IA

(“A robot whrote this entire article. Are you scared yet, human?
The Guardian, 08.09.2020)

 

O Universo é, no consenso algo generalizado do mundo científico dos dias em que estamos, uma sequencialidade consequente que, tendo tido a sua génese num estado primário de equilíbrio, de sem espaço-tempo, degenerou numa implosão de quase instantânea expansão de dinâmica evolutiva com espaços e tempos que, entre outras infinidades de conjuntos, adveio a esta espécie que somos.
Espécie animal terrena recentíssima no computo do percurso antecedente e que é, na relatividade de cada processo singular em si, nele e como em todos os massivamente existentes, delimitada nessas unidades entre a sua constituição e a sua diluição. No que nos toca como pessoas, entre o nascimento e a morte. Sem se poder esquecer que o dito nosso nascimento não é mais do que uma etapa da continuidade da fecundação do óvulo materno pelo espermatozoide paterno. E que eventualmente, por ser essa a sua única razão processual, se incrementará de igual forma em progressão genética.


Assim, tudo o que é real, o que existe, provem daquele instante primeiro. Seja cada um de nós, seja a própria espécie que se enraíza até ao LUCA (last universal common ancester). E que este, o LUCA, aconteceu neste nosso planeta que, por sua vez, se insere num sistema solar de uma galáxia entre os muitos milhares de outras e outros corpos celestes que constituem aquele Universo; que compreende ainda a apelidada matéria negra.

Nesta perspectiva de uma evolução universal, galáctica, solar e terrena, o conceito de vida aparece como referenciado a uma complexa agregação de partículas massivas elementares, que, formando sucessivamente compostos cada vez mais imbricados, deram origem a seres biológicos específicos, ou que consideramos como tais nas suas ramificações animais. Esquecendo-se, ou isso parecendo, de o denominador comum de toda a Matéria; isto é, dos tijolos com que ela se edifica e que, escassíssima dezena e tal para já, são sempre os mesmos no todo do seu absoluto.

Mas, voltando aos humanos, parece perceptível que as suas condições anatómicas esgotaram a possibilidade de novas aptidões sensoriais e, mesmo, de incremento cerebral; malgrado a especialização dos saberes permitir que, em cada um dos sectores em que ela se decompõem, se aumente o conhecimento e subsidiariamente as técnicas. Tendo assim de se reconhecer que, para o desenrolar da espécie, esta foi-se dotando de artefactos que, da pedra (madeira e osso), passaram ao bronze, ferro e por aí fora, numa sequente complexidade que, neles, explodiu com a aplicação de fontes energéticas não humanas (da hídrica à eólica, para os posteriores grandes saltos: o do vapor, o da electricidade, o do petróleo, o atómico, o solar e tudo o que se lhes poderá seguir). Em suma, numa tecnologia que, dos mais rudimentares instrumentos cresceu até aos mais sofisticados: da robótica à inserção de formas de inteligência neles.

Assim, não faz muito sentido nomear de inteligência artificial aquilo que não passa de um avanço natural do conhecimento e da prática humana; da criação de cousas que vão sendo dotadas de capacidades animais, e em concreto as da nossa espécie. Cousas que, entretanto, não são artificiais, por serem apenas matéria como toda a demais e o resultado duma progressiva dinâmica evolutiva; dinâmica para que, aliás, poderão mostrar-se potencialmente muito mais habilitadas para a prosseguir.

Só que, na imprevisibilidade de o melhoramento da auto-suficiência e da auto-reprodução dessas cousas, de como evolucionarão a partir do que já atingido e da imposição de não fugirem à dominação humana (se é que esta condicionante é, ou ainda é, possível - de recordar o pessimismo de Stephen Hawking -), não seria desejável um arejamento democrático do ponto da situação neste campo?
É que o fenómeno pode ter consequências irreversíveis e, sobretudo, porque diz respeito a todos nós, os humanos.

Fundevila, 7 de Outubro de 2020


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