ENTREVISTA: "getDigital - uma Academia com ambição internacional a partir de Guimarães", revelou António Cunha

A Academia getDigital vai ser apresentada esta sexta-feira durante a reunião do Conselho Consultivo para a Economia. Trata-se de um projecto para responder às exigências da economia pós-pandemia como revelou António Cunha, ex-Reitor da Universidade do Minho e responsável pelo Gabinete de Crise para a Transição Económica, numa entrevista recente publicada no jornal O Comércio de Guimarães que aqui reproduzimos.

O Comércio Guimarães - O que o levou a aceitar o convite para liderar o Gabinete de Crise para a Transição Económica?

António Cunha - É um desafio quase irrecusável, tendo em conta o actual contexto específico que atravessamos na região em que Guimarães está inserida, em Portugal, na Europa e no Mundo. Mas, também devido a todo um passado de grande relação e cumplicidade entre a Universidade e as autoridades municipais. Felizmente que, há muitos anos, Guimarães tem tido uma estratégia de desenvolvimento muito ancorada na sua relação com a Universidade, nas parcerias com a Universidade, com resultados conhecidos. Era praticamente irrecusável o desafio feito pelo Presidente, Domingos Bragança, de encontrar algumas respostas à crise conjuntural e quer, sobretudo, preparar o futuro a partir de uma aposta na ciência, no conhecimento e numa relação que se pretende ainda mais forte entre o tecido económico-produtivo e as estruturas de investigação e de desenvolvimento tecnológico.

CG - Qual é que tem sido o trabalho do Gabinete de Crise?
AC - O Gabinete tem a designação de Crise e para a Transição Económica, mas esperemos que dentro de pouco tempo possa mudar de nome e passar a chamar-se Gabinete para a Transição Económica e não mais Gabinete de Crise, porque é uma questão que entendemos como conjuntural.
O contexto em que vivemos está associado a uma crise sanitária que certamente já atingiu a sua fase mais crítica e teremos uma crise económica séria, profunda, que em vários países do mundo, nomeadamente nos EUA já está a ter um impacto maior do que a crise de 2009/2011, com efeitos no desemprego, mas também na destruição de muitas empresas.
Esta crise é diferente porque quando acabar e começarmos a entrar no período de recuperação - que alguns estimam já a partir de meados do próximo ano - as coisas não vão ser como eram, vão ser diferentes. Esta crise provocou a alteração de hábitos no consumo e no modo como se fazem negócios. A partir de agora, tudo o que são relações quer institucionais, pessoais, comerciais vão ser mais mediadas por plataformas electrónicas, as deslocações não vão ser o que eram, as pessoas vão comprar mais electronicamente do que presencialmente. Há uma série de mudanças que vão acontecer e é preciso estarmos preparados, encontrando os posicionamentos novos que as organizações terão nesse novo contexto. É um dos grandes desafios que temos.
O Gabinete teve já um conjunto de acções de curto prazo, pontuais, a maior parte delas por parte da Divisão Económica da Câmara Municipal, de apoio ao pequeno comércio e às empresas, quer a ajuda que está a ser fornecida para as empresas acederem a fundos públicos e aos apoios dados a nível governamental. Outra medida que a Câmara está a desenvolver para oferecer ao micro-comércio de Guimarães e à restauração é uma plataforma electrónica de acesso gratuito às empresas do Concelho para poderem interagir com os seus clientes de uma maneira electrónica e não presencial. Foi aberto um concurso e está em vias de ser adjudicado e estará em breve a funcionar.
Tivemos um conjunto de acções específicas que tiveram impacto em meados de Abril, na ajuda tecnológica a empresas têxteis e de calçado que tentavam certificar produtos de protecção individual, como máscaras, batas... Agilizamos iniciativas numa colaboração mais estreita com a Universidade, a Fibrenamics produziu alguma informação de boas práticas. E tudo isso que hoje parece ultrapassado, há um mês constituía uma enorme preocupação.
Temos outra medida, a Via Verde Escola de Engenharia, na qual estamos ainda a tentar criar canais mais ágeis de relação entre o tecido económico, a Universidade do Minho e o Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA) que também vai ser parceiro no projecto.
E há vários projectos a nascer, com grupos de empresas de Guimarães, que estão a ser promovidos pelo Gabinete em áreas consideradas estratégicas e que brevemente anunciaremos. Teremos projectos colaborativos em áreas centrais da transição digital, ligadas à robotização, à fábrica do futuro, ao comércio electrónico, à logística inteligente e aos dispositivos médicos.
O papel fundamental do Gabinete não é a dimensão de gabinete de crise, mas para a transição económica e estamos apostados em lançar um conjunto de projectos que sejam transformadores, estruturais para a transição económica.

CG - Este plano de acção já estava a ser desenvolvido antes de sermos apanhados desprevenidos pela pandemia, nomeadamente através do Colab DTx?
AC - Sem dúvida. A pandemia apanhou o tecido produtivo, as empresas industriais ou comerciais, no meio de duas transições. Em Janeiro, a indústria portuguesa e europeia confrontava-se com os desafios da transição digital, de uma digitalização, de alguma desmaterialização da economia, sobretudo do crescimento da componente de serviços ligados aos diferentes produtos fabricados, mas também a questão da transição para um contexto de maior sustentabilidade ambiental e de racionalização energética.
Nos últimos três meses, o mundo mudou e as empresas que estavam mais maduras nesses processos, nessas transições, suportaram melhor a crise, reagiram melhor à crise, tiveram maior capacidade de adaptação e já saem melhor deste tempo complicado que vivemos nos últimos meses.
No pós-pandemia, por tudo aquilo que já conhecemos que será a economia pós-Covid-19, essas transições já serão ainda mais importantes e ganham ainda mais pertinência. Já falamos numa economia de 'baixo contacto', em que é minimizado o contacto entre pessoas e entre pessoas e objectos e isso traz do ponto de vista tecnológico muitos desafios que passam muito por soluções digitais. No curto prazo, começaremos a substituir o pagamento com cartões por soluções mais desmaterializadas, com soluções através do telemóvel.
No Dtx, estamos muito envolvidos no desenvolvimento de soluções tecnológicas industriais para o ramo automóvel que evitem o contacto, mas que podem ser adaptadas para outros contextos.
Outra questão que percepcionamos como de grande potencial no pós-Covid para o Portugal industrial, onde está Guimarães, é a mudança de posicionamento do que pode ser a indústria na Europa. Os últimos meses permitiram perceber que há uma dimensão mínima de capacidade industrial que a Europa perdeu e que deve ser considerada quase como soberania nacional e os países não podem viver sem ela. Tenho a expectativa de que vamos entrar num novo período de reindustrialização, com uma nova indústria, mais digital, mais sustentável ambientalmente, mas a ideia de que no Mundo, a Europa é uma zona de serviços, de turismo, de lazer e de qualidade de vida, e que a fábrica do mundo é a China é uma ideia que deve ser posta em causa, abrindo para um novo ciclo de reindustrialização, onde toda a região e Guimarães terão uma palavra a dizer.

CG - Perante a emergência do novo ciclo económico, o desafio terá de ser acompanhado pelo investimento nas competências? É preciso pessoas qualificadas para esse processo?
AC - O nosso Plano de Acção a médio prazo inclui 10 medidas dividas em três grandes grupos: agendas estratégicas (motivacionais e mobilizadoras dentro dos aspectos críticos neste contexto, a internacionalização, o empreendedorismo, o digital, a inovação, acções mais imateriais), acções infraestruturais para dar ainda mais capacidade à região para o desenvolvimento de projectos ambiciosos no domínio da inovação e da inovação industrial, e um terceiro pilar essencial que é o do talento, do desenvolvimento de capacidades e de formação, onde temos uma aposta muito forte, desde logo pela colaboração das instituições de ensino superior em que estamos, mas teremos um projecto novo que terá a Câmara, a Universidade do Minho e o IPCA que é a chamada Academia Digital - getDigital - com uma ambição muito internacional centrada a partir de Guimarães para cobrir essa aposta de formação numa lógica muito complementar às instituições de ensino superior, com cursos complementares, na linha daquilo que já se percebeu que será o futuro, com cursos de média duração, curtos, dirigidos a pessoas jovens, mas também que sirvam de formação complementar às pessoas que estiveram na Universidade ou no Politécnico e querem fazer formação ao longo da vida, mas uma formação articulada com as instituições de ensino superior e que possa ser creditada por elas. É um projecto com grande ambição para Guimarães no domínio das competências digitais. Além do foco nas dimensões tecnológicas para a indústria, comércio e economia, teremos ainda outras duas complementares, de alcance social significativo: Digital para a Cidadania (tentando ir ao encontro das necessidades da população mais sénior de integração tecnológica) e outra aposta de futuro que é o Digital Kids (para desenvolver as competências digitais na população mais jovens).
A Academia Digital será a nova aposta de Guimarães num modelo económico ainda mais digitalizado e moderno do ponto de vista tecnológico, no qual as pessoas e as suas competências terão ainda mais centralidade.

CG - É um projecto que ficará sedeado num campus universitário ou terá instalações independentes?
AC - Neste novo mundo, a questão das instalações e do físico é uma abstração.

CG - A Câmara Municipal tem sinalizado um edifício em Pevidém tendo em vista a instalação de uma Academia Digital?
AC - A Academia chama-se 'Digital' por duas razões: as suas áreas de formação serão centradas muito nas tecnologias digitais, embora dada a formação sobre outras tecnologias de interesse industrial e ligadas a processos de automação industrial e de outro tipo, há um foco nas tecnologias digitais e serão essas o âmbito dos cursos que a Academia dará; mas a Academia também se chama digital porque vai ser muito suportada por plataformas digitais e de ensino à distância, tecnologias que misturam a chamada realidade mista, que mistura a realidade virtual com um mundo real. A academia será muito inovadora a esse nível e parte significativa da actividade será não presencial.
A Academia não deixará de ter instalações físicas. Arrancará a muito curto prazo com acções, já em Setembro, no espaço virtual, e depois com instalações que serão provisórias em sítio que ainda não está definido, mas a médio prazo e a prazo, do ponto de vista estrutural, o objectivo é situar a Academia num centro que estará baseado na Fábrica do Alto, em Pevidém. Que terá um conjunto diverso de infraestruturas ligadas ao digital na indústria e haverá várias entidades que estarão a dar massa crítica a esse centro, nomeadamente algumas entidades da Universidade do Minho que trabalham nessa área, o domLab, o Laboratório 3D que está a crescer e precisa de instalações, o DTx que precisa de instalações definitivas, mas haverá também outras estruturas, nomeadamente de demonstração de soluções tecnológicas ligadas ao conceito de 'fábrica do futuro' e esse será o espaço ideal para ter também a Academia Digital porque é um espaço de grandes dimensões e pode acolher todas essas iniciativas que são estruturantes neste plano de transição económica para Guimarães.

CG - É um plano que não é alheio à realidade que enfrentamos: parece que o futuro irá determinar como inevitável a conciliação entre o que é presencial e o que é virtual?
AC - Esse é um dos novos paradigmas. Já todos percebemos que o ensino mudou, mas os negócios também vão mudar, passarão a fazer-se em reuniões à distância, hoje, ainda com pessoas reais a falarem. No futuro, poderemos ter mesmo contactos com entidades virtuais e assistentes electrónicos que nos podem fazer uma demonstração de um produto que pretendemos comprar ou vender. Nesta linha, também estamos a trabalhar com algumas empresas de Guimarães, para termos cada vez mais processos como discussões comerciais ou técnicas no âmbito da actividade empresarial baseadas em realidade virtual, em que várias pessoas em diferentes sítios do mundo poderão discutir sobre um produto, seja ele uma peça de vestuário ou um componente tecnológico, como se tivessem o produto mão, mas ele é uma coisa virtual, que está no ar e todos os vêem, mas pode até ser um produto que não existe. A sobreposição entre o real e o virtual vai ser algo que vai tornar-se omnipresente nos próximos tempos.

CG - Guimarães é um concelho com uma tradição empreendedora. Este é um tempo de oportunidades?
AC - É um tempo de mudança e de oportunidades para aqueles que as souberem aproveitar. Desde logo, de uma nova ordem internacional do ponto de vista do comércio, das grandes relações entre os blocos económicos, que não sabemos muito bem ainda como é que vai ser, mas percebemos que vai ser diferente a relação entre a Europa e a China, a relação entre a América do Norte, a China e a Europa não vai ser a mesma e há uma grande oportunidade de reindustrialização.
As cadeias de fornecimento, nomeadamente na indústria automóvel que eram cadeias muito estruturadas, muito marcadas por uma lógica hierárquica dos grandes fabricantes internacionais, isso de algum modo está a ser alterado e também cria oportunidades para a entrada de novos actores nessa ordem.
Os negócios fazem-se de modo diferente, as estruturas comerciais deixaram de se o que eram e estão muito baseadas por apostas em plataformas electrónicas que só podem estar integradas com os sistemas de informação das empresas e assim poderem as próprias empresas fazerem as suas ofertas comerciais automaticamente a partir das suas bases de dados. As oportunidades existem para quem souber apanhar o comboio da digitalização, de uma nova forma de fazer negócios e de uma nova forma de desenvolver novos materiais, novos produtos e novas soluções, no qual a colaboração mais activa e mais efectiva entre os parceiros do lado industrial e as entidades do sistema científico e desenvolvimento tecnológico ganham também uma centralidade e uma importância acrescida.

Tecnologias aeroespaciais
na Fábrica do Arquinho

Durante a entrevista, António Cunha assumiu que o Plano de Acção do Gabinete de Crise para a Transição Económica perspectiva no horizonte acções a desenvolver nos próximos três anos, salvaguardando: "o Gabinete é uma estrutura que trabalha numa articulação total, diária, com o Presidente Domingos Bragança, a quem competirá dizer até quando vai funcionar".
A refuncionalização da Fábrica do Arquinho também integra as prioridades da nova ordem económica em Guimarães, onde poderá ser instalado "um projecto importante por abrir novas perspectivas para Guimarães, um centro de tecnologia complementar, num espaço adicional do eixo de Couros que vai, no curto prazo, beneficiar de uma obra que era central em todo o complexo - o Teatro Jordão/Garagem Avenida". "Na Fábrica do Arquinho, haverá um centro ligado às tecnologias aeroespaciais e à ciência das fibras, com o projecto Fibrenamics onde perspectivamos uma área de novos espaços de oportunidade para uma nova indústria de Guimarães e da região", afirmou.

Texto publicado na edição de 3 de junho de 2020, do jornal O Comércio de Guimarães.


Marcações: Guimarães, Gabinete de Crise para a Transição Económica, getDigital

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