Vestir um carro

Nunca fui de carros. Na adolescência assisti ao frémito com que os meus amigos mais velhos encaravam os 18 anos e o tirar a carta.

Tudo no mundo deles parava para se concentrarem nessa tarefa e, logo depois, na melhor estratégia de convencer os pais a darem-lhes um carro ou a emprestarem-lhes um carro. Além do estatuto que o carro dava ao jovem que o conduzia, era possível fazer duas coisas muito importantes que constituíam, na altura, uma espécie de iniciação à idade adulta: fazer piões e namorar no carro. Tenho 56 anos e nunca fiz nem uma coisa nem outra. É provável que nunca o venha a fazer. Mas nunca se sabe.

Enquanto jovem sempre adoptei, em relação a este particular assunto, a filosofia imbatível e sensata do marinheiro ocasional: nunca compres um barco, sê, porém, muito amigo do dono de um barco. E sempre assim o fiz. O primeiro susto que apanhei deveria ter para aí 16 anos. Ia no lugar do pendura a ser conduzido por um amigo meu de 14! É verdade. Eram tempos magníficos em que não havia este protecionismo doentio dos dias de hoje. Atualmente miúdos de 14 anos são conduzidos pelos pais à escola para não apanharem frio pelo caminho e mesmo até à entrada da escola não vão eles, coitados, perderem-se. Naquela altura, miúdos de 14 anos iam à farmácia, a pedido da mãe, conduzindo um carro. Apesar da curteza do trajeto íamos morrendo. Com estrada de paralelo molhada e ainda com a falta de experiência compreensível do condutor, apesar da muita prática que esse meu amigo tinha em tirar e meter carros da garagem para que os adultos não tivessem a extenuante maçada de o fazerem, o Fiat 850 escorregou na curva e vi-me por uma fração de segundo a entrar entre os enormes pneus da frente e os pneus de trás de um camião de carga altíssimo. Ele conseguiu controlar a coisa. Fomos à farmácia e não falámos nem na ida nem na vinda. Como éramos - e ainda somos - ambos gagos, isso poupou-nos imenso tempo. Acabámos o dia a ouvir três álbuns seminais que eram a nossa religião da altura: Colossal Youth, Remain in Light e Closer. Caladinhos no diálogo, mas a trautear aquelas letras que conhecíamos de cor.

O meu lado feminino manifesta-se muito nos carros, em particular na mecânica. Não percebo nada daquilo. Falarem-me de junta da colaça ou de problemas no distribuidor tem para mim a estranheza e o desconhecimento que possuo sobre a literatura birmanesa. Provavelmente existirá, mas dela nada sei e, em bom rigor, dela não quero saber. A acrescer a isso nunca consegui casar os meus 4 carros com o meu estado de espírito da altura.
O meu primeiro carro, um Wolkswagen Golf, apanhou-me na transição entre o fim do curso e o começar a trabalhar. Eu ainda queria estar no mundo de onde vinha e o carro não era assim tão divertido como eu me sentia. Com ele atravessei o meu entusiasmante serviço militar obrigatório em Mafra e depois na cidade de Chaves, e o meu chorudo salário de oficial miliciano ia todo para o gasóleo. E ainda ficava curto. Depois começaram-se a acender luzes no tabliê. Ao contrário do casino, quando se acendem luzes num carro é sempre mau sinal. Depois, com as minhas primeiras filhas pequeninas, veio a necessidade de volumetria e com ela uma carrinha Citroën ZX, um bocado para o feiinho. Qualquer viagem requeria a preparação, o método e a complicada operacionalidade de uma companhia militar que se desloca de um ponto para outro. Esse foi o meu pior carro. Tinha aquele ar de pandeireta de feira que se vai desfazer a qualquer momento. E atreita a doenças. Os únicos dois furos que tive na vida foi precisamente com essa carrinha. No meu primeiro furo, de manhãzinha na circular de Fafe, recusei investir-me das habituais posturas: o ar aflito e suplicante de uma mulher ou o ar resoluto de um homem que sabe de tudo. Para não ceder aos estereótipos refugiei-me no meu melhor lado intelectual e pus-me a folhear o livro de instruções do carro sentado na berma da estrada com ar compenetrado. Como sou um gajo de sorte passou um ciclista que me perguntou se queria ajuda. Eu queria naturalmente e ele resolveu-me a situação. Paguei-lhe claro. E de forma generosa suponho, pois ele desapareceu tão rapidamente como havia aparecido antes que eu me arrependesse de o ter assim gratificado. Seria um anjo? O segundo furo foi perto de uma garagem. Sorte novamente. Quando comprei o meu terceiro carro, um Opel Vectra de mudanças automáticas, senti que aquele é que era efetivamente o meu carro. O Vectra não era arrogante e ostensivo como um Mercedes ou um BMW e, comparado com carros da mesma gama, tinha uma data de tecnologia absolutamente brilhante que arrasava qualquer outro: tinha saltado com notável elegância da cassete para o excitante mp3. Senti que aquele seria, finalmente, o meu carro. No entanto as mudanças automáticas vinham doentes e os mecânicos que estavam na transição entre o pano sujo e o computador nunca conseguiram resolver o problema, apesar da formação profissional que a contragosto frequentavam. Quando um dia entrei no compacto tráfego da cidade de Madrid em modo manual, apenas com a segunda e com a quinta como disponíveis mudanças, pressenti que era o seu fim. E foi. Como um cão fiel que sofre mandei-o abater e cheguei então à viatura que tenho há 12 anos, um Volvo S80. Confiável e tranquilizador são adjetivos que lhe assentam. Mesmo assim, no início, havia um fio solto no motor de arranque que me deixou algumas vezes apeado. E não foi nenhum computador que resolveu o assunto foi um mecânico com um pano. A partir daí confiança e fiabilidade total. Comprei-o quando tive a fantástica epifania de sair da política. Deixei nessa altura de ter o ar grave e sério de um candidato para abusar das calças de ganga e das sapatilhas. Ou seja, mais uma vez, o carro não batia certo com o meu espírito. Quando quero parecer mais novo tenho um carro que me acrescenta idade e gravidade. O que, diga-se, dispenso.

O homem é um ser básico e previsível. Os carros são a sua maneira de dizer: olhem para mim! E muitos fazem igualmente isso com as mulheres. Sempre à procura de um modelo mais novo. Há quem assegure ser isto biológico no homem: trocar de carro, trocar de mulher. Eu, pelo contrário, acho isso um pouco estúpido. Continuo, ainda assim, esperançado em encontrar o carro da minha vida. Mas nunca acerto o modelo com o meu calendário espiritual. Acertei na mulher. Vá lá. Sou um gajo com sorte.
Ora entra aí para sentires o meu carro novo e falarmos de gajas. E, quem sabe, fazermos um pião.


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