Ano velho, ano novo

1. O ano de 2020 ficará indelevelmente assinalado na história da humanidade com um marco inesquecível, a COVID-19, que assinalará

o ano em que mais uma vez a Humanidade se viu abalada por um inimigo invisível, o coronavírus Sars2 que conseguiu ultrapassar as barreiras da defesa da nossa vida, confirmando a vulnerabilidade do nosso sistema imunitário.

Desde o seu aparecimento na China no final de 2019, provocou já mais de 90 milhões de infetados e quase dois milhões de mortos em todo o mundo.

Não fosse o estado de desenvolvimento avançado da ciência e a partilha do conhecimento entre cientistas e teríamos que aguardar, provavelmente, ainda vários anos até ser encontrada a vacina que, desta vez, se obteve no espaço inferior a um ano.

A seguir à tempestade vem sempre a bonança”, diz o povo na sua sabedoria milenar. O problema é quando se confunde a fronteira entre esses dois estados, pensando ter chegado a bonança e ser engolido pela tempestade.

A chegada do Natal e o início da vacinação induziram os portugueses e seus governantes em erro semelhante. Afinal, a bonança não havia chegado ainda, mas, antes sim, a terceira onda da pandemia. As consequências começam a ficar à vista.

2. O novo ano ficará também assinalado por dois actos eleitorais. O primeiro, dentro de 11 dias, para eleger o presidente da República; o segundo, lá para outubro, para eleger os órgãos autárquicos.

Quanto às presidenciais, tudo leva a crer que, mais uma vez, se cumprirá a regra dos dois mandatos, sendo Marcelo Rebelo de Sousa reconduzido. Foi assim com Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva.

Na verdade, os debates a que temos assistido vieram realçar a grande diferença entre o actual presidente-candidato e os restantes concorrentes.

Ficou bem clara essa diferença, sobretudo no debate com André Ventura, no qual Marcelo Rebelo de Sousa conseguiu realçar, para quem tivesse dúvidas, a grande diferença entre a direita democrática, plural, humanista, baseada nos ensinamentos emanados da doutrina social da igreja, presente sobretudo nas encíclicas papais, e uma direita populista, materialista, securitária, alheia a princípios básicos como, solidariedade e amor ao próximo, princípios presentes nos alicerces da civilização ocidental. Uma direita musculada e contestatária, alimentada à custa do descontentamento de uma franja cada vez maior de população que, confrontada com o desemprego e perda de rendimento, se tem sentido esquecida pelas elites e pelos governantes ao longo destes últimos anos de crise económica e social.

3. As eleições autárquicas de Outubro próximo, não sendo ainda muito perceptíveis, estão já no terreno, assumindo mais visibilidade após concluído o processo de eleição da presidência da República.

O agendamento de inaugurações está já há muito feito e acompanha, como de costume, o calendário eleitoral. Tal como dizia um conhecido político local, é o tempo de apresentação de contas dos políticos ao eleitorado que os elege.

Neste ano, tais eleições, poderão servir também para o reforço ou debilitação de lideranças partidárias, nomeadamente nos partidos CDS e PSD. As oposições internas, ávidas de poder, e desprezando o importante papel que cabe às oposições, estão atentas ao mínimo deslize para pôr em causa essas lideranças.

4. Ainda a assinalar este ano de 2021, ficará mais uma presidência portuguesa da União Europeia, a quarta, depois das de Cavaco Silva, António Guterres e José Sócrates.
Apesar dos importantes passos já dados pela presidência alemã, com o Brexit concluído e os orçamentos europeus acordados com os contestatários Hungria, Polónia e Checoslováquia, António Costa tem pela frente uma tarefa ciclópica.

A nível europeu está quase tudo por fazer. Para além do objetivo afirmado da digitalização e do clima, continuam ainda em falta verdadeiros passos no sentido da afirmação da Europa como verdadeira entidade unidade económica, social e política, impondo-se no xadrez mundial em plano de igualdade com Estados Unidos, Rússia e China.

Oxalá seja bem sucedido.

Bom ano para todos.

Guimarães, 11 de Janeiro de 2021
António Monteiro de Castro


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