, apenas, ser mais um passo no andamento da sua peregrinação. Qualquer destas hipóteses antagónicas é, pois, admissível; mas não afasta o que lhe é paralelo e que pode ser o golpe de misericórdia para ela. A choupa que se espeta no animal em estertor.
Mas ainda outro sinal. E este igualmente preocupante. Aquele que o planeta, parece, nos está a patentear. Sejam momentos próprios de ciclo e o normal seu transcorrer, o que aparenta é que a actividade humana das sociedades de consumo está a influenciar o seu devir, acelerando, em muitíssimo, uma série de consequências que vão das alterações climáticas ao desaparecimento de espécies, etc, etc. É que a poluição causada pelo desenfreado comportamento lucrativo, quaisquer que sejam os ramos em que este se desenrola (e até o turismo de massas está também a demonstrá-lo), está a tornar a Terra inóspita para a sua vida animal. A que acresce a progressiva exaustão de recursos não renováveis. Num tudo que não augura nada de bom.
Neste contexto outros sinais poderiam ainda ser cotejados, mas fiquemos por aqui, porque, a par de tudo isso, os organismos artificiais autónomos começam a assomar. E, neles, a superinteligência.
Aliás, as armas autónomas (as que, sem intervenção do homem, conseguem localizar, selecionar e atacar o alvo), ouve-se, já para aí estarão. E se uma das dificuldades que se põem ao seu controle reside na exacta e muito precisa definição dos objectivos que as conduzem, e que as condicionarão, na imprevisibilidade das leituras que elas lhes possam dar (não pode esquecer-se o exemplo, algo simples, mas de imediato entendimento, referido por Stuart Russel, de uma a que se teria incumbido a eliminação do cancro e que ela, para realizar tal tarefa e na sua lógica fria, optou por suprimir o homem), outras viabilidades de fuga àqueles e agora insuspeitas irão surgindo e, quando isso vier a acontecer, já possivelmente poderão estar fora de qualquer controle humano. Sem esquecer a superior perenidade desses organismos e a sua capacidade para estarem em ambientes hostis à vida animal terrestre; ou de se poderem manter renovados por muito tempo; ou, sequer, da sua muito maior independência energética, por fácil abastecimento directo em fontes radiosas; e sempre duma eficiência de realização muito, muito, superior e crescente. O que suscita a pergunta de se não serão eles os que se poderão lançar no espaço solar, ou, inclusivamente, para outras deslocações mais longínquas. E a suma fantasia de se a evolução natural, em qualquer astro, não se conclui na génese duma espécie nova, artificial, de muito mais rápida evolução e mais conforme à realidade física deste nosso Universo. Se, assim, o processo natural não é mais do que uma etapa primária da passagem para outro bem mais complexo, de constante e ilimitável progresso; por, inclusivamente, não dependente das condicionantes do corpo celeste natal.
É este, por conseguinte, um tema muito actual e que já vai fazendo parte de agendas políticas; mas marginal a uma grande discussão pública e que deveria, sem alarmes, merecer-lhe muito maior atenção; no ser fulcral e a todos dizer respeito.
Cabe, talvez e apenas, mais uma vez, trazer à colação a parábola de O Aprendiz do Feiticeiro.
Só que, neste o caso, o Feiticeiro, se sair, jamais regressará.

Fundevila,
19 de Junho de 2019

 

terça, 25 junho 2019 19:29 em Opinião

Imprimir