Capela da Senhora da Conceição é "uma jóia" de Guimarães e "precisava de ser salva"

A magnífica capela de Nossa Senhora da Conceição está a recuperar o esplendor original. A primeira fase das obras de conservação e restauro está prestes a ficar concluída, garantindo a salvaguarda daquele monumento valioso, no conjunto do tesouro do património artístico vimaranense.
"Volvidos dois anos de trabalhos de restauro especializado, a componente arquitectónica do templo está salvaguardada, o que era fundamental para travar a ruína que ameaçava esta jóia de Guimarães", realça Manuel Bessa, membro da Fábrica da Igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, responsável pelo acompanhamento do processo de recuperação daquela capela.
"Os telhados, as paredes, a torre sineira, a sacristia estão renovados", continua, ao apontar dar conta que a primeira fase obrigou ao investimento de 370 mil euros, dos quais 350 mil foram assegurados pelo subsídio atribuído pela Câmara Municipal de Guimarães, assim como o acompanhamento da obra através do "incansável trabalho e dedicação da sua técnica, a arquitecta Teresa Costa". "O restante montante foi a paróquia que angariou", observa Manuel Bessa, agradecendo os donativos recebidos de pessoas comuns e ainda uma verba dos velhos nicolinos que subsidiaram a intervenção com 2 mil euros no ano passado. "Este ano, já fui contactado que também vão garantir esses dois mil euros", refere, visivelmente, grato pela colaboração.


Para avançar para a segunda fase, a Fábrica da Igreja da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição precisa de uma quantia ainda mais avultada. "São necessários à volta de 400 mil euros", informa o responsável, ao esclarecer que no passado mês de Setembro, a paróquia submeteu nova candidatura ao programa comunitário Norte 2020, em parceria com a Câmara Municipal de Guimarães. "Estamos ansiosos à espera do resultado, temos fé que vai ser aprovada para que todo o património artístico da capelinha de Nossa Senhora da Conceição seja recuperado", afirma Manuel Bessa, ao apontar "os azulejos que estão num estado lastimoso e carecem de uma intervenção urgente, porque as peças correm o risco de cair e partirem-se". "É uma dor de alma, precisam de ser protegidos", insiste, constatando: "a capela em si salvou-se, já não cai, mas aquela jóia de Guimarães é muito valiosa e precisava de ser salva. Agora, temos o interesse de continuar a zelar pela protecção de todo o tesouro monumental, com a devida recuperação de todo o património artístico".


Além do património azulejar que é de uma riqueza incalculável, a capela possui um órgão ibérico que exige um restauro especializado que custa cerca de 80 mil euros, a talha dourada do altar-mor e todos os altares laterais. "O restauro especializado deste património artístico exige um investimento de 400 mil euros e se a candidatura ao Norte 2020 for bem sucedida, permitirá custear 85 por cento do orçamento a fundo perdido, estando o restante montante ao nosso alcance atingir e assim concluir a intervenção na capela", salienta, ao revelar que todo o património da capela foi alvo de um levantamento exaustivo por parte das técnicas da Direcção Regional de Cultura Norte. "Só esse trabalho permitiu compreender a dimensão e o valor que o monumento encerra. Tem um valor histórico, cultural, material e imaterial, e é de importância extrema não só Guimarães como para Portugal", observa Manuel Bessa, ao frisar que os responsáveis da Fábrica da Igreja Paroquial "sentiram ainda mais força para concretizar a obra".
"Só estaremos totalmente contentes quando toda a intervenção estiver concluída. Vamos aguardar o financiamento do Norte 2020 para a recuperação integral da capela. Não desanimamos, continuaremos a envolver várias entidades para que o restauro qualificado seja possível", asseverou, sem esconder o contentamento pela evolução registada nos últimos anos. "A nossa intenção é que a capela venha a integrar o roteiro turístico de Guimarães", prosseguiu, confiante de que por ocasião da Romaria de Nossa Senhora da Conceição, a 8 de Dezembro, as pessoas já possam visitar o monumento. "Está irreconhecível, mas há ainda muito trabalho a fazer", acrescenta, observando que "há muitos anos, muitos cidadãos procuraram recuperar aquela capela, porque sabiam que era necessário esse esforço, tentaram e não conseguiram... E agora finalmente estão a ser dados passos que permitem salvar a capela, graças ao apoio da Câmara Municipal de Guimarães e à sensibilidade dos políticos de Guimarães porque o apoio financeiro foi consensual pelo Executivo".
Paralelamente está a decorrer uma campanha de angariação de fundos através da hiperligação: https://www.gofundme.com/f/azulejos-da-capela-de-nossa-senhora-da-conceicao?fbclid=IwAR1pEeW9rAqehQGKHpe-KXNOrpt65Q2g3RFb3dBDGam6FGG3iyxgEorFvKE.

Um tesouro do património
artístico vimaranense

As Nicolinas com as tradicionais novenas e a romaria de Nossa Senhora da Conceição, a 8 de Dezembro, são as manifestações culturais que mais contribuem para a dinamização da capela, cujo espólio artístico constitui um dos "tesouros" de Guimarães. Os azulejos, a talha dourada, as pinturas são preciosidades que remetem para a importância que o templo teve para os nossos antepassados.
A capela de Nossa Senhora da Conceição terá sido construída no século XVII e XVIII. A nave é revestida por um conjunto de azulejos que representam episódios do Velho Testamento, nomeadamente cenas do Cântico dos Cânticos.
O inventário da Direcção-Geral do Património refere que a "sua autoria tem vindo a ser atribuída ao monogramista P.M.P., o pintor de azulejos de nome desconhecido, cuja obra se integra no intitulado «Ciclo dos Grandes Mestres», não tanto pela sua qualidade, mas principalmente pelo carácter decorativista, que tanto irá influenciar os pintores subsequentes. Estes azulejos relacionam-se com outros atribuíveis ao mesmo autor, existentes na cidade de Guimarães, nomeadamente, na Igreja das Capuchinhas e na igreja de São Dâmaso.
O púlpito, de talha dourada, encontra-se na parede lateral do lado da Epístola. No tecto, os caixotões brancos representam doze cenas da Vida da Virgem já estão a ser restaurados.

Um arco triunfal de volta perfeita, ladeado por dois altares dedicados a São Francisco e a São Caetano, permite o acesso à capela-mor. Esta, apresenta tecto apainelado, de talha policromada, com linguagem decorativa de forte pendor naturalista na representação, e movimentação, das folhas de acanto. A sua execução deverá remontar a 1700, inserindo-se no denominado estilo nacional
Por sua vez, o retábulo-mor, embora muito modificado, apresenta características ainda maneiristas. Este retábulo deveria compreender a representação da Árvore de Jessé, entretanto desaparecida, e a figura da padroeira da capela, que se conserva.


Marcações: património, obras, Capela de Nossa Senhora da Conceição, restauro

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