As ameaças à Democracia

A propósito da realização, neste fim de semana, do congresso do partido de André Ventura dei-me, sem dar por isso, a reflectir sobre as ameaças que, um pouco por todo o lado,

grassam contra os regimes democráticos e sobre a sua persistente resiliência.

Em jeito de conforto, veio-me ao pensamento, a célebre frase atribuída a Winston Churchill, o primeiro-ministro responsável pelo governo do Reino Unido durante a segunda grande guerra, de que “A democracia é a pior forma do governo com exceção de todas as demais”.

Torna-se caricato, na verdade, que um regime, fortemente caracterizado pela liberdade, possa, por essa mesma razão, permitir dentro de si a germinação de forças capazes de deitar mão de quaisquer meios que o possam destruir.

A História e a Sociologia trazer-nos-ão, com certeza, explicações consistentes para estes fenómenos que, tendo sido característica de movimentos da extrema-esquerda nos anos sessenta e setenta do século passado, passaram, no princípio deste século, para movimentos de extrema-direita.

Têm quase sempre mentores especialistas na arte da dialética, conhecedores das melhores formas e métodos para instrumentalizar os espíritos, de modo especial dos menos acautelados e dos mais fragilizados, deitando quase sempre mão de argumentos com base em premissas falsas ou então em meias-verdades.

A este propósito, ouvíamos há dias, o doutor Ventura afirmar, com grande convicção, que ele próprio havia sido julgado em meia dúzia meses enquanto o ex-primeiro ministro, José Sócrates, está há mais de seis anos para ser julgado.

Para os mais incautos, ouvir afirmações como estas, pode levar a darem-lhe razão. Mas claro que se trata de pura e simples demagogia. Julgar a gravidade de afirmações públicas como as por si proferidas, eventualmente caluniosas, amplamente divulgadas pelos meios de comunicação social, não tem nada a ver com julgar situações de grande complexidade, envolvendo corrupção, lavagem de dinheiro, dezenas de intervenientes e ocorrendo em vários países.

Mas é usando habilidades tão simples como esta que vão conquistando terreno e engrossando as suas fileiras, sobretudo com gente descontente com a classe política, que está farta de assistir ao aproveitamento de alguns servidores do estado.

Na verdade, os principais algozes da democracia, são todos aqueles que no quotidiano vão regando as sementes dos extremismos que vemos germinar no seio das nossas comunidades.

São aqueles protagonistas da actividade política que, confundindo a nobre missão de serviço à comunidade que deverá constituir a sua função política, usam o poder neles confiado pelo povo no acto eleitoral para alcançar enormes benefícios pessoais. Sejam eles de enriquecimento pessoal, de empregos qualificados para os familiares e amigos, de acesso fácil às torneiras do orçamento público, etc.

São aqueles que abastardam a democracia prestando-se aos mais reles actos de adulteração do jogo democrático, prostituindo-se em prol da concretização de objectivos, alguns até, muito respeitáveis, mas que jamais justificariam tais actos.

São aqueles que, entrando na actividade política pobres ou remediados saem, alguns anos depois, com largos sinais exteriores de riqueza, ou à frente de grandes empresas ligadas ao sector empresarial do estado que por essa razão gostam de engrossar, ou à frente de grupos empresariais privados com os quais, nas funções políticas antes desempenhadas, concretizaram negócios ruinosos para os contribuintes.

Finalmente, acabamos por ser também um pouco todos nós, que assistimos passivamente ao desenrolar e crescimento destes fenómenos e que, por razões de vária natureza, não quebramos o comodismo e conforto das nossas posições denunciando estes alimentos dos inimigos da democracia.

Guimarães, 1 de Junho de 2021
António Monteiro de Castro

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