Património industrial e a urgência de o salvar

Deparei-me, depois de férias, com o desaparecimento da Fábrica do Minhoto que fazia parte da nossa paisagem urbana e do património industrial da nossa cidade há mais de um século.

 

É difícil exprimir em palavras a tristeza de a ver desaparecer. Às coisas que fazem parte de nós, do nosso olhar sobre a cidade, o léxico revela-se sempre curto para descrever a perda e para se encontrarem os adjetivos adequados.Deparei-me, depois de férias, com o desaparecimento da Fábrica do Minhoto que fazia parte da nossa paisagem urbana e do património industrial da nossa cidade há mais de um século. É difícil exprimir em palavras a tristeza de a ver desaparecer. Às coisas que fazem parte de nós, do nosso olhar sobre a cidade, o léxico revela-se sempre curto para descrever a perda e para se encontrarem os adjetivos adequados.Não tenho – ou julgo não ter – uma visão estreita sobre a preservação do património. A preservação do património, apesar de ser um valor absoluto, deve ser com patibilizado com as necessidades sociais e económicas prementes: a criação de emprego, o desenvolvimento económico, um urbanismo inteligente e com valores de mercado que estimulem a fixação de população. Não se pode investir na preservação patrimonial se não houver dinheiro para o fazer, nem se pode impedir a sua destruição imediata e substituí-la hipocritamente pela lentidão do abandono. A arte da governação estará naturalmente em compatibilizar todos esses factores. Nos anos 80 do século XX quando Guimarães apostou na reabilitação urbana do Centro Histórico muitas vozes se levantaram contra esse facto por comparação com Braga que crescia de forma pujante, apesar de errada e descuidada. Hoje temos a recompensa dessa visão, desse arrojo, dessa aposta. E o nosso património industrial está a precisar de um olhar semelhante e protetor. A Zona de Couros é disso hoje um bom exemplo, mas a têxtil e mesmo as cutelarias precisam de um olhar e de uma estratégia adequada.
Nos últimos anos, o desaparecimento brutal das indústrias que fizeram a história de Guimarães no último século tem sido uma constante. Fruto de crises gerais ou sectoriais, por força de novos avanços tecnológicos, ou por outras razões atendíveis ou meramente especulativas, esse tem sido um facto inelutável. E com a perda dos edifícios perdem-se ainda valiosas máquinas e nstrumentos, perde-se importante documentação que enquadra a nossa história comunitária, perde-se saber e memória. A associação Muralha, pese embora a sua estrutura modesta, tem resgatado algum equipamento: destacam-se alguns antigos utensílios têxteis e documentos da Fábrica Moinho do Buraco, que foram recentemente expostos no Arquivo Municipal e serão objeto de nova mostra em finais de Outubro no Museu da Indústria Têxtil de Famalicão – curiosamente sob o título “Indústria têxtil de Guimarães”- e um tear mecânico centenário da Tarf que com a ajuda da Câmara Municipal (CMG), e com particular empenho da vereadora Adelina Pinto, foi possível salvar há um ano atrás. Além disto, a Muralha também definiu um projeto de levantamento fotográfico com o objetivo de reunir e atualizar uma nova coleção de imagens contemporâneas dos nossos lugares e tradições, nomeadamente de indústrias, que enriquecem a Colecção de Fotografia da Muralha (CFM). Mas isso é aturalmente uma pequena gota no oceano das perdas sistemáticas que estamos violentamente a sofrer.
A Fábrica do Castanheiro – objeto de documentação e exposição da Muralha em 2019 com o objetivo de alertar consciências – vai desaparecer, nomeadamente o seu arquitetonicamente rico terceiro núcleo, para dar lugar a habitação. A Fábrica do Minhoto desapareceu agora. A Cavalinho também, mas esta já sem o valor patrimonial das anteriores face às sucessivas alterações que a degradaram. A Fábrica do Arquinho ficou neste processo – e bem - para a CMG e era importante que esse histórico edifício constituísse o primeiro e decisivo garrote que minorasse a perda de património industrial (têxtil) que vimos sofrendo.
Assacar aos particulares a responsabilidade pela preservação do património industrial é um fardo que ninguém, com o mínimo de empatia, achará justo. Assacar à CMG a responsabilidade por tomar conta de toda esse rico património iria certamente provocar a deslocação de recursos financeiros importantes de outras áreas nucleares da governação. Então o que fazer? Não tenho eu, nem a Muralha, associação de Guimarães para a defesa do património, a que tenho a honra de pertencer, nenhuma fórmula milagrosa para resolver a questão. Temos, no entanto, algumas ideias e desde logo a convicção que é necessário haver uma estratégia clara de proteção do património industrial que tenha a mesma matriz estratégica dos sucessivos planos de urbanização que trouxeram, até hoje, e aos nossos olhos, uma cidade a que dá gosto pertencer edizer que se pertence. Um Plano Municipal de Proteção do Património Industrial, que, desde logo, defina um conjunto de regras que sejam claras e passíveis de discussão pública, seria um bom ponto de partida. Entendemos ser importante, numa primeira fase, identificar, estudar e documentar todas aquelas indústrias com valor histórico no nosso concelho e a CMG tem recursos humanos capazes para, de forma competente, cumprir essa primeira fase. Entendemos ainda que face a esse levantamento se deveria criar uma hierarquização dessas indústrias (em laboração ou já ao abandono) para condicionar, de forma harmoniosa, que qualquer intervenção urbana as proteja, criando incentivos próprios (nomeadamente de isenção de impostos camarários e outros apoios) para a sua preservação. E no caso em que não fosse já possível salvar essas indústrias, recuperar pelo menos a documentação (para o Arquivo Municipal) e o equipamento mais valioso de forma a ir protegendo esse património que poderia constituir mais tarde um núcleo museológico de inegável interesse. A clareza seria, no entanto, fundamental, não podemos ser implacáveis com os caixilhos das janelas e não o ser igualmente com o património industrial. E, conhecendo Guimarães e as suas gentes, não tenho dúvida que o apego à história comum poderia ter o mesmo efeito de preservação no património industrial da mesma forma que o teve no património urbano.
Há (por isso) muito a fazer. O loudel de D.João I, o Castelo de Guimarães, a Igreja da Oliveira são símbolos identitários. A indústria que deu a Guimarães o desenvolvimento económico durante os últimos séculos é ela também um símbolo importante da nossa identidade. E isso deve ser assumido e, acima de tudo, devem dar-se os passos necessários para defender e preservar esse património.

Rui Vítor Costa


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