Mobilidade urbana

Um variado conjunto de factores tem vindo, nos últimos tempos, a contribuir para a construção de um sentimento de nece

ssidade de alteração do modo de vida e de hábitos do quotidiano dos cidadãos.

Num tempo em que, progressivamente, se vem tornando possível a medição e monitorização do impacto de muitas das nossas ações e interações com a natureza, e em que muitos dos fenómenos a que se assiste, a ciência consegue já explicar, vai-se construindo uma consistente consciência ambiental, tanto individual como colectiva.

Os incêndios, que nos últimos anos tanto têm atormentado as populações dos diferentes pontos do globo, desde a Europa - e agora já não apenas os países do Sul como até os países nórdicos - até à Rússia, Estados Unidos, Brasil e, nos últimos dias à Austrália, com uma área ardida já superior à de Portugal inteiro, constituem uma clara reação da natureza.

De entre muitas das medidas preconizadas nesta luta contra as alterações climáticas, o sector dos transportes tem sido daqueles que tem merecido especial atenção em todo o mundo.

Portugal, tal como a generalidade dos países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, tem sentido um crescimento imparável do uso automóvel, tendo dele criado uma verdadeira dependência, não só no que se refere à sua função como meio de deslocação como, até mesmo, no papel que lhe cabe na própria economia, já que o sector automóvel assume uma importante fatia da vida económica dos nações.

Nos últimos tempos tem-se vindo a assistir a uma aposta dos governos e dos municípios na promoção do uso generalizado dos transportes colectivos em detrimento do transporte individual, assim como na introdução de medidas de apoio a modos suaves de deslocação como a bicicleta, a pedonalização e outros modos de deslocação.

Com esse mesmo objetivo aderiu Guimarães, no ano passado, ao PART - Programa de Apoio à Redução Tarifária nos Transportes Públicos -, tendo, para o efeito, alocado uma verba de 532.000 euros, 90% dos quais provenientes da verba dos 102 milhões de euros que o governo colocou à disposição dos municípios.

Manifestando estar atenta à crescente importância que a mobilidade urbana vem assumindo nos tempos atuais na vida das comunidades, e aos diferentes apoios que o sector vem merecendo por parte do governo e dos fundos europeus, promoveu a AJEG - Associação dos Jovens Empresários de Guimarães no passado dia 10, no auditório da Universidade do Minho, um debate sobre a mobilidade urbana.

O tema central do debate assentou, sobretudo, na análise de uma proposta para a instalação de um Tramway na cidade de Guimarães cujo itinerário se desenvolveria entre o Espaço Guimarães e a Escola Santos Simões no parque da Cidade, passando pelo Aki, cidade desportiva, Multiusos, Hospital/Central de Camionagem, Escola Francisco Holanda, Quintã, Universidade, Rua Santo António, Toural, Estação, Avenida D. João IV, Campo da feira, Escola João de Meira e Academia de Ginástica.

Tendo sido uma iniciativa merecedora de elogio generalizado e razoavelmente bem participada, apontou uma solução que deixa sérias reservas.

Desde logo por partir do pressuposto de que o maior problema dos transportes em Guimarães será a deslocação das pessoas na cidade o que, a meu ver, não corresponde à realidade, já que, conforme comprovam os números e a observação o confirma, o maior problema consiste na deslocação das vilas para a cidade, servindo como exemplo, a ligação Taipas/cidade, onde se assiste a um fluxo diário superior a 20.000 automóveis.

Depois, pelo impacto do Tramway, fortemente intrusivo, bem visível logo na fotografia de apresentação do estudo com a imagem do Toural a ser atravessado pelo veículo.

Finalmente, por não me parecer possível concretizar a sua passagem nas ruas da nossa cidade como Quintã, Santo António, Toural, Avª. D. Afonso Henriques, etc.

Na verdade, sendo um meio de transporte com muitas vantagens, presente em importantes cidades da Europa, adequa-se a cidades novas, com ruas e avenidas concebidas com perfil compatível com a sua presença, o que não é o caso de Guimarães que é, na sua grande mancha, uma cidade antiga, com centro histórico classificado pela Unesco como património da Humanidade.

Penso que sobre transportes, no nosso município e região, fará falta aguardar a chegada do projecto que o município encomendou e que irá, com certeza, trazer luz para a solução deste importante problema que afecta, de modo especial, não só a questão ambiental como sobretudo a coesão social e territorial.

Guimarães, 28 de Janeiro de 2020
António Monteiro de Castro

em Opinião

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