Sonhos prosaicos

Tenho uma grande intimidade com os sonhos. Não utilizo a palavra enquanto sinónimo poético de desejo de algo muito especial a que se aspira, mas como expressão

da comum espécie de filme que se desenrola durante o sono, do qual, quem sonha, tanto pode sentir-se mero espectador como cabeça de cartaz.
Dizem os especialistas que, durante o sono, toda e gente sonha e que, quando alguém diz que não sonhou, isso não significa que não tenha sonhado, mas sim e apenas que não tem a consciência dos sonhos que lhe povoaram a noite.
Das minhas conversas com conhecidos e amigos sobre a matéria, resulta que são muitos os que dizem que não sonham, ou raramente sonham, e outros tantos que sabem que sonharam mas quase nunca lembram o quê.
Pois eu, não só é raro ter a sensação de não ter sonhado, como mais raro é não me recordar do que sonhei.
Sendo algo dado a períodos de insónia durante a noite, por vezes só sei que dormi entre eles, porque sonhei; frequentemente poucos minutos, mas o suficiente para ter um sonho imenso como se fosse de uma noite inteira, donde a conclusão a que, para o meu caso, chego, de que há sonhos efetivamente instantâneos, no sentido de que em uma pequeníssima fração de tempo se pode condensar toda uma longa vivência. Como quando o bater de uma porta provoca o despertar de um sonho que culmina em tiro de pistola, precedido de longo enredo que termina com o ruído desse disparo.
Porque foi este tema, o dos sonhos no dormir, que se me insinuou para esta crónica, fui consultar a “santa” Wikipédia, que me encharcou de tanta e tão complexa informação que prefiro ater-me à minha própria experiência de sonhante (palavra nem sei se existe mas que me serve melhor no presente contexto) para transmitir um genérico do meu modo de sonhar.
Gosto de sonhar; seja o que for. Não que goste igualmente de tudo quanto sonho, mas, sonhando, sinto que o sono me foi mais denso e reconfortante. Ao acordar é como se me apercebesse de que mesmo enquanto dormia tinha a consciência de estar a dormir.
Mesmo os pesadelos não me causam grande perturbação, pois o alívio da extinção deles com o despertar faz-me sentir como que em estado de graça.
Porém, raramente tenho pesadelos durante o sono; tenho-os muito mais frequentemente acordado, ao saber do estado das coisas por esse mundo além.
Os meus sonhos são normalmente uma espécie de contos surrealistas e com frequência condimentados com humor, de tal modo que, quando acordo, sorrio, e chego mesmo a rir, com a piada daquilo que sonhei.
A cores ou a preto e branco? Tenho-os de uma e outra espécie, dependendo do tema e do formato do sonho.
Nas fases em que faço parte do enredo, as cenas são a cores; naquelas em que sou mero espectador, são a preto e branco.
Esclareço que nesta segunda espécie de sonhos, tudo se passa como se fosse num ecrã de cinema, com verdadeiros planos cinematográficos que, acordado, seria incapaz de imaginar.
Seria e sou incapaz de tocar piano como me vejo fazer nos sonhos cinematográficos, em que sou simultaneamente espectador e ator, mas sem que me veja no filme: apenas vejo as mãos, que reconheço como minhas, e o teclado que, vá-se lá saber porquê, identifico como sendo o do meu piano, sendo as teclas premidas com verdadeiro virtuosismo.
Incapaz também de compor ou saber de cor música coral erudita, no ecrã vejo o maestro, supostamente eu, mas sempre de costas, regendo os vários naipes de vozes em harmonias que só não digo por mim inimagináveis nem em sonhos, porque é precisamente em sonhos que ocorrem. E acontecem travellings, desfiando pela onírica tela os coralistas, desde a ponta esquerda ao extremo da direita e sempre neste sentido, em cuidadoso movimento de câmara.
Quando apenas ator, sei, como disse, que os sonhos são coloridos, mas o que não compreendo nunca é em que idade me encontro na história do sonho. Nem eu nem os mais intervenientes conhecidos, pois nem sempre são conhecidas as personagens dos meus sonhos.
Nem sequer consigo definir a cor do meu cabelo, que quem me conhece sabe ser completamente branco desde o ocaso da minha juventude; apenas reconheço a minha pessoa mas não os seus pormenores físicos.
Aliás, não raro sonho com A, ou B, pessoas próximas, mesmo familiares muito chegados, mas sem que fisicamente aqueles homens e mulheres (curiosamente, neste momento reparo que não lembro ter sonhado com crianças) se pareçam fisionomicamente com aqueles intervenientes.
Alguns dos meus sonhos são tão completos que me parece acordar apenas porque me apareceu no éter da inconsciência, em modo fílmico, a palavra “FIM”.
Há ocasiões em que me sinto tentado a escrever o que sonhei, o que só muito raramente faço pois que, uma vez que o despertar dos sonhos merecedores de serem passados a escrito ocorre mais frequentemente de madrugada, se me dispusesse a escrevê-los, perderia o sono para o resto da noite.
Mas tenho alguns sonhos escritos, o mais antigo às quatro horas da madrugada do dia 5 de dezembro de 2007.
Porventura darei parte dele.


Guimarães, 03 de fevereiro de 2020
António Mota-Prego
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