Legítima vaidade

São muitas as razões para que eu, tal como a generalidade dos vimaranenses, me sinta orgulhoso da cidade em que vivo.


Apesar das restrições que a atual situação sanitária impõe, e daquelas que, mesmo sem imposição, são aconselháveis, continuo a fazer a minha caminhada que, não sendo diária anda muito perto disso, pois raro é o dia em que a não faça. Assim acontece vai para 15 anos, remédio que, juntamente com outros retirados da química, me foi prescrito como um dos que poderão evitar que volte a ser acometido, sabe-se lá se definitivamente, do mal que então me acometeu e do qual me fez sair, praticamente indemne, a excelência dos técnicos e técnicas que, de modo profissionalissimamente atento e eficaz e – não menos importante – ao mesmo tempo terno e humano, dão o seu melhor para preservar vidas que, presas por um fio, tantas vezes pouco mais que frágil filamento de teia de aranha, chegam ao oitavo piso do Hospital Senhora da Oliveira.

Quando recordo a causa dessas minhas deambulações, não deixo de lembrar a reprovável atuação de quem tem impedido que no serviço de cardiologia do nosso hospital não esteja ainda a funcionar a ala de diagnóstico e tratamento de última geração com que foi apetrechado por benfeitores, a quem aproveito para, como vimaranense, agradecer a benfeitoria, dotando essa ala de moderníssima maquinaria de ponta para cuja operação foram propositadamente especializados médicos e outros profissionais de saúde.
Voltando ao orgulho que me levou até às tais caminhadas, tem ele a ver com a constatação que, durante elas, tenho feito da generalizada adesão dos vimaranenses ao apelo lançado para o uso de máscara sanitária em lugares públicos e guarda de prudente distância quando em momentos de convívio.
Efetivamente verifico que a quase totalidade dos transeuntes com que cruzo, vão eles sós ou acompanhados, estão de máscara colocada ou, se em rua de muito pouco movimento, a trazem na mão e a colocam assim que preveem cruzamento com outra ou outras pessoas.

Este tempo tenebroso que é o nosso, em que maus exemplos de civismo, de convivência, de respeito pelo próximo, de negativismo irracional, são dados até por chefes de estado de nações que nos habituáramos a respeitar, cujo expoente é essa espécie de candidato a autocrata, armazém e aspersor de ódios, conflitos e desamor à humanidade que é Donald Trump, presidente de uma América em que mais de metade dos americanos se não reconhece, pois foi eleito com menos três milhões de votos do que a sua concorrente à presidência, tempo desgraçado este em que irrompem conflitos de toda a natureza – rácicos, de género, religiosos, políticos – causadores de atos de violência que não é preciso recuar muito no tempo para que os tivéssemos por impensáveis, este é também um tempo em que existe gente que tenta, por mais absurda que a tentativa seja, difundir a ideia de que não existe pandemia, que tudo não passa de uma histeria provocada por setores, sobretudo económicos, com vista a colherem benefícios do receio daquilo que, dizem, não passa de uma gripe como outras que já tem havido, apenas algo mais intensa e mortífera que o habitual. Então, argumentam, não morrem todos os anos milhares de pessoas por causa da gripe, sem que se caia neste exagero de limitar a circulação, obrigar ao uso de máscara, ao fecho ou redução drástica de determinadas atividades económicas?

E assim argumentando sujeitam os seus semelhantes ao criminoso comportamento de agirem sem qualquer respeito pelas mais elementares regras de cuidado e prudência cientificamente comprovadas como suscetíveis de contribuírem para diminuírem a incidência do mal e evitarem muitas das mortes que ele provoca.
É com incredulidade que oiço tais afirmações e vejo tais comportamentos, aparentados com a negação do holocausto e das alterações climáticas, um e outras exuberantemente documentados, histórica e cientificamente certificados, incredulidade semelhante àquela com que ouviria alguém dizer que o sol e a lua não existem e com que sei haver, nestes tempos de viagens extra terrestres e observação local ou próxima dos astros do sistema solar, quem afirme, convictamente, que a terra é plana.

Pois, meus caros leitores, é com júbilo que vejo a adesão dos vimaranenses ao mais adequado comportamento nesta perigosa época em que estamos expostos a doença altamente contagiosa e facilmente letal, mais um motivo para me orgulhar, não só desta terra em que vivo, mas principalmente da comunidade que a povoa, à qual pertenço e me permite, quando me perguntam de onde sou, responder, cheio de legítima vaidade – sou de Guimarães.

António Mota-Prego
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Guimarães, 29 de setembro de 2020


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