Confinamento

Como não é preciso adivinhar, também eu me encontro em estado de confinamento, o qual não impede, antes implica o exer

cício do dever de cumprimento de medicinal caminhada diária, imposição clínica que me foi determinada há catorze anos, quando de um outro confinamento a que um sobressalto coronário me levou, este no oitavo piso do Hospital Senhora da Oliveira, piso que, para quem não sabe, é aquele onde são chamados à razão os que amam em excesso e depois não aguentam.
Decorria, ainda criança, o mês de janeiro, e da janela da enfermaria comum de três em que me encontrava via-se lá em baixo, ao início da manhã, nascente de um regato que os romanos batizaram com um nome que não devo aqui referir, que é o de rivus merdarium, a frescura de uma bruma ascendente como que a querer promover-se a orvalho, envolvendo a vegetação que tanto esconde como embeleza o dito regato, enquanto, como que roçando o verde dos arbustos, circulavam ordeiramente os automóveis, no absoluto silencio resultante da distância e da barreira formada por ampla e generosa janela dotada de vidro duplo, tão ordeiramente quanto ordeiras e silenciosas são as carreiras de formigas, inseto que quando eu andava na “idade do armário”, se passasse ao meu alcance, de imediato era remetido ao respetivo paraíso mas que agora sou incapaz de perturbar a não ser, confesso, com um pequeno sopro, apenas bastante para o desviar da rota de colisão comigo.
Posso assegurar-lhes que, visto dali, o rio de Couros até era bonito!
É, pois, com a frequente lembrança desse confinamento de há quase década e meia, que vou vivendo o de agora, só que, em vez de partilhado com apenas mais dois confinados, é-o com a ciência de que o partilho com uma boa parte desse formigueiro que é a humanidade.
Nestes dias, quando acordo logo se me assoma um sorriso, mais interior que externamente percetível, se bem que não negue ao menos um milimétrico esticar da comissura labial esquerda, ao pensar que o meu dia vai ser o meu lar e que o meu lar vai ser o meu mundo.
Cresce-me logo, por dentro, como que também uma bruma, esta cor-de-rosa, envolvendo arbustos silvestres carregados de alhos, cebolas e cebolinho, tomates desde os intimidantes coração de boi aos enternecedores cherry, os respetivos perfumes e macias superfícies, cujo encanto de perdição, para que me não faça perder o tino – como as sereias faziam aos intrépidos marinheiros do descobrimentos que, para não cederem ao seu canto sensual, se atavam aos mastros das naus – eu não tenho outro meio de quebrar senão com afiados instrumentos cortantes, acolhedores recipientes incombustíveis e reconfortante calor de chamas redondas como o equador, brandas como o mar chão e azuis como o mi bemol que é a tonalidade musical dos meus encantos.
Em suma, cozinho!
De avental por causa dos salpicos e dos gestos desastrados, por vezes com um barrete de cozinheiro, oferecido e bordado na frente com as palavras Chef António, pois tenho a pueril sensação de que, com o barrete posto, é menos frequente que a confeção saia desfeiteada. Lá diz o povo que “O hábito faz o monge” e a mim, amante das especiarias, dizem, “Com esse hálito vai p´ra longe”.
Antes porém, para ganhar o balanço necessário às árduas tarefas do dia, como essa de estrancinhar e condenar à fogueira os frutos dos arbustos da bruma cor-de-rosa, dobro a espinha perante o dia que decorrerá. Como? Com umas quantas flexões inferiores, ora de pernas afastadas ora com as ditas encostadíssimas uma à outra, umas extensões que, se me vejo ao espelho, fazem-me parecer uma espécie de cegonha quando a descansar sobre uma só pata e com a outra encolhida e, no fim de tudo, ginástica aquática sob cerrado duche em que castigo o corpo com áspera esponja sintética e sabão azul, que é o que dizem que melhor mata o bicho. Além, claro, de lavar.
Após a tortura de comer o que cozinho e infligir à minha esposa a crueldade de com isso também se alimentar, retribuindo-me sempre ela com um humilhante “estava muito bom”, sento-me em estado de exame de consciência e assim deixo que o universo se desvaneça durante uns breves, mas reconfortantes minutos.
É o meu “Momento Zen”. Intelectualmente paupérrimo, mas “Zen”!
Regressado à vida atiro-me ao bate passos de que ao início falei, medicação que, nesta emergência, me sabe como o remédio para a tosse que tomava em miúdo, cuja doçura obrigava a que fosse o respetivo frasco fechado a sete chaves, pois na minha gulosa inocência seria capaz de o emborcar todinho o que, fui avisado mas sem perceber o alcance do aviso, me tiraria a tosse definitivamente.
É então que me sinto como se não houvesse. A cidade por minha conta, com a exceção de um outro cidadão com que invariavelmente me cruzo, que, tal como o “Forrest Gump” de filme, parece caminhar apenas porque sim, fazendo-o inclinado para a frente e tão apressadamente que me faz pensar que se julga perseguido pela polícia ou que, assim, o bicho o não apanha. Uma outra caraterística do dito “Forrest Gump”, é que corre abanando exuberantemente os braços, como se fossem de borracha desde os ombros aos dedos mínimos, que mais gosto de chamar mindinhos, com inclusão das articulações dos cotovelos e dos pulsos.
Não os enredo, caros leitores, com as mais tarefas do resto do dia que sobra do cruzamento com o Homem de Borracha, que vai do chegar a casa e abrir a porta com os cotovelos, trocar os sapatos “de fora” pelos “de dentro” (como dantes se dizia das empregadas domésticas, consoante fossem a cozinheira ou a do resto do serviço), percorrer, nem que seja com a vista, todos os espaços e recantos do doce lar em que nasci para o dia, até ao mergulhar no inconsciente precisamente no mesmo regaço em que o quotidiano nascimento ocorrera.
Só lhes digo que, certamente porque estando confinado nada me faz pecar, tenho dormido melhor que um santo, pois os santos, porque o são, vivem atormentados com a existência dos pecados que não fazem.

Guimarães, 27 de abril de 2020
António Mota-Prego
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